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Tecnologia & Inovação

Nvidia quer usar tokens de IA como incentivo além do salário

Publicado 20/03/2026 • 08:05 | Atualizado há 3 horas

KEY POINTS

  • Jensen Huang propôs dar aos engenheiros “tokens de IA” além de seu salário base.
  • Huang também prevê que a Nvidia um dia empregará centenas de milhares de agentes de IA, superando em número seus 42.000 funcionários humanos.
  • Os agentes de IA alimentaram os receios de que irão, cada vez mais, eliminar os trabalhadores de escritório.

Simon Liu/Gabinete do Presidente

Jensen Huang, CEO da Nvidia.

Os benefícios de trabalhar no Vale do Silício sempre incluíram salários elevados. Agora, alguns engenheiros podem receber um novo incentivo: tokens de inteligência artificial.

O CEO da Nvidia, Jensen Huang, apresentou na segunda-feira um modelo de remuneração inédito que daria aos engenheiros um orçamento em tokens além do salário-base, na prática pagando-os para implementar agentes de IA como multiplicadores de produtividade.

Tokens, unidades de dados utilizadas por sistemas de IA, podem ser usados para operar ferramentas e automatizar tarefas e estão se tornando “uma das ferramentas de recrutamento no Vale do Silício”, afirmou Huang.

“[Engenheiros] vão ganhar algumas centenas de milhares de dólares por ano, esse é o salário-base”, disse Huang durante a conferência anual GPU Technology Conference da fabricante de chips.

“Vou dar provavelmente metade disso adicionalmente em tokens… porque todo engenheiro que tiver acesso a tokens será mais produtivo.”

A proposta sinaliza a visão mais ampla de Huang para o ambiente de trabalho, na qual engenheiros supervisionam uma “frota” de agentes de IA capazes de concluir tarefas complexas, com múltiplas etapas, de forma autônoma e com mínima intervenção humana.

Essa é uma visão que Huang vem construindo publicamente. No mês passado, ele disse à CNBC que os funcionários da Nvidia trabalharão, no futuro, ao lado de centenas de milhares de agentes de IA.

“Tenho 42 mil funcionários biológicos e vou ter centenas de milhares de funcionários digitais”, afirmou.

As declarações surgem em meio ao aumento das preocupações de que agentes de IA — sistemas capazes de executar tarefas complexas e em várias etapas de forma independente — possam esvaziar empregos de escritório.

Em um memorando a investidores, Howard Marks, fundador da Oaktree Capital Management, alertou para “um salto incrível nas capacidades da IA”, que agora permite que ela “aja de forma autônoma” — um fator determinante para sua capacidade de substituir o trabalho humano.

“Essa diferença é o que separa um mercado de US$ 50 bilhões de um mercado de trilhões de dólares”, disse o investidor veterano.

O Goldman Sachs estima que a IA pode automatizar tarefas que correspondem a 25% de todas as horas de trabalho nos Estados Unidos, o suficiente para alimentar temores do que alguns chamam de “apocalipse do emprego”.

O banco projeta um ganho de produtividade de 15% com a IA, o que pode levar ao deslocamento de 6% a 7% dos empregos ao longo do período de adoção.

“Os riscos estão inclinados para um deslocamento maior caso a IA substitua mais trabalho do que tecnologias anteriores”, disse Joseph Briggs, economista-chefe global do Goldman.

Cerca de 60% dos trabalhadores atuais estão empregados em ocupações que não existiam em 1940, afirmou Briggs, citando um estudo do economista David Autor — o que sugere que a IA tornará algumas funções obsoletas enquanto criará outras que ainda não existem.

Agentes de IA impulsionam a demanda por software

Huang adota uma visão otimista sobre o impacto dos agentes de IA na indústria de software, classificando-o como “contraintuitivo”. Em vez de reduzir a demanda, os agentes de IA devem se tornar seus maiores consumidores.

A lógica é a seguinte: mais agentes de IA significam maior demanda pela infraestrutura de software na qual operam — programas, ferramentas e recursos computacionais que os sustentam.

“O número de compiladores C que usamos, o número de programas em Python que temos, o número de instâncias, está crescendo muito, muito rápido — porque o número de agentes que utilizam essas ferramentas está aumentando”, afirmou.

Bruno Guicardi, presidente e fundador da empresa de tecnologia da informação CI&T, descreveu a mudança como uma verdadeira transformação de paradigma. “Uma nova camada de abstração está sendo criada por meio dos agentes”, disse.

“Agora, engenheiros de software podem ‘dizer’ aos computadores o que fazer, não em linguagem de programação, mas em inglês simples. Trabalhos que levavam meses agora são concluídos em poucos dias. E vemos isso apenas acelerar daqui para frente.”

‘Paradoxo do talento’

A ansiedade impulsionada pela IA em relação à substituição de trabalhadores tem sido difícil de conter, mesmo com empresas enfrentando escassez de profissionais qualificados.

O mercado de trabalho vive atualmente um “paradoxo do talento”: 98% dos executivos de alto escalão (C-level) esperam que a IA leve à redução de quadros nos próximos dois anos, enquanto 54% apontam a escassez de talentos como seu principal desafio macroeconômico, disse Lewis Garrad, líder de prática de carreira na consultoria Mercer Asia.

Cerca de 65% dos executivos esperam que entre 11% e 30% de sua força de trabalho seja realocada ou requalificada por causa da IA até 2026, estima Garrad.

Os empregos de entrada enfrentam o maior risco, já que a IA elimina tarefas “de transição” historicamente usadas para treinar novos profissionais, ampliando ainda mais a lacuna de habilidades em um momento em que a demanda por trabalhadores com conhecimento em IA acelera, acrescentou.

Funções que envolvem análise de dados, processamento de documentos, comparação de informações e elaboração de relatórios iniciais estão entre as primeiras na fila para substituição, disse Andreas Welsch, fundador da consultoria Intelligence Briefing e autor de The Human Agentic AI Edge.

Briggs, do Goldman, também reconhece que a transição não será sem atritos, mesmo no cenário mais otimista, prevendo que a taxa de desemprego bruto pode subir cerca de meio ponto percentual no pico à medida que o mercado de trabalho se ajusta a uma nova era.

Ainda assim, novos empregos devem surgir, afirmou Briggs, destacando que a mudança tecnológica sempre foi um dos principais motores de geração de empregos no longo prazo, por meio da criação de novas ocupações.

Dezenas de milhões de pessoas hoje trabalham em setores como computação, economia de bicos, comércio eletrônico, criação de conteúdo e videogames — indústrias que eram ficção científica há uma geração.

Ainda assim, integrar capacidades de IA aos fluxos de trabalho corporativos existentes pode, no fim, se mostrar mais difícil do que a própria tecnologia. Cerca de 80% a 85% dos projetos de IA falharam desde 2018 — uma estatística preocupante para um setor repleto de entusiasmo, observou Welsch.

“Não seria desejável ter centenas de milhares de agentes que criem mais problemas do que resolvem”, concluiu.

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