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A histórica relação entre os argentinos e a carne bovina está mudando; saiba por que

Publicado 23/12/2025 • 13:28 | Atualizado há 6 meses

AFP

KEY POINTS

  • O vínculo com a carne é antigo. O historiador Felipe Pigna, autor de "Carne, uma paixão argentina", relata à AFP que, no início do século XIX, o consumo chegava a 170 quilos por habitante ao ano.
  • Em 2024, registrou-se a mínima histórica no consumo de carne na Argentina: 47 kg por habitante, lado a lado com o Uruguai.
  • O produto tornou-se uma "marca" mundial graças às pastagens na imensa Pampa, à introdução das raças britânicas Angus e Hereford e ao abastecimento de países beligerantes durante as guerras mundiais.
Carne bovina: com salvaguarda da China, Brasil pode deixar de exportar até 500 mil t

Luis Robayo / AFP

Os argentinos seguem entre os maiores consumidores de carne bovina do mundo, ao lado do Uruguai. Ainda assim, nunca comeram tão pouco. A relação histórica do país com a carne passa por uma transformação estrutural: o produto perde protagonismo no consumo doméstico e encontra um novo horizonte na exportação, especialmente para a Ásia.

O asado, símbolo máximo da identidade gastronômica argentina, enfrenta uma mudança cultural profunda. Globalização dos hábitos alimentares, preços mais competitivos do frango e do porco, além de preocupações ambientais e de saúde, estão redesenhando o padrão de consumo.

Em 2024, o país registrou a mínima histórica no consumo de carne bovina: 47 quilos por habitante ao ano, patamar semelhante ao do Uruguai. Em 2025, houve uma leve recuperação para 50 kg, impulsionada parcialmente pela desaceleração da inflação, mas a tendência estrutural segue de queda, segundo o Instituto de Promoção da Carne Bovina Argentina (IPCVA).

Para efeito de comparação, cada argentino consumia quase 100 kg por ano no fim dos anos 1950 e cerca de 75 kg em 1995. No México, o consumo ficou em apenas 16 kg em 2024.

“No mínimo, duas ou três vezes por semana. Não todos os dias como antes”, resume Alejandro Pérez, 39 anos, em entrevista à AFP, durante um festival de churrasco nos arredores de Buenos Aires.

Mesmo eventos emblemáticos como o “Locos por el asado”, que reuniu milhares de pessoas recentemente, refletem essa adaptação. “Por gosto e também porque carne em grande quantidade já não faz bem na minha idade”, diz Graciela Ramos, 73 anos, evocando a tradição das mesas longas e familiares, hoje menos frequentes.

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Uma identidade em transição

O vínculo argentino com a carne é secular. No início do século XIX, o consumo chegava a 170 kg por habitante ao ano, segundo o historiador Felipe Pigna. A abundância de gado, introduzido no século XVI, tornou a carne barata, acessível e central na dieta de todas as classes sociais.

No fim do século XIX, avanços como a salga e os frigoríficos, aliados às pastagens da Pampa e às raças Angus e Hereford, transformaram a carne argentina em uma marca global, especialmente durante as guerras mundiais.

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“A carne está no tango, no folclore, na formação do ser argentino”, afirma Pigna. Mas esse papel simbólico já não é absoluto.

Uma pesquisa da União Vegana Argentina indica que 12% da população é vegetariana ou vegana, um salto expressivo frente a duas décadas atrás. Produtos veganos se multiplicam nos supermercados, restaurantes especializados avançam nos bairros nobres e cursos universitários passam a incluir nutrição vegetariana.

O fator econômico também pesa. “A carne nunca esteve tão cara na história argentina”, destaca Pigna — um dado-chave em um país que enfrenta volatilidade macroeconômica, perda de renda real e pressão inflacionária crônica.

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Exportação ganha protagonismo

Apesar da retração no mercado interno, o setor não demonstra alarme. Em 2024, a Argentina produziu 3,1 milhões de toneladas de carne, exportando quase um terço desse volume, segundo dados oficiais.

A demanda internacional cresce, puxada pela Ásia — com a China absorvendo cerca de 70% das exportações argentinas. O consumo per capita asiático ainda é baixo, entre 3 e 5 kg por ano, o que abre espaço para expansão, afirma George Breitschmitt, presidente do IPCVA.

“A Argentina mantém o rótulo de melhor carne do mundo, mas não pode se acomodar. A concorrência está avançando”, alerta.

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