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Aço brasileiro é pressionado por novo tarifaço apesar de escapar da tarifa de 25% 

Publicado 02/06/2026 • 22:19 | Atualizado há 48 minutos

KEY POINTS

  • Proposta da Seção 301 exclui aço, alumínio e outros metais, já enquadrados pela Seção 232 como produtos de segurança nacional.
  • Pressão indireta pode atingir siderúrgicas brasileiras por desaceleração econômica, cadeia automotiva e risco diplomático nas negociações com os EUA.
  • Capital chinês avança no Paraguai com planta voltada ao mercado brasileiro de vergalhão, segmento de aço longo ainda sem antidumping ativo no Brasil.
Siderúrgicas. antidumping

Siderúrgicas.

Aço ficou de fora de novas tarifas de Trump

O aço brasileiro ficou de fora da proposta americana de impor tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras, divulgada nesta terça-feira (2). Produtos como aço, alumínio e outros metais são enquadrados em um dispositivo separado, a Seção 232, que trata essa classe de produtos como tema de segurança nacional.

Ficar fora da lista, no entanto, não significa ficar fora do impacto. Gerdau, Usiminas e CSN podem enfrentar riscos nos próximos trimestres, diante de pressão de custos, concorrência importada e um ambiente diplomático mais difícil para negociações com os Estados Unidos.

O primeiro canal de pressão passa pela macroeconomia brasileira. Uma tarifa de 25% sobre produtos do agronegócio e manufaturados tende a reduzir a receita de exportação do país, desacelerar o crescimento e comprimir a demanda por aço em construção civil, infraestrutura e bens de capital, setores que respondem por parcela relevante do consumo doméstico de aço no Brasil.

O agravante é que o mercado interno já estava fragilizado antes da nova tensão comercial. A penetração de importações de aço longo saltou de 9% para 16% entre fevereiro e março de 2026, enquanto as margens Ebitda das siderúrgicas brasileiras seguem abaixo de 10%.

Esse é um patamar que analistas do setor não veem se alterando de forma sustentável no curto prazo, mesmo após os reajustes de preço anunciados para o vergalhão em abril e maio. A demanda ainda não sustenta a implementação plena desses aumentos.

A pressão tarifária sobre outros setores da economia brasileira reduz ainda mais o espaço para que essa recuperação ganhe consistência.

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Cadeia automotiva é o flanco mais sensível

O segundo canal de pressão é mais específico e atinge um ponto que o setor siderúrgico já monitorava com atenção. O segmento automotivo americano depende de peças e componentes fabricados no Brasil, e esses itens figuram entre os produtos que passam a enfrentar a tarifa de 25% proposta pela Seção 301.

A medida pode desorganizar cadeias de fornecimento que abastecem diretamente montadoras instaladas nos Estados Unidos.

A ruptura nessa cadeia afeta a produção de aços especiais, insumo para o segmento automotivo americano, em um momento em que relatórios recentes ao mercado já sinalizavam que o setor automotivo representava a dinâmica mais difícil dentro das operações siderúrgicas na América do Norte.

A proposta americana adiciona uma nova variável a esse quadro. A pressão deixa de vir apenas da demanda final e passa a alcançar também o fornecimento de peças que organiza a produção das próprias montadoras.

Diplomacia envenenada nas negociações de cotas

O terceiro canal é o mais silencioso e, possivelmente, o de consequências mais duradouras. A Seção 232, que regula o aço, prevê a possibilidade de negociação de cotas e isenções bilaterais.

Em 2018, no primeiro governo Trump, o Brasil conseguiu fechar um acordo desse tipo, garantindo acesso sem tarifa para até 3,5 milhões de toneladas de aço semiacabado por ano. O volume representa mais de 60% da necessidade americana de aço semiacabado.

Hoje, porém, o Brasil acumula frentes de acusação abertas pelos Estados Unidos em um único documento, que vão de censura digital e corrupção a desmatamento ilegal.

Tentar abrir uma negociação de isenção tarifária para o aço nesse ambiente é uma tarefa mais complexa do que foi em 2018. A Seção 301 não toca o aço diretamente, mas contamina a mesa onde qualquer acordo sobre o setor precisaria ser negociado.

Essa deterioração estreita a margem diplomática justamente no momento em que o setor mais precisaria dela.

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Capital chinês já encontrou a janela aberta

Enquanto o Brasil administra esse ambiente, um movimento silencioso avança em suas fronteiras. Um grupo empresarial ligado às províncias de Zhejiang e Fujian, na China, está construindo uma planta de cerca de 200 mil toneladas por ano de vergalhão e fio-máquina em Yguazú, no Paraguai.

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O projeto, sob o nome Acereste, deve direcionar cerca de 70% da produção ao mercado brasileiro. Representantes comerciais do grupo já percorrem distribuidores em São Paulo e no Paraná para prospectar contratos de fornecimento antes mesmo da inauguração, prevista para junho deste ano.

🔍 Vergalhão e fio-máquina são produtos de aço longo usados principalmente na construção civil. O segmento de aço longo é hoje o único sem cobertura ativa de medidas antidumping no Brasil, o que o torna o ponto de entrada natural para importações de origem chinesa.

O movimento é uma resposta ao fechamento parcial do mercado de aço plano pelas medidas antidumping implementadas em fevereiro de 2026, que reduziram a penetração do aço plano importado de 33% para 23% em março.

Com isso, o capital chinês migra para onde a porta ainda está aberta, e o faz de dentro do Mercosul, com uma fábrica paraguaia que formalmente não está sujeita às mesmas barreiras.

A escala da Acereste ainda é pequena, mas o modelo, se demonstrar viabilidade comercial, pode ser replicado com rapidez. O canal com distribuidores brasileiros já está sendo construído antes da primeira tonelada sair da linha de produção.

Leia também: Entenda por que tarifa dos EUA contra o Brasil deve avançar apesar de espaço para negociações

Um relatório do Bradesco de junho de 2025 estimou que a tarifa de 50% imposta pela Seção 232 sobre o aço estrangeiro nos Estados Unidos, vigente desde 4 de junho daquele ano, já era capaz de derrubar as exportações brasileiras do metal em 11%.

Isso equivaleria a 1,6 milhão de toneladas a menos e perda de US$ 1,5 bilhão em receitas. A nova proposta tarifária não entra nessa conta, mas aprofunda o isolamento do Brasil em uma negociação que já estava complicada.

O setor passa a administrar pressões simultâneas por diferentes frentes, sem alívio claro no horizonte próximo.

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