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Anfavea reage à cota que beneficia BYD e diz que decisão do governo põe em xeque confiança da indústria

Publicado 23/06/2026 • 19:25 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • A Anfavea diz ver com “grande preocupação” a decisão do Gecex de restabelecer cotas com alíquota zero para veículos eletrificados desmontados e semidesmontados.
  • Entidade afirma que a medida foi tomada sem consulta ao setor produtivo e altera uma política definida pelo próprio governo após debate com a indústria.
  • Associação sustenta que a eletrificação já avança no país, com R$ 140 bilhões em investimentos anunciados até 2033 e crescimento de 57% no mercado atendido por veículos produzidos no Brasil até maio.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) reagiu à decisão do governo de restabelecer cotas com alíquota zero para veículos elétricos desmontados e semidesmontados, os chamados CKD e SKD, em uma medida que beneficia a BYD e contraria a mobilização da indústria nacional.

Em nota divulgada nesta terça-feira (23), a entidade afirmou que “lamenta” e vê com “grande preocupação” a decisão do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex). Para a Anfavea, o governo voltou a conceder incentivos à importação em um momento em que a produção local de eletrificados já está em expansão.

A decisão do Gecex manteve a alíquota de 35% para veículos eletrificados montados e semidesmontados a partir de julho, mas criou cotas adicionais de importação com imposto zero para CKD e SKD por seis meses, em um total de US$ 463 milhões. Carros montados não terão cotas.

A medida atende parcialmente à pressão da BYD, que vinha defendendo a retomada dos benefícios de importação e o adiamento da recomposição tarifária. A fabricante chinesa instalou fábrica em Camaçari, na Bahia, mas ainda depende da importação de veículos em diferentes níveis de montagem enquanto nacionaliza sua produção.

Leia também: Indústria se mobiliza contra pressão da BYD por benefício que favorece montadora e põe empregos e fornecedores em risco

Segundo a Anfavea, a decisão é contrária aos interesses dos trabalhadores, das fabricantes nacionais de veículos e das empresas brasileiras de autopeças. A entidade afirma que a posição foi reforçada nos últimos dias por dezenas de manifestações públicas assinadas por sindicatos, centrais sindicais, federações empresariais e associações da indústria.

A associação também critica a forma como a decisão foi tomada. Para a Anfavea, a mudança ocorreu sem consulta ao setor produtivo e alterou de forma intempestiva uma política definida pelo próprio governo para combinar a expansão da eletromobilidade com a atração de investimentos produtivos de longo prazo para o Brasil.

“As cotas para importação de kits de veículos elétricos terminaram em fevereiro de 2026, conforme definido no ano passado pelo governo após longo debate com o setor produtivo”, afirma a entidade na nota.

A Anfavea sustenta que, ao prolongar benefícios criados como temporários, o governo coloca em xeque a confiança de empresas que ajustaram seus planos de investimento com base nas regras pactuadas. A entidade afirma que a mudança ocorre em detrimento de empresas e trabalhadores espalhados por nove estados do país.

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Na avaliação da associação, a discussão deixou de ser sobre como acelerar a entrada de veículos eletrificados no mercado brasileiro. Para a Anfavea, a transição já está em curso. O ponto central agora é definir se essa expansão será acompanhada de produção local, desenvolvimento tecnológico, fornecedores, engenharia e agregação de valor no país.

A entidade afirma que a eletrificação avançou de forma acelerada nos últimos anos. Segundo a Anfavea, os emplacamentos de eletrificados importados cresceram 214% entre 2023 e 2025, enquanto fabricantes anunciaram R$ 140 bilhões em investimentos no Brasil até 2033, voltados a novas formas de propulsão, eletrificação, pesquisa, engenharia, modernização industrial e ampliação da cadeia de fornecedores.

A produção nacional também avançou, segundo a entidade. Em 2025, veículos eletrificados produzidos no país responderam por 25,9% das vendas do segmento. No acumulado até maio de 2026, o mercado atendido por veículos produzidos no Brasil cresceu 57% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Leia também: Governo cede à pressão da BYD e recria cota de importação que beneficia apenas a montadora

Para a Anfavea, benefícios à importação podem cumprir papel relevante nas fases iniciais de implantação industrial. Mas a ampliação desses incentivos em um momento em que investimentos já foram anunciados e a produção local cresce reduz os estímulos à evolução produtiva esperada para a nova etapa da indústria automotiva.

“A decisão também contraria a sinalização que orientou investimentos anunciados sob as regras vigentes e gera insegurança para empresas que estruturaram projetos considerando o cronograma estabelecido pelo próprio governo”, afirma a entidade.

A Anfavea diz que continuará defendendo a descarbonização, a eletrificação da frota, a concorrência e a ampliação da oferta de veículos ao consumidor brasileiro. Mas afirma que o debate aberto pela decisão do Gecex não é sobre a transição energética, e sim sobre o modelo de desenvolvimento que o país pretende incentivar para a nova mobilidade.

“O que está em debate é qual modelo de desenvolvimento o país pretende incentivar para a nova mobilidade e qual espaço será reservado à produção nacional nesse processo”, diz a nota.

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