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Indústria se mobiliza contra pressão da BYD por benefício que favorece montadora e põe empregos e fornecedores em risco

Publicado 22/06/2026 • 22:40 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Fiesp pediu que o tema seja retirado da pauta da reunião do Gecex desta terça-feira (23), alegando falta de debate prévio e risco à previsibilidade regulatória.
  • Em documento, a Fiesp afirma ter recebido a informação “com estranheza”, já que decisões anteriores do próprio Gecex indicavam que as cotas de importação se encerrariam em janeiro de 2026 e que as tarifas para veículos eletrificados seriam recompostas gradualmente até 35%.
  • Entidades e Federações da indústria de outros estados  afirmam que a mudança romperia um cronograma acertado com o setor há cerca de dois anos e serviu de base para investimentos no país.

Até o momento, cinco entidades industriais enviaram cartas, ofícios e manifestações formais ao governo federal pedindo que o Brasil não ceda à pressão da BYD e mantenha o cronograma de recomposição tarifária para veículos eletrificados importados.

A mobilização ocorre às vésperas da 238ª reunião ordinária do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex), marcada para esta terça-feira (23). O encontro pode discutir a retomada de cotas de importação com alíquota zero para kits de veículos eletrificados, benefício defendido pela fabricante chinesa.

A manifestação mais recente é da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Em ofício enviado nesta segunda-feira (22) ao ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, o presidente da entidade, Paulo Skaf, pediu que o assunto não seja pautado na reunião do Gecex.

“Solicito que o assunto não seja pautado na reunião de amanhã (22), para que haja tempo suficiente para uma discussão ampla e fundamentada com todas as partes interessadas”, escreveu Skaf.

No documento, a Fiesp afirma ter recebido a informação “com estranheza”, já que decisões anteriores do próprio Gecex indicavam que as cotas de importação se encerrariam em janeiro de 2026 e que as tarifas para veículos eletrificados seriam recompostas gradualmente até 35%.

Para a entidade, a retirada do tema da pauta é necessária em nome da previsibilidade regulatória e da preservação dos investimentos da indústria brasileira.

Leia também: Anfavea divulga carta aberta e cobra do governo fim dos privilégios à BYD

No mesmo dia, a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) enviou ofício à Secretaria-Executiva da Camex reforçando a mesma posição. O presidente da entidade, Claudio Bier, afirmou que o descumprimento de cronograma e sistemática anteriormente acordados pode representar uma ameaça à indústria automotiva nacional e reduzir potenciais investimentos de empresas estrangeiras com aportes no Brasil.

A Fiergs também destacou que, no acumulado até maio de 2026, o mercado atendido por veículos produzidos no país cresceu 57% na comparação com o mesmo período de 2025.

Mobilização começou na sexta-feira

A pressão das entidades começou na sexta-feira (19), quando Anfavea, Firjan e Sindipeças divulgaram posicionamentos contra a retomada das cotas.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) publicou carta aberta defendendo a manutenção integral do cronograma tarifário e anunciou que avalia entrar na Justiça caso o governo aprove o retorno do benefício.

“O eventual retorno do benefício para elétricos importados será um desestímulo ao processo de neoindustrialização, defendido pelo próprio governo, e colocará em risco a geração e a manutenção de milhares de empregos no Brasil”, afirmou Igor Calvet, presidente da Anfavea.

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) também enviou carta ao ministro Márcio Elias Rosa. A entidade manifestou “forte preocupação” com o aumento das importações de veículos de origem chinesa e defendeu a manutenção da alíquota de 35%, o fim das cotas com alíquota zero e a rejeição de qualquer mecanismo equivalente à postergação do cronograma.

Segundo a Firjan, o setor automotivo no Rio de Janeiro responde por cerca de 11 mil empregos diretos e 24 mil postos ao longo da cadeia produtiva.

“O cenário internacional segue apresentando tendência de elevação das tarifas de importação no setor automotivo em grandes mercados como os EUA, União Europeia e Canadá. Estas medidas são um reflexo direto do escoamento da sobreprodução chinesa”, disse a entidade.

Também na sexta-feira, o Sindipeças, que representa a indústria de autopeças em nível nacional, enviou carta ao presidente Lula pedindo a manutenção do cronograma tarifário.

“A agressividade da indústria chinesa de produtores de automóveis é fenômeno observado mundialmente, e aqui tem expressão acentuada e com maiores reflexos danosos, efeitos que foram contornados em outros países com adoção de tarifas elevadas para coibir práticas desleais de comércio”, afirmou Cláudio Sahad, presidente do Sindipeças.

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O que está em jogo

A ofensiva das entidades mira diretamente a pressão da BYD pela reativação das cotas de importação isentas de impostos para kits de veículos eletrificados e pelo adiamento da entrada em vigor da alíquota de 35% prevista para julho.

A montadora chinesa já havia recebido um prazo de seis meses para importação com alíquota zero, encerrado em janeiro. Agora, tenta reverter o cronograma definido pelo governo.

A BYD instalou fábrica em Camaçari, na Bahia, onde conta com incentivos de ICMS do governo estadual. Ainda assim, segundo a Anfavea, a empresa segue importando veículos praticamente prontos, modelo que a indústria nacional considera prejudicial à produção local.

Segundo estudo da Anfavea, a massificação da fabricação com kits importados poderia gerar redução de R$ 103 bilhões em compras de autopeças locais e de R$ 26 bilhões na arrecadação de ICMS e PIS/Cofins, num total de R$ 129 bilhões de impacto entre cadeia de fornecedores e arrecadação tributária.

Em empregos, a entidade projeta a eliminação de 69 mil postos diretos e 227 mil em fornecedores.

Para as entidades, mudar as regras agora significaria romper um cronograma pactuado com a indústria há cerca de dois anos, que previa recomposição gradual das tarifas até 35% e serviu de base para investimentos anunciados no país.

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