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Cenário fiscal será determinante para economia brasileira em 2027, diz JPMorgan

Publicado 01/09/2026 • 11:45 | Atualizado há 50 minutos

KEY POINTS

  • A economia brasileira deve entrar em 2027 em ritmo mais lento, diz economista-chefe do JP Morgan.
  • A combinação de incertezas domésticas e externas dificulta antecipar o desempenho da atividade, da inflação e dos juros no próximo ano.
  • Parte relevante das perspectivas dependerá do resultado das eleições e, principalmente, das medidas econômicas que o novo governo conseguirá aprovar no Congresso.
JPMorgan.

Foto: Unsplash

A economia brasileira deve entrar em 2027 em ritmo mais lento, enquanto o próximo governo terá de lidar com o avanço da dívida pública, inflação ainda acima da meta e um cenário internacional marcado por juros elevados e tensões geopolíticas. A avaliação foi realizada por Cassiana Fernandez, economista-chefe do JPMorgan, durante evento na capital paulista.

Segundo a economista, a combinação de incertezas domésticas e externas torna especialmente difícil antecipar o desempenho da atividade, da inflação e dos juros no próximo ano.

No Brasil, parte relevante das perspectivas dependerá do resultado das eleições e, principalmente, das medidas econômicas que o novo governo conseguirá aprovar no Congresso. “Nunca foi tão difícil traçar um cenário para a economia. Vivemos um momento de muitas incertezas”, disse.

Leia também: JPMorgan reduz recomendação para o Brasil e adota posição neutra

Cenário externo amplia riscos

No ambiente internacional, Fernandez destacou que as principais economias seguem trajetórias distintas. Os Estados Unidos mantêm crescimento mais resistente do que se previa, embora com forte participação do setor de tecnologia. A Europa ainda enfrenta dificuldades para sustentar uma expansão mais robusta, enquanto a China continua em processo de desaceleração.

Um dos principais pontos de atenção está nos juros internacionais. Com o aumento das dívidas soberanas, a expectativa do JPMorgan é de que as taxas permaneçam elevadas por um período prolongado, o que tende a tornar o ambiente financeiro mais desafiador para economias emergentes.

As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio também permanecem como fontes de volatilidade, especialmente por seus possíveis efeitos sobre petróleo, outras commodities e cadeias produtivas. Nos Estados Unidos, as eleições legislativas de meio de mandato acrescentam outro componente de incerteza, com possíveis consequências para a política comercial e para os mercados.

Para o Brasil, Fernandez também chamou atenção para os riscos climáticos. A eventual ocorrência de um El Niño mais intenso em 2027 poderia afetar a produção agrícola e pressionar os preços dos alimentos.

Atividade brasileira perde ritmo

Depois de crescer acima de 3% em 2023 e 2024 e avançar 2,5% em 2025, a economia brasileira deve continuar desacelerando. O JPMorgan trabalha com crescimento próximo de 2% em 2026 e de aproximadamente 1% em 2027.

O movimento ocorre em um ambiente de juros elevados e maior comprometimento da renda das famílias com dívidas. Fernandez também apontou sinais de perda de força no mercado de trabalho e redução da rentabilidade das empresas.

A inflação, por sua vez, continua resistente. A projeção apresentada pela economista é de IPCA próximo de 4,9% no fim deste ano, com possível influência de fatores climáticos sobre os alimentos. Para 2027, a expectativa é de desaceleração para perto de 4%, ainda acima da meta do Banco Central.

“Ano que vem, provavelmente, vai ser um crescimento ainda mais baixo, ao redor de 1%”, afirmou.

Eleições e Congresso entram no radar

Na avaliação de Fernandez, o resultado da disputa presidencial será apenas uma das variáveis relevantes para definir o cenário econômico de 2027. A composição do Congresso também terá peso significativo, já que eventuais medidas de ajuste fiscal e mudanças estruturais dependerão do apoio parlamentar.

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A economista classificou a disputa presidencial como competitiva e afirmou que esse quadro mantém elevada a incerteza para investidores. Mais do que as propostas apresentadas durante a campanha, a atenção deverá se voltar à formação da equipe econômica e à capacidade do próximo governo de transformar sua plataforma em medidas efetivas.

Os primeiros projetos e o orçamento apresentados pela nova administração deverão, segundo ela, funcionar como indicadores da direção da política econômica para os anos seguintes.

Dívida pública pressiona cenário fiscal

O quadro das contas públicas foi apontado como um dos principais desafios para o próximo governo. Fernandez observou que a dívida avançou cerca de dez pontos percentuais do PIB em três anos e pode se aproximar de 85% do PIB em 2027.

Na avaliação da economista, a ausência de mudanças relevantes na política fiscal dificulta a construção de um cenário em que a dívida pública consiga ao menos se estabilizar. O problema também afeta a percepção dos investidores responsáveis pelo financiamento do déficit público.

Nesse contexto, o JPMorgan espera que o próximo governo tenha incentivos para promover algum grau de correção na trajetória das contas públicas. A evolução dos juros domésticos também deverá depender da relação entre as políticas fiscal e monetária.

“É fundamental estabelecer, fortalecer essa responsabilidade fiscal.”

Investimento externo e reforma tributária são contrapontos

Apesar da desaceleração e dos riscos fiscais, Fernandez apontou fatores que podem reduzir a vulnerabilidade da economia brasileira. Entre eles estão o nível das reservas internacionais, a posição das contas externas e a entrada de investimento estrangeiro direto.

A estimativa apresentada é de ingresso próximo a US$ 80 bilhões em investimentos diretos em 2027. A economista também citou as negociações comerciais envolvendo o Mercosul e parceiros como União Europeia e Canadá.

Outro fator acompanhado pelo banco é a reforma tributária sobre o consumo, aprovada em 2023 e atualmente em implementação. Apesar das dúvidas relacionadas à transição e a pontos operacionais, Fernandez avalia que a mudança pode gerar ganhos de produtividade ao longo do tempo.

Mudança na meta de inflação é vista com cautela

Ao abordar a política monetária, Fernandez se posicionou contra uma eventual alteração da meta de inflação no atual contexto. Para ela, discutir uma mudança enquanto o IPCA permanece acima do objetivo oficial pode elevar a incerteza e afetar as expectativas dos agentes econômicos.

O risco seria o mercado interpretar a revisão como sinal de maior tolerância com a inflação e, com isso, incorporar taxas mais elevadas às projeções para os próximos anos.

“Nesse contexto, na minha visão, mexer na meta agora ou simplesmente trazer essa discussão não ajuda”, afirmou. “Manter a meta e a previsibilidade das regras é um pilar de credibilidade”, completou Fernandez.

Para a economista, a redução sustentável dos juros dependerá não apenas da desaceleração da inflação, mas também de maior coordenação entre as políticas fiscal e monetária. Por isso, 2027 deverá ser um ano de acompanhamento das primeiras decisões do novo governo, sobretudo das medidas incluídas no orçamento e de sua capacidade de obter aprovação no Congresso.

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