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Capital Sustentável: Brasil tem muito a perder se escolher lado entre EUA e China, diz Carlo Pereira

Publicado 30/09/2026 • 21:50 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Carlo Pereira avalia que o Brasil pode perder espaço ao se alinhar automaticamente a EUA ou China em meio à disputa entre as potências.
  • Agro, minerais e terras raras dão ao País instrumentos para negociar com os dois lados, sem necessidade de escolher um parceiro.
  • Encontros entre Trump e Xi reduzem riscos de escalada, mas ainda deixam de fora questões estruturais como chips e tecnologia.

O Brasil tem muito a perder caso escolha um lado entre Estados Unidos e China em meio à disputa econômica e geopolítica entre as duas potências, avaliou Carlo Pereira, especialista em sustentabilidade do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC. Para ele, o País dispõe de ativos estratégicos – do agronegócio às terras raras – que permitem negociar com Washington e Pequim sem adotar um alinhamento automático.

Em entrevista nesta quarta-feira (30) ao quadro Capital Sustentável, Carlo Pereira defendeu que o Brasil preserve sua capacidade de negociação e estabeleça objetivos próprios de longo prazo. “Um alinhamento direto com um ou com outro, eu acho que o Brasil tem muito a perder. E qualquer país, na verdade. A gente vê historicamente que o alinhamento automático nunca funcionou para país nenhum”, disse.

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A avaliação ocorre em um momento de sucessivos encontros entre Donald Trump e Xi Jinping. Depois da reunião do último fim de semana em Washington, os dois devem voltar a se encontrar na cúpula da APEC, em novembro, na China, e têm outra reunião prevista para dezembro, durante o G20 em Miami.

Diálogo evita escalada, mas impasses permanecem

Para Carlo Pereira, a frequência das reuniões não significa que Estados Unidos e China tenham superado suas divergências. Os encontros funcionam, neste momento, principalmente como uma forma de administrar os conflitos e impedir uma deterioração maior da relação.

“Essa aproximação Estados Unidos e China tem que existir. São as duas grandes potências do mundo. A gente se lembra, no pico da Guerra Fria, a União Soviética e os Estados Unidos estavam o tempo todo sentados juntos. E por quê? Porque a ausência de conversa é a guerra. O que sobra é a guerra”, declarou.

A reunião mais recente resultou na extensão da trégua comercial por dois meses, abaixo dos seis meses inicialmente esperados, além de cortes tarifários. Na avaliação de Carlo Pereira, porém, os principais pontos de atrito continuam sem solução.

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“Não saiu nada concreto, como você comentou. Então, o pacote de US$ 30 bilhões (R$ 155,1 bilhões), no comércio entre os dois, não é nada. E, claro, os temas mais importantes ficaram de fora. Chip, tecnologia, essas coisas estruturais ficaram de fora”, observou.

Carlo Pereira também apontou fatores internos que aumentam a pressão sobre Washington, entre eles os questionamentos sobre a economia norte-americana, o petróleo acima de US$ 100 (R$ 517) e as eleições de meio de mandato em novembro.

“Isso também a gente sabe que pressiona muito o governo norte-americano. Então, por isso, esses encontros são muito bons. A ideia era que tivesse uma trégua maior, de seis meses, mas eles vão conversando de pouco a pouco e se organizando”, acrescentou.

Chips e terras raras dão poder aos dois lados

A disputa envolve áreas nas quais cada potência possui instrumentos para pressionar a outra. Os Estados Unidos detêm vantagens em tecnologias estratégicas, especialmente semicondutores, enquanto a China controla recursos importantes ligados às terras raras e possui grande escala industrial.

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“É uma dança. Todo mundo tem ali o que pedir. Então, por isso, eles ficam ali se cheirando o tempo todo para que não tenha um desarranjo muito maior”, comparou Carlo Pereira.

Ele lembrou que existe outra trégua relacionada às terras raras, acertada em outubro do ano passado, em Busan, na Coreia do Sul. Mesmo com a retirada de algumas restrições ao envio desses materiais, Pequim manteve mecanismos de controle.

Do outro lado, a dependência chinesa de tecnologias como chips preserva uma importante carta de negociação para Washington. “É uma dança, de fato, entre os dois. Os dois têm muito a perder em um rompimento um com o outro”, ressaltou.

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Taiwan aumenta risco da disputa

Entre os assuntos que podem levar a uma escalada mais grave, Carlo Pereira destacou Taiwan. “Essa, sim, é uma carta mais perigosa dentro dessa discussão dos dois”, avaliou.

Segundo Carlo Pereira, Trump aceitou discutir com Xi, em maio, a venda de armas norte-americanas para Taiwan, uma questão à qual o líder chinês se opõe. “Isso aí romperia o que eles chamam das seis garantias. E aí, é claro, muitos países da região acenderam o alerta com essa discussão”, explicou.

Brasil precisa preservar espaço entre as potências

A preocupação do especialista é que uma relação cada vez mais bilateral entre Washington e Pequim faça com que decisões relevantes para o comércio mundial sejam negociadas diretamente pelas duas potências, com impactos sobre países que não participam dessas conversas.

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“Dois, G2, não é muito bom. Bom seria G7, G20, de fato, atuantes. Mas enquanto a gente tem um G2, ou que seja um G1, tudo bem. O que não pode é chegar no G0, porque aí é o caos completo”, disse, ao citar o conceito utilizado pelo cientista político Ian Bremmer.

Para ele, países como o Brasil precisam evitar uma vinculação automática a qualquer um dos lados. “Em briga de elefante, quem padece é a formiga que vai estar ali pisoteada”, comparou.

O especialista lembrou que negociações comerciais entre Estados Unidos e China podem atingir diretamente setores brasileiros. Ele citou o impacto sofrido pela soja brasileira após um acordo entre as duas potências durante o primeiro governo Trump e destacou que questões agrícolas voltaram às negociações mais recentes entre Washington e Pequim.

Agro e terras raras viram cartas brasileiras

Apesar dos riscos, Carlo Pereira considera que o Brasil possui ativos relevantes para negociar com as duas potências. A produção agrícola, os recursos minerais e as reservas de terras raras ampliam o espaço brasileiro nas conversas com Washington e Pequim.

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“Hoje tem uma dependência dos Estados Unidos com relação às terras raras da China, mas quer tirar essa dependência usando as terras raras do Brasil. A gente viu todos os movimentos aí, Serra Verde etc.”, explicou.

Esse cenário, reforça a necessidade de o País identificar seus próprios interesses antes de assumir compromissos com qualquer uma das potências. “A gente tem muito a negociar com ambas as partes. Então, o que a gente tem que entender é o que é melhor para o nosso desenvolvimento, não fazer um alinhamento automático”, destacou.

Essa estratégia, segundo Carlo Pereira, depende ainda de planejamento que ultrapasse os ciclos eleitorais. “Por isso da importância de o Brasil ter não planos de governo, que são sempre quebrados de quatro em quatro anos, mas planos de Estado”, concluiu.

Na avaliação do especialista, objetivos nacionais claros e de longo prazo são fundamentais para que o Brasil saiba o que pretende obter nas negociações com Estados Unidos e China, em vez de apenas reagir aos movimentos das duas potências.

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