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Disputa entre EUA e China abre novo espaço para o Brasil na ordem global
Publicado 22/09/2026 • 18:17 | Atualizado há 59 minutos
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Publicado 22/09/2026 • 18:17 | Atualizado há 59 minutos
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A multipolarização e o enfraquecimento da hegemonia dos Estados Unidos abrem espaço para países de porte médio, como o Brasil, ampliarem sua presença internacional, segundo Maria Hermínia Tavares de Almeida, cientista política e professora emérita de Ciência Política da USP. Em entrevista nesta terça-feira (22) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ela avaliou os discursos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Assembleia Geral da ONU.
Para Maria Hermínia, Lula preservou elementos tradicionais da atuação brasileira no exterior, como a defesa do multilateralismo, da paz, de soluções negociadas para conflitos e da reforma das Nações Unidas. “Ele é um discurso que está na tradição, eu diria, na melhor tradição da participação brasileira nas Nações Unidas”, afirmou.
A professora dividiu a fala do presidente em três grupos. Além das bandeiras históricas da política externa, Lula incorporou pautas associadas ao PT, como combate à pobreza, igualdade, meio ambiente e taxação dos mais ricos, e questões atuais, entre elas comércio, narcotráfico e defesa da democracia.
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“O que é novo no discurso, de alguma maneira, é a ênfase e, vamos dizer assim, a urgência e um tom de indignado com que o presidente tratou dos problemas mundiais”, disse. Segundo Maria Hermínia, os discursos feitos por Lula desde seu retorno à Presidência, em 2023, eram menos duros e enfáticos.
Questionada sobre a participação de Lula na ONU em meio à disputa eleitoral brasileira, Maria Hermínia afastou uma leitura exclusivamente eleitoral da viagem e ressaltou a importância de o país estabelecer uma posição própria diante das transformações internacionais. “Eu acho que a importância da ida tem que ver mais com o fato de reafirmar uma posição brasileira diante do mundo do que uma lógica meramente eleitoral”, apontou.
Na avaliação da cientista política, a fragmentação do poder mundial cria oportunidades para países intermediários ampliarem sua atuação. “O discurso do presidente, inclusive, vai na direção de uma corrente que percebe um novo espaço para países de porte médio como o Brasil, dada a multipolarização, dada […] a decadência da hegemonia norte-americana e o surgimento de diversos polos de poder.”
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Nesse contexto, ela considera que o Brasil tenta se apresentar como participante das discussões internacionais, e não apenas como observador. “O Brasil tem que estar presente nos conflitos mundiais, o Brasil não é espectador, o Brasil é agente, o Brasil é ator na cena internacional”, ressaltou.
Ao analisar a participação de Donald Trump, Maria Hermínia classificou a retórica do presidente americano como um contraponto à posição apresentada pelo Brasil e destacou o tom adotado pelo republicano diante da própria Assembleia Geral.
“É uma espécie de contraponto a essa retórica muito agressiva, muito violenta e muito autocentrada. Ele começa dizendo ‘nós somos maravilhosos, somos os maiores do mundo’ e depois ameaça um país de aniquilação”, pontuou.
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Para a professora, o episódio se destaca mesmo diante do histórico de confrontos verbais na Assembleia Geral. “Poucas vezes, se é que isso já tinha ocorrido no passado, poucas vezes se viu isso em uma Assembleia da ONU.”
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Siga o Times | CNBCMesmo diante do enfraquecimento das Nações Unidas, Maria Hermínia considera que a defesa de reformas na instituição continua fazendo sentido para o Brasil, justamente pela inexistência de uma estrutura alternativa capaz de substituir o sistema multilateral.
“É a única que temos. […] Não existe outra solução à vista. A solução que existe é a solução do poder cru, do poder de quem tem mais força e impõe”, ponderou.
Segundo a cientista política, a fragilidade atual da ONU não elimina a possibilidade de países médios participarem da reconstrução das regras internacionais. “Essa situação toda, que se de um lado é muito perigosa, de outro lado ela abre espaço para países de porte médio tentarem ter um protagonismo.”
Maria Hermínia reconheceu que as Nações Unidas atravessam um momento de forte esvaziamento, mas ressaltou que não existe atualmente outra ordem capaz de substituí-las. “Ninguém tem ilusão, muito menos o Itamaraty, que tem uma longa tradição diplomática, de que a situação é difícil e que a ONU está muito esvaziada. Mas, por outro lado, não tem outra ordem, não tem outro sistema de regras.”
Ao tratar de outras instituições multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), Maria Hermínia apontou uma inversão na postura das duas maiores potências globais: enquanto Washington pressiona estruturas das quais historicamente foi um dos principais sustentadores, Pequim encontra vantagens em sua preservação.
“Por incrível que pareça, a China não tem interesse em enfraquecer esse sistema, porque ele é um sistema onde ela percebeu que pode operar”, contou.
A cientista política destacou o paradoxo dessa transformação. “Quem está destruindo esse sistema foi quem foi o seu principal avalista e foi o seu criador, de fato, que são os Estados Unidos.”
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Ao analisar a estratégia de Pequim, Maria Hermínia afirmou que Xi Jinping tem evitado responder aos Estados Unidos com a mesma agressividade, mesmo diante das pressões americanas.
“Até agora o presidente Xi Jinping está jogando parado, de uma certa maneira, diante de uma atitude muito agressiva dos Estados Unidos, e ele não houve uma réplica no mesmo tom”, disse.
A postura, segundo ela, está relacionada a uma característica da política chinesa de formular estratégias de prazo mais longo. “Ele está jogando com cautela, que eu acho que é o que caracteriza […] a política chinesa, que sempre pensa a muito longo prazo. Eles trabalham com uma medida de tempo que é um pouco diferente da nossa.”
Maria Hermínia disse não ser possível antecipar os próximos movimentos dessa disputa, mas apontou quem considera beneficiado pelo atual enfraquecimento institucional. “Qual é o próximo passo? Eu não tenho claro, ninguém tem. Mas, nesse jogo que o presidente tratou de enfraquecer as organizações internacionais, claramente quem está ganhando é a China”, concluiu.
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