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Impacto das apostas esportivas no PIB brasileiro pode ser cinco vezes maior que o do tarifaço de Trump, segundo estudo

Publicado 29/08/2026 • 08:39 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • O impacto das apostas esportivas sobre a economia brasileira pode ter sido até cinco vezes maior que o estimado para o tarifaço americano, segundo estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/USP).
  • A pesquisa estima que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, o equivalente a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB).
  • O levantamento é assinado pelo economista Guilherme Klein, pesquisador associado ao Made/USP e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Bets

Foto: Freepik

O impacto das apostas esportivas sobre a economia brasileira pode ter sido até cinco vezes maior que o estimado para o tarifaço americano.

O impacto das apostas esportivas sobre a economia brasileira pode ter sido até cinco vezes maior que o estimado para o tarifaço americano, segundo estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/USP). A pesquisa estima que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, o equivalente a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). O levantamento é assinado pelo economista Guilherme Klein, pesquisador associado ao Made/USP e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda estimou que a tarifa de importação de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros teria impacto potencial de 0,2 ponto percentual sobre o PIB entre agosto daquele ano e o fim de 2026.

Em julho, o chamado tarifaço foi prorrogado por mais um ano, enquanto os Estados Unidos anunciaram tarifas adicionais de 25% e 12,5% sobre produtos brasileiros ao longo deste ano.

A dimensão econômica do setor volta a ganhar atenção nesta sexta-feira (28), com a deflagração da Operação Jogo de Sombras, da Receita Federal e do Ministério Público Federal (MPF). A ação investiga o Grupo NSX, responsável por plataformas como Betnacional, Mr. Jackbet e PagBet, por suspeitas de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Segundo a Receita, o grupo teria movimentado mais de R$ 5 bilhões em 2025.

Leia também: Ministério da Fazenda suspende operação de sites de apostas da Caixa, Pixbet e FlaBet

Bets reduzem consumo e afetam atividade econômica

O estudo do Made/USP parte de uma estimativa do Centro Celso Furtado e do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), segundo a qual houve, em 2025, uma transferência líquida de aproximadamente R$ 62,5 bilhões das famílias para as plataformas de apostas. O valor corresponde à diferença entre o dinheiro apostado e o montante devolvido aos jogadores em prêmios.

Para Klein, porém, o impacto econômico das bets não se limita aos R$ 62,5 bilhões. O dinheiro que deixa de ser destinado ao consumo reduz a receita do comércio e dos serviços, diminui a renda em circulação e gera novos efeitos sobre a atividade econômica.

“Quando R$ 1 deixa de ser gasto por uma família, o impacto não termina naquele R$ 1. Há menos receita para o comércio e os serviços, menos renda circulando e novos efeitos sobre o consumo. É esse encadeamento que faz com que uma transferência de R$ 62,5 bilhões possa produzir um impacto muito maior sobre a atividade econômica”, explica Klein.

O efeito tende a ser maior entre as famílias de menor renda, que normalmente destinam uma parcela mais elevada de seus ganhos ao consumo.

Leia também: Receita e MPF miram dona da Betnacional por suspeita de movimentação ilegal de mais de R$ 5 bi com apostas esportivas

Arrecadação pode não compensar perdas fiscais

O levantamento também questiona a avaliação das bets apenas pela arrecadação tributária direta. Klein estima que a redução da atividade econômica provocada pelas apostas pode ter gerado uma perda de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões.

Considerando cerca de R$ 9 bilhões arrecadados diretamente pelas plataformas, o efeito líquido para as contas públicas ainda seria negativo em pelo menos R$ 22 bilhões, podendo chegar a R$ 46 bilhões.

No cenário mais elevado, a perda equivale a aproximadamente 20% de todo o orçamento destinado à saúde pública na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2025.

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“Não basta perguntar quanto as bets pagam de impostos. É preciso calcular também quanto o governo deixa de arrecadar quando o dinheiro destinado às apostas reduz o consumo e a atividade econômica. Nossas estimativas indicam que a receita direta do setor não compensaria esse efeito”, afirma Klein.

Investigação mira movimentações de R$ 5 bilhões

A discussão sobre os efeitos econômicos das apostas ocorre paralelamente a uma série de investigações sobre a operação financeira do setor.

Na Operação Jogo de Sombras, a Receita Federal e o MPF apuram se o Grupo NSX, que controla a Betnacional e outras plataformas, teria cometido irregularidades antes e depois da regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil. O grupo recebeu autorização para atuar no mercado regulado a partir de 2025.

Segundo os investigadores, a plataforma já operava no país antes da regulamentação. Para aparentar que a atividade era realizada no exterior, integrantes do grupo teriam criado uma empresa de fachada em Curaçao, enquanto empresas brasileiras ligadas ao próprio grupo seriam responsáveis pela operação no Brasil.

A investigação também identificou indícios de movimentação de recursos entre o Brasil e o exterior. Parte dos valores enviados para fora teria retornado ao país como pagamento por serviços, em uma possível tentativa de conferir aparência regular à entrada dos recursos.

Outro ponto investigado é o uso de “contas bolsão” em fintechs, que, segundo a Receita, dificultaria o rastreamento do dinheiro e a identificação dos beneficiários finais.

Agora, os investigadores buscam reconstruir o caminho dos recursos, identificar os destinatários dos valores e verificar se houve omissão de receitas ou outros ilícitos fiscais.

Leia também: Operação Arena aponta tentativa de burlar regulação das bets, diz criminalista

Apostas também podem ampliar desigualdade

Além dos efeitos sobre o PIB e a arrecadação, o estudo do Made/USP aponta consequências sobre a distribuição de renda.

Dependendo de como os lucros das plataformas são apropriados, Klein estima que a transferência de recursos para as bets pode ter aumentado a concentração de renda entre o 1% mais rico da população em uma faixa de 0,5% a 2,1%.

“As apostas não são apenas uma questão de escolha individual ou de saúde financeira das famílias. Quando atingem essa dimensão, seus efeitos chegam ao consumo, ao PIB, à arrecadação e à distribuição de renda. O custo econômico do setor precisa ser considerado no debate sobre sua regulamentação e tributação”, conclui o economista.

Há ainda uma segunda possibilidade considerada pelo estudo: parte das apostas pode ter sido financiada por meio de aumento do endividamento, e não pela redução do consumo. Em uma hipótese extrema, caso toda a transferência líquida de R$ 62,5 bilhões tivesse sido financiada por novo crédito, o valor corresponderia a cerca de 14% de todo o aumento do saldo de crédito das pessoas físicas em 2025.

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