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Lulinha, lobista e Marcola são suspeitos de atuar em favor da Unigel em negociação com a Petrobras

Publicado 26/09/2026 • 08:00 | Atualizado há 33 minutos

KEY POINTS

  • A PF identificou mensagens que indicam atuação de Roberta Luchsinger, Fábio Luís Lula da Silva e do então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, em tratativas de interesse da Unigel.
  • Roberta negociou com um diretor da companhia uma consultoria que previa R$ 100 mil e mais R$ 25 milhões caso fosse obtido um financiamento de R$ 500 milhões no BNDES, segundo a investigação.
  • A Petrobras assinou o contrato de tolling com a Unigel em dezembro de 2023, mas informou posteriormente que as condições para sua eficácia não foram cumpridas e que o acordo terminou antes de produzir efeitos.

A Polícia Federal apura a atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, da lobista Roberta Luchsinger e de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe do gabinete pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em movimentações para favorecer interesses da Unigel junto à Petrobras. As informações aparecem em um inquérito sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF) que investiga suspeitas de favorecimento de empresas no governo federal.

Entre os elementos analisados estão conversas de Roberta com Leo Slezynger, diretor e integrante da família controladora da Unigel. Segundo a investigação, ela negociou uma consultoria para auxiliar a empresa em duas frentes: viabilizar um acordo com a Petrobras envolvendo as fábricas de fertilizantes da Bahia e de Sergipe e, depois, buscar um financiamento de R$ 500 milhões no BNDES para um projeto de expansão. O acerto previa R$ 100 mil, além de R$ 25 milhões condicionados à obtenção do financiamento.

De março de 2023 a julho de 2024, Slezynger teria transferido R$ 1,26 milhão a Roberta, além de pagamentos adicionais e outras despesas, conforme o material da investigação. As informações foram reveladas pela coluna de Malu Gaspar, de O Globo.

Leia também: Mensagens mostram Roberta Luchsinger chamando Lulinha de “sócio”

Mensagens citam atuação de Lulinha

As conversas indicam que Lulinha tinha conhecimento das tratativas, manteve contato com Slezynger e se reuniu com o empresário em março de 2023. A partir daí, mensagens registram discussões sobre os projetos da Unigel e sobre a possível participação do filho do presidente em um fundo voltado a projetos de sustentabilidade.

Foi nesse contexto que Roberta sugeriu a Slezynger que convidasse Lulinha para integrar o conselho do fundo e recebesse por essa função. Ao defender a estratégia, escreveu: “Funciona assim… toma lá, dá cá”.

Em julho daquele ano, Slezynger enviou uma mensagem a Lulinha agradecendo pelo que chamou de “intervenção” em favor da empresa. Lulinha respondeu que estava “feliz” por estar ajudando e que agora caberia ao empresário concluir o negócio.

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência nega qualquer intervenção do presidente. Em nota, afirmou que Lula não recebeu demandas das pessoas citadas sobre o contrato, não manteve interlocução com elas sobre o tema e não participou das negociações entre Petrobras e Unigel.

Marcola aparece em articulações com governo

As mensagens também registram conversas entre Roberta e Marcola durante as negociações.

Em novembro de 2023, a lobista pediu ao então chefe de gabinete que tratasse da Unigel com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Marcola respondeu que teria uma reunião com o ministro antes de um encontro dele com Lula.

A defesa de Marcola nega que ele tenha atuado em favor de interesses privados. Afirma que, como chefe de gabinete, sua função incluía organizar agendas e encaminhar demandas recebidas pela Presidência e que, no episódio envolvendo a Unigel, limitou-se a dar encaminhamentos institucionais.

O Ministério de Minas e Energia também afirmou que Silveira não foi procurado por Marcola para interferir em assuntos relacionados à pasta e disse que os contatos entre os dois tiveram caráter institucional.

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Petrobras fechou contrato no fim de 2023

A Petrobras assinou em 29 de dezembro de 2023 um contrato de industrialização por encomenda, conhecido como tolling, com a Unigel para as fábricas de fertilizantes da Bahia e de Sergipe. Pelo modelo, as instalações seriam usadas para produzir ureia e amônia em uma operação envolvendo fornecimento de gás pela estatal.

Após a assinatura, Slezynger voltou a procurar Lulinha para agradecer pelo “apoio”, segundo as mensagens reunidas pela investigação.

O negócio, porém, não chegou a produzir efeitos. A própria Petrobras informou que as condições necessárias para a eficácia do contrato não foram cumpridas até 27 de junho de 2024 e, por isso, sua vigência foi encerrada. A estatal havia afirmado anteriormente que não tinha feito desembolsos referentes ao tolling.

TCU apontou risco de perda de R$ 487 milhões

A área técnica do TCU apontou que a própria análise utilizada pela Petrobras para aprovar o tolling trabalhava com valor presente líquido negativo de R$ 487,1 milhões para os oito meses previstos de contrato. O tribunal também identificou problemas na avaliação dos riscos e concluiu que o processo decisório havia aumentado artificialmente a atratividade do tolling diante das demais alternativas consideradas pela estatal.

O valor de R$ 487,1 milhões corresponde a uma perda econômica projetada, e não a um prejuízo efetivamente realizado, já que o contrato não entrou em vigor. Na decisão, o TCU apontou ainda a assunção de riscos elevados pela Petrobras diante da situação financeira da Unigel e das condições do mercado de fertilizantes.

Em 2025, Petrobras e Proquigel, subsidiária da Unigel, chegaram a um acordo para encerrar as controvérsias contratuais. O entendimento foi homologado em arbitragem e previu a devolução das fábricas à estatal.

Leia também: Mensagens de lobista citam ‘grana no Fábio’ e pagamento de R$ 26,8 mil à agência usada por Lulinha

Defesas contestam investigação

A defesa de Lulinha afirma que não teve acesso ao procedimento e contesta a divulgação de trechos de investigações sob sigilo. Também diz que ele está à disposição das autoridades e nega irregularidades.

Os advogados de Roberta classificaram as mensagens divulgadas como provenientes de vazamentos criminosos e afirmaram que o material estaria sendo usado para produzir repercussão política às vésperas da eleição.

A Unigel, por sua vez, afirmou que nunca manteve relação contratual com Roberta ou com empresas ligadas a ela. A investigação atribui os pagamentos diretamente a Leo Slezynger. A companhia sustenta ainda que os entendimentos mantidos com a Petrobras seguiram os procedimentos legais aplicáveis.

A Petrobras declarou que nenhum integrante de sua diretoria executiva tratou de assuntos com Roberta, Lulinha ou Marcola e afirmou que suas negociações com a Unigel seguiram os procedimentos de governança da companhia.

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