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Plano de ajuste fiscal, contas públicas e equipe com credibilidade: o recado dos economistas para Lula 4

Publicado 26/10/2026 • 22:21 | Atualizado há 26 minutos

KEY POINTS

  • Economistas ouvidos pelo Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC apontam o ajuste das contas públicas como principal desafio econômico do quarto mandato de Lula.
  • Formação da equipe econômica e escolha de um nome com credibilidade para a Fazenda aparecem como sinais importantes para recuperar a confiança dos investidores.
  • Especialistas alertam, porém, que a reação sustentável dos mercados dependerá de medidas concretas para estabilizar a dívida, e não apenas de mudanças de nomes ou discurso.

Um dia depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o mercado financeiro brasileiro atravessou uma das sessões mais turbulentas dos últimos anos. A bolsa acionou o circuit breaker pela primeira vez desde 2020, o Ibovespa chegou a recuar mais de 17% durante o pregão e encerrou esta segunda-feira (26) em queda de quase 14%, aos 176.608 pontos. O dólar avançou 8,36%, para R$ 5,406, na maior valorização diária da moeda americana em 23 anos.

Por trás da forte reprecificação dos ativos, economistas ouvidos pelo Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC convergem que o principal desafio econômico do quarto mandato de Lula será reconstruir a confiança na condução das contas públicas.

Segundo os economistas, um ajuste fiscal, a contenção da trajetória da dívida e a formação de uma equipe econômica com credibilidade são alguns dos elementos principais que o governo Lula 4 deverá adotar para reduzir a percepção de risco.

“Visão sem implementação é alucinação”

Para Carlos Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial, o problema fiscal seria inevitável para qualquer candidato que assumisse o país em 2027.

“Independentemente de quem ganhasse as eleições, teria que enfrentar uma situação de ajuste fiscal bastante significativa”, afirmou.

Para o economista, a reação inicial esperada do novo governo deveria ser justamente uma sinalização nessa direção. Braga avalia que o país caminha para uma situação em que o crescimento da dívida e o peso dos juros reduzem progressivamente o espaço da política econômica.

“A menos que haja um esforço significativo de austeridade fiscal, nós estamos chegando nessa encruzilhada”, disse.

Ele também vê a composição da equipe econômica como uma primeira sinalização importante, mas alerta que a escolha de nomes respeitados não resolve sozinha o problema.

“A questão de indicar uma equipe competente, com credibilidade frente ao mercado, é muito importante, mas, a menos que a administração Lula 4 ataque os pilares centrais do desequilíbrio fiscal que a gente tem, nós não vamos ter a capacidade de estabilizar essa relação”, afirmou.

“Nomes que tenham credibilidade ajudam, mas é aquela história: visão sem implementação é alucinação”, acrescentou.

Na avaliação dele, o debate fiscal terá de enfrentar temas politicamente difíceis, como Previdência, regras de reajuste do salário mínimo e despesas obrigatórias.

“O mercado trabalha com credibilidade”

Roberto Luis Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), também colocou a situação fiscal como principal desafio para o quarto mandato do petista.

“Você tem que, na questão fiscal, atuar rapidamente”, afirmou.

Troster enumerou cinco grandes questões que, em sua avaliação, precisarão ser enfrentadas: a formação da equipe econômica, o desequilíbrio fiscal, problemas relacionados à indexação e aos juros, a administração do estoque da dívida pública e a credibilidade do programa econômico.

Para ele, a escolha de quem conduzirá a política econômica pode alterar significativamente a percepção dos investidores.

“Um bom comandante nessa área, um bom time, pode mudar o jogo”, disse.

O economista lembrou a condução econômica do primeiro mandato de Lula, quando o governo adotou uma política fiscal mais restritiva e reuniu nomes com boa interlocução com o mercado.

Segundo Troster, o componente decisivo agora será a confiança de que o governo conseguirá executar o que anunciar.

“O mercado trabalha com credibilidade”, pontuou.

Apesar da reação dos ativos nesta segunda-feira, Troster avaliou que parte do movimento representou uma sobrerreação dos investidores e que os preços podem passar por ajustes à medida que surjam informações sobre a nova composição do governo e a direção da política econômica.

“Tem espaço, dá para virar o jogo”, afirmou.

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“A questão fiscal passou a ser um problema da sociedade”

Essa análise também é compartilhada por Silvio Campos Neto, sócio e economista sênior da Tendências Consultoria.

Para ele, a dimensão da queda dos mercados refletiu tanto o posicionamento prévio dos investidores quanto a incerteza sobre a disposição do governo de promover mudanças na política econômica.

Ao falar sobre o que poderia reduzir a tensão, Campos Neto fez uma ressalva à discussão concentrada em possíveis nomes para a Fazenda.

“Mais do que isso, quais os caminhos, quais as medidas?”, questionou.

Segundo o economista, uma indicação bem recebida pelos investidores seria positiva, mas teria efeito limitado sem decisões efetivas sobre os gastos.

“Se tiver apenas uma boa intenção, com um nome bem aceito, um nome que traga credibilidade, ainda vai esbarrar na necessidade de medidas concretas”, afirmou.

Na avaliação de Campos Neto, a deterioração das contas públicas já ultrapassou a relação entre governo e mercado financeiro e passou a atingir diretamente famílias e empresas.

“A questão fiscal deixou de ser apenas um problema do governo e passou a ser um problema da sociedade”, disse.

Ele relacionou esse cenário ao alto endividamento, aos juros elevados e às condições mais restritivas para empresas e consumidores conseguirem financiamento.

Para o economista, a ausência de uma sinalização clara pode manter os investidores em uma posição defensiva e abrir espaço para novos episódios de volatilidade.

“O mercado deve ficar numa posição mais defensiva por conta exatamente dessa dificuldade”, afirmou.

Investidor quer “sinalização clara e objetiva”

A demanda por clareza também apareceu na análise de Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.

Para ele, o movimento desta segunda-feira precisa ser entendido também como uma correção de posições montadas desde o primeiro turno, quando os investidores passaram a apostar em uma vitória de Flávio Bolsonaro.

O problema, segundo ele, é que, depois da eleição, ainda não existe uma indicação suficientemente clara de como Lula pretende enfrentar o desequilíbrio das contas públicas.

“Os investidores precisam de uma sinalização clara e objetiva do governo em relação ao plano de ajuste fiscal. Isso ainda não aconteceu”, afirmou.

Para Agostini, a recuperação da confiança e uma eventual melhora mais consistente dos ativos brasileiros dependerão, entre outros fatores, da escolha de quem comandará a política econômica no próximo governo.

“Passa, sem dúvida alguma, por uma indicação de um nome forte para o Ministério da Fazenda”, disse.

Na avaliação dele, esse nome precisará transmitir confiança não apenas ao mercado financeiro, mas também ao setor produtivo, em um período marcado pela implementação do novo sistema tributário, juros altos e perspectiva de desaceleração econômica.

Agostini afirmou que o movimento observado nos ativos mostra uma perda, ao menos temporária, de confiança dos investidores.

“Hoje pesa muito essa perda de confiança, ou pelo menos perda de confiança temporária dos investidores, em relação ao que o governo vai produzir no próximo ciclo, de 2027 a 2030”, disse.

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