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Super El Niño pode frear PIB e espalhar perdas globais do agro à infraestrutura

Publicado 29/07/2026 • 22:16 | Atualizado há 39 minutos

KEY POINTS

  • Agropecuária tende a ser o primeiro canal de impacto, mas perdas podem alcançar indústria, comércio, serviços e exportações em termos globais.
  • Alta de alimentos e energia poderia reduzir o consumo das famílias e limitar o espaço para novos cortes de juros.
  • Governo anunciou R$ 1,335 bilhão para prevenção e resposta, mas ainda não há cálculo oficial para o efeito sobre o PIB brasileiro.

Foto: Adobe Stock

Uma eventual quebra de safra, reservatórios sob pressão e rotas logísticas interrompidas podem transformar o Super El Niño em um problema para o PIB brasileiro.

Apesar de começar no campo, o impacto não ficaria restrito à agropecuária. Menos produção poderia elevar os preços dos alimentos e reduzir exportações; secas tenderiam a encarecer a energia; enchentes poderiam paralisar estradas, ferrovias e portos; e a resposta a desastres aumentaria a pressão sobre as contas públicas.

Se esses efeitos ocorrerem ao mesmo tempo, a perda se espalharia para a indústria, para o comércio e para os serviços, além de reduzir o consumo das famílias e possivelmente limitar novos cortes de juros.

A referência da dimensão desse risco vem da África. O Banco Africano de Desenvolvimento estima que o atual El Niño pode retirar entre 1% e 2% do PIB dos países mais atingidos do continente.

Apesar de não poder ser aplicada ao Brasil, a projeção revela como um evento inicialmente tratado como risco para a safra pode evoluir para um choque amplo sobre a atividade econômica.

O risco é tão real que o governo brasileiro anunciou nesta quarta-feira (29) um plano de R$ 1,335 bilhão para ações de preparação e resposta ao El Niño, com medidas voltadas a alimentos, saúde, monitoramento de rios, fiscalização ambiental e combate a incêndios. Ainda não existe, porém, uma estimativa oficial de quanto o fenômeno poderá retirar do crescimento brasileiro.

Agropecuária é o primeiro canal

O efeito mais imediato sobre o PIB global tende a aparecer no campo.

A falta ou o excesso de chuva pode reduzir a produtividade das lavouras, atrasar o plantio, dificultar a colheita e comprometer a qualidade dos produtos. Os resultados variam conforme a região, a cultura e o momento do calendário agrícola em que os eventos ocorrem.

O primeiro boletim do Painel El Niño 2026-2027 aponta maior probabilidade de chuvas acima da média em áreas da Região Sul e abaixo da média no centro-norte do Brasil. O documento reúne análises de órgãos como INPE, Inmet, ANA e Cemaden. 

No Sul, o excesso de chuva pode provocar alagamentos, erosão e perdas em lavouras. Na Região Norte, a combinação de menos chuva e temperaturas mais altas tende a reduzir a umidade do solo, elevar o risco de deficiência hídrica e afetar pastagens, culturas perenes e a agricultura familiar. 

Uma safra menor reduz diretamente o valor produzido pela agropecuária. O impacto também se espalha para fabricantes de fertilizantes e máquinas, transportadoras, armazéns, frigoríficos, tradings e indústrias que processam matérias-primas agrícolas.

A perda de produção pode ainda diminuir o volume exportado pelo Brasil e a entrada de dólares. Uma eventual alta nos preços internacionais compensaria parte da queda, mas o resultado dependeria do tamanho da quebra e do comportamento das cotações.

Energia mais cara pressiona indústria

O segundo canal passa pela oferta de água e eletricidade.

Períodos de seca podem reduzir os níveis dos reservatórios e limitar a geração hidrelétrica. Em um cenário mais adverso, o sistema elétrico precisa recorrer com maior frequência às termelétricas, que costumam produzir energia a um custo mais elevado.

O encarecimento atinge principalmente setores que consomem grandes volumes de eletricidade, como siderurgia, alumínio, cimento, química, mineração e papel e celulose.

A falta de água também pode afetar operações industriais, o abastecimento das cidades e a navegação em rios usados para transportar mercadorias.

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No sentido oposto, chuvas excessivas podem danificar subestações, linhas de transmissão, unidades produtivas e sistemas de distribuição. Assim, regiões diferentes podem sofrer perdas simultâneas por motivos opostos.

Estradas e portos ampliam o prejuízo

O efeito sobre o PIB não depende apenas do que deixa de ser produzido. Ele também inclui mercadorias que não conseguem chegar aos consumidores ou aos mercados externos.

Enchentes, deslizamentos e interrupções em rodovias e ferrovias podem atrasar o transporte de alimentos, minérios, combustíveis e produtos industriais. Portos e aeroportos também podem enfrentar restrições operacionais.

Essas interrupções elevam os custos de frete, aumentam a perda de produtos perecíveis e dificultam o cumprimento de contratos.

Empresas podem reduzir turnos ou interromper temporariamente a produção por falta de peças e matérias-primas. Nas áreas diretamente afetadas, pequenos negócios enfrentam danos físicos, queda nas vendas e dificuldade de acesso ao crédito.

Mesmo quando a infraestrutura é recuperada, parte da atividade perdida durante uma inundação ou estiagem não é necessariamente compensada nos meses seguintes.

Inflação reduz consumo e afeta juros

Uma oferta menor de grãos, frutas, verduras e proteínas tende a elevar os preços dos alimentos. O aumento do custo da energia e os problemas logísticos podem ampliar o repasse para outros produtos e serviços.

Com uma parcela maior da renda destinada a alimentação, eletricidade e transporte, as famílias reduzem o consumo de bens menos essenciais. O movimento afeta o comércio e o setor de serviços.

O risco é maior nas economias emergentes, onde os alimentos representam uma fatia relevante do orçamento familiar e a agricultura tem peso maior na atividade. Um El Niño muito forte pode pressionar preços e desacelerar o crescimento, obrigando bancos centrais a manter juros elevados por mais tempo. 

No Brasil, a inflação mais resistente pode limitar o espaço do Banco Central para continuar reduzindo a Selic. Juros altos por um período maior encarecem o crédito, desestimulam investimentos e reduzem o consumo financiado.

Esse canal pode prolongar os efeitos econômicos mesmo depois da normalização das condições climáticas.

Gastos emergenciais pressionam contas públicas

Os eventos extremos também elevam as despesas dos governos com reconstrução, assistência às famílias, apoio a produtores, saúde e recuperação de infraestrutura.

Ao mesmo tempo, a queda da atividade nas regiões afetadas pode reduzir a arrecadação. A combinação pressiona o resultado fiscal e pode exigir o redirecionamento de recursos originalmente destinados a outras áreas.

A S&P Global avalia que o El Niño, isoladamente, não deve provocar uma onda de rebaixamentos das notas de crédito dos países. O risco aumenta se o fenômeno for mais intenso que o esperado ou se as respostas dos governos produzirem gastos elevados, déficits maiores e aumento da dívida.

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