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Allan Ravagnani AI-451

No evento do Iphone Duo protagonista, a Apple apresentou a Siri com um recurso assustador embarcado no Apple Watch

Publicado 12/09/2026 • 15:50 | Atualizado há 1 hora

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Allan Ravagnani

Repórter Especial

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter especial do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

Siri Recap chama mais atenção que o iPhone Duo ao resumir conversas do dia todo pelo Apple Watch, gerando debate sobre privacidade.

Siri Recap chama mais atenção que o iPhone Duo ao resumir conversas do dia todo pelo Apple Watch, gerando debate sobre privacidade.

Nenhum produto saiu do evento "Surprise and Shine", realizado pela Apple na quarta-feira (9), com mais holofote do que o iPhone Duo, o primeiro dobrável da marca, e a razão é dupla. De um lado, a etiqueta de novidade tardia, chegando ao mercado sete gerações depois do Galaxy Z Fold, da Samsung, que já vinha refinando o mesmo formato de livro havia anos. De outro, o preço, que soa exorbitante mesmo para o padrão Apple, até US$ 3.199 nos EUA e R$ 32 mil no Brasil.

Mas, na opinião desta coluna, o anúncio mais revelador da tarde não estava no dobrável, nem no Iphone 18 Pro Max, estava discreto no pulso, dentro do novo Apple Watch Series 12 e do Ultra 4, num recurso batizado de Siri Recap, capaz de ouvir, resumir e guardar por escrito conversas inteiras do dia de quem usa, sem que ninguém precise apertar um botão de gravar.

A suíte se chama Audio Intelligence, roda sobre o novo chip S11 e reúne quatro funções batizadas de Sound Recognition, Music Recognition, com tecnologia licenciada do Shazam, Live Rewind e Siri Recap. As duas primeiras são as menos controversas. O reconhecimento de som identifica alarmes, campainhas e choro de bebê, pensado sobretudo para acessibilidade de pessoas surdas ou com baixa audição, e o reconhecimento musical apenas identifica a faixa tocando ao redor.

As outras duas são o motivo pelo qual "Black Mirror" entrou nos assuntos mais comentados horas depois do anúncio. O Live Rewind é ativado por um duplo toque na coroa digital, captura os últimos 15 segundos de áudio ao redor, transforma em texto na tela e descarta a gravação, emitindo um som audível e uma animação visual para avisar quem está perto.

O Siri Recap vai além, roda o dia inteiro sem indicador constante, ouvindo conversas e produzindo, ao final, um resumo com título, pontos principais e combinados dentro do app Siri.

Siri Recap toma notas por você o dia inteiro

Segundo a documentação técnica da Apple, o recurso não cria uma gravação, não produz uma transcrição literal e não identifica nem atribui falas a pessoas específicas. O áudio bruto é processado dentro de uma área isolada do chip S11 chamada Secure Exclave, mantida fora do alcance do sistema operacional, dos aplicativos, de quem usa o relógio e da própria Apple.

Quem usa decide quando a escuta acontece, sempre ativa, só durante o expediente de trabalho ou nunca à noite, e pode desligar pela Central de Controle a qualquer momento.

Nada disso, porém, resolve o problema de quem está do outro lado da mesa. Como resumiu a reportagem do The Register, a Apple decidiu que está tudo bem capturar fragmentos de conversa sem o consentimento de ambas as partes envolvidas.

A lei ainda não sabe o que fazer com isso

Nos Estados Unidos, a legislação sobre gravação de conversas varia de estado para estado. A regra federal exige o consentimento de apenas uma das partes, mas cerca de onze estados, incluindo Califórnia, Illinois, Massachusetts, Pensilvânia e Washington, exigem o consentimento de todas as pessoas envolvidas na conversa.

Advogados ouvidos pela imprensa americana são categóricos, um aviso sonoro emitido pelo relógio de outra pessoa não substitui uma autorização, ele só anuncia que a escuta pode já estar acontecendo. Adam Schwartz, diretor de litígios de privacidade da Electronic Frontier Foundation, foi direto ao ponto num e-mail ao The Register, dizendo que a privacidade de uma conversa depende de estar livre de documentação sem consentimento, e que esse tipo de monitoramento constante pode forçar as pessoas a se autocensurarem.

O histórico da própria Apple pesa contra ela nessa discussão, a empresa fechou, ainda em 2026, um acordo de US$ 95 milhões para encerrar um processo alegando que a Siri captava conversas privadas por ativações acidentais e enviava parte delas para prestadores terceirizados analisarem.

O preço filosófico de nunca mais esquecer

O que acontece com a memória humana quando um dispositivo passa a lembrar por você? Esquecer parte de uma conversa sempre foi parte de como as pessoas convivem, editando o próprio dia, guardando o que importa e deixando o resto se dissolver. Um relógio que documenta tudo, mesmo em forma de resumo, e devolve isso como nota revisável depois, transfere para uma máquina uma função que até agora era só nossa, a de decidir o que vale a pena lembrar.

Some a isso o efeito colateral apontado pela EFF, o de que saber que se está sendo ouvido muda o jeito como as pessoas falam e tira a espontaneidade da conversa, e o Siri Recap deixa de ser só um recurso de produtividade, passa a ser uma escolha sobre que tipo de presença queremos ter na vida de quem está ao nosso redor.

A ética de decidir sozinho o que é respeito

Chama atenção o vocabulário escolhido pela Apple para descrever o recurso. A documentação técnica traz uma seção chamada "como o Live Rewind respeita quem está à sua volta", como se bastasse a empresa declarar a palavra respeito para encerrar o debate.

É a mesma companhia que grava o áudio, decide o que conta como aviso suficiente e determina, sozinha, os termos do que chama de ética do produto.

Ninguém, entre as pessoas que vão estar perto de um Apple Watch nos próximos anos, participou dessa definição, nem foi consultado sobre o que considera um alerta razoável.

Há aqui uma versão em miniatura do que o filósofo Michel Foucault descreveu ao analisar o panóptico, a arquitetura de vigilância em que basta a possibilidade de estar sendo observado, mesmo sem confirmação, para que o comportamento mude.

Um relógio que pode ou não estar resumindo a conversa produz exatamente esse efeito, converte qualquer mesa de bar, qualquer sala de reunião, qualquer conversa entre amigos numa situação de dúvida permanente sobre quem está sendo registrado e o que vai sobrar disso depois.

Pode ser que a nossa vida seja pouco interessante pra Apple se preocupar, e deve ser verdade mesmo, a não ser que você seja uma espécie de Daniel Vorcaro no auge do Banco Master. Ninguém na Apple vai revisar pessoalmente o resumo do seu almoço de terça-feira. O problema está na escala, uma empresa que sabe pouco sobre muita gente, por muito tempo, sabe mais sobre um país do que qualquer governo jamais soube sobre seus próprios cidadãos, os horários em que as famílias discutem dinheiro, o vocabulário que usam para falar de saúde, quais assuntos evitam na frente dos filhos, como mudam o tom quando o chefe está por perto.

Multiplicado por milhões de usuários e por anos de uso contínuo, o Siri Recap deixa de ser um bloco de notas pessoal e vira um mapa comportamental de uma nação inteira, guardado dentro de uma companhia sediada em Cupertino, sem que um único cidadão tenha votado nisso.

Por fim, toda a evolução recente da inteligência artificial se resume, no fundo, a uma corrida por contexto, quanto mais um modelo sabe sobre a pergunta, sobre quem pergunta e sobre o que veio antes, melhor fica a resposta que ele devolve. Foi por isso que a Apple gastou anos tentando resolver a Siri com modelos de linguagem e acabou de mãos dadas com o Gemini, do Google, para dar conta do recado.

Agora, imagine o tamanho do contexto que uma inteligência artificial ganha ao acompanhar, dia após dia, as reuniões de trabalho, os desabafos no almoço, as brigas de família e os planos futuros sussurrados no consultório médico de quem usa o relógio. Nenhum histórico de busca, nenhum aplicativo de e-mail, nenhuma rede social chegou perto de entregar esse nível de intimidade continuada. Se inteligência artificial é, antes de tudo, uma questão de contexto, a Siri está prestes a virar a inteligência artificial com mais contexto sobre a vida das pessoas que já existiu.

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