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Allan Ravagnani AI-451

Evento em Lisboa debate latência e novas rotas de cabos submarinos entre Brasil, Portugal e países da África 

Publicado 30/09/2026 • 09:45 | Atualizado há 43 minutos

Foto de Allan Ravagnani

Allan Ravagnani

Repórter Especial

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter especial do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

Quem abre o celular no Pátio da Galé, a poucos metros da Praça do Comércio, para mandar uma foto recém tirada do Arco da Rua Augusta, em Lisboa, para seus parentes em São Paulo, costuma ter a resposta antes de guardar o aparelho no bolso, e nem se pergunta por onde o arquivo passou, embora o trajeto seja uma pequena epopeia física, feita de fibra óptica no leito do Atlântico, de prédios refrigerados nas duas margens e de uma medida com nome de laboratório, a latência, que separa a conversa fluida daquela em que todo mundo fala por cima de todo mundo.

Dentro dos salões onde a alemã DE-CIX, operadora de mais de 60 pontos de troca de tráfego, reúne desde terça-feira (29) mais de 700 líderes do setor no Atlantic Convergence, a pergunta sobre o caminho dos arquivos é o assunto do dia, e o encontro, que chega à terceira edição, tem entre as parceiras fundadoras a EllaLink, dona do cabo submarino que liga o Brasil à Europa. O presidente-executivo Ivo Ivanov disse, ao apresentar a edição deste ano, que a pauta abrange o endereço onde a internet mora e a maneira como ela é protegida, frase que soa como slogan de convenção até se perceber que a inteligência artificial obrigou o mundo a olhar, e se perguntar, onde ficam os computadores e por qual estrada eles conversam.

Latência custa (muito) dinheiro antes de custar paciência

Para quem não é familiarizado, latência é o tempo que um pacote de dados leva para ir de um ponto a outro e voltar, e ela obedece a uma regra que nenhum executivo negocia, a da distância.

Até 2021, quem estava no Brasil e queria falar com a Europa dependia de rotas que passavam pelos Estados Unidos, e foi contra esse desvio que nasceu o EllaLink, primeiro cabo de alta capacidade a ligar Fortaleza a Sines, em Portugal, sem escala americana, com cerca de seis mil quilômetros de fibra e atraso de ida e volta inferior a 60 milissegundos, metade do que se conseguia antes.

A Comissão Europeia, ao premiar o projeto em 2022, lembrou que milissegundos parecem trivialidade até decidirem a rentabilidade de uma mesa de operações financeiras.

O atraso também pesa na vida de quem nunca viu uma mesa de operações. Ivanov disse a jornalistas em Lisboa, em junho, que Portugal tem internet gigabit e, mesmo assim, o usuário enfrenta falhas no dia a dia, porque a velocidade contratada mede a largura da estrada, e não o tempo da viagem.

Rodoviária onde as redes trocam passageiros

Ponto de troca de tráfego, ou Internet Exchange, é como se fosse a rodoviária desse sistema, o lugar onde provedores de acesso, plataformas de vídeo, bancos e nuvens ligam seus roteadores uns aos outros para entregar passageiros diretamente, sem uma terceira empresa que cobre pedágio e escolha o caminho.

Na prática, o IX é um conjunto de switches em data centers neutros, que não pertencem a nenhuma das operadoras conectadas, e cada rede que entra leva um cabo até o prédio, contrata uma porta e informa às demais quais endereços alcança. Quando duas redes combinam trocar tráfego, o chamado peering, os pacotes passam de uma para a outra dentro da mesma sala, em geral sem cobrança por byte, ao contrário do trânsito, em que uma rede paga a outra para levar seus dados aonde sozinha não chega. Como numa feira, quanto mais provedores de acesso chegam, mais atraentes ficam para as plataformas de conteúdo, e vice-versa.

Sem esse terminal, dois vizinhos de rede na mesma cidade podem ter seus dados enviados a centenas de quilômetros e trazidos de volta, vício que o Brasil conheceu de perto, pois nos anos 1990, segundo o Comitê Gestor da Internet, não era raro o tráfego do Rio de Janeiro passar pelos Estados Unidos antes de chegar a São Paulo.

A cura veio em 2004, quando o comitê decidiu que esses pontos deviam ser neutros e tocados por entidade sem fins lucrativos, semente do IX.br, cujo ponto paulistano o NIC.br apresenta como o maior do mundo em volume, história que merece coluna própria.

Inteligência artificial devolve valor à latência

Quando escrevi sobre a Lenovo na Copa do Mundo, a latência era uma corrida de segundos entre a câmera do estádio e a tela do torcedor, e em Lisboa ela virou corrida contra o oceano, disputada pela inteligência artificial, que precisa treinar modelos em salas cheias de chips e responder ao usuário em frações de segundo, tarefas que raramente cabem no mesmo endereço.

A DE-CIX vende um serviço de interconexão para essa divisão de trabalho, o AI-IX, e Ivanov defende que a infraestrutura de IA nasça junto com a de energia, com o processamento instalado onde há eletricidade disponível. Traduzindo, os data centers vão para onde a energia está, e o cabo precisa fazer a distância desaparecer.

Soberania digital passa pelo cabo e pela tomada

No dia da abertura veio a notícia mais próxima do leitor brasileiro, uma carta de intenções, sem caráter vinculante, entre a DE-CIX e a Cabo Verde Telecom para explorar um corredor entre Lisboa e São Paulo, em que a operadora cabo-verdiana cederia capacidade de transporte e teria acesso aos pontos de troca da DE-CIX em cinco cidades, entre elas São Paulo, para reduzir a dependência dos hubs do norte.

Ivanov já havia observado, em maio, que o investimento em infraestrutura se concentra nos grandes mercados litorâneos, enquanto cidades do interior e países sem saída para o mar seguem com lacunas, retrato que serve à África e, em boa medida, ao Brasil, onde o NIC.br admite que São Paulo continua ampliando sua relevância mesmo com os esforços para espalhar a troca de tráfego pelo país.

Fortaleza abre a porta do Atlântico Sul

Quem procura no mapa por onde a internet entra no Brasil pelo Atlântico encontra Fortaleza, onde desembarcam a EllaLink, que vem de Portugal, o SACS, da angolana Angola Cables, que desde 2018 chega de Luanda, e o SAIL, sociedade da camaronesa CAMTEL com a China Unicom, que sai de Kribi, em Camarões.

Antes desses cabos, o tráfego entre África e América do Sul dava a volta pela Europa ou pelos Estados Unidos, e o SACS derrubou o tempo de resposta entre Fortaleza e Luanda de 350 para 63 milissegundos, segundo o TeleSíntese, ganho que interessa a provedores, multinacionais e redes de pesquisa.

Na Praia do Futuro, onde a fibra sobe à terra entre os modernos quiosques e cadeiras de plástico, e onde a Angola Cables mantém um data center, ninguém desconfia de que a foto mandada da Praça do Comércio acabou de passar por ali, algumas dezenas de milissegundos depois de sair do celular, a caminho de São Paulo.

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