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CNBCBinance diz já ter recuperado 90% dos US$ 6,3 bilhões perdidos em ataque hacker e prevê retomar saques no domingo

Allan Ravagnani AI-451

Binance: O Roubo do Século, até agora

Publicado 31/10/2026 • 14:52 | Atualizado há 2 horas

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Allan Ravagnani

Repórter Especial

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter especial do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

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Jakub Porzycki | Nurphoto | Getty Images

Foi um pesquisador que atende na internet pelo apelido de Spreek quem primeiro reparou, no fim da tarde de quinta-feira (29), que uma carteira ligada à Binance tinha acabdo de despachar seus ativos para um endereço recém-criado e que logo depois alguém começou a vender dólares digitais em corretoras descentralizadas.

A maior corretora de criptomoedas do mundo ainda dizia investigar um possível incidente de segurança quando se soube que, em cerca de 20 minutos, US$ 6,3 bilhões (R$ 34 bilhões) tinham deixado suas carteiras em ao menos dez redes, o maior roubo da história do setor, até agora.

A Binance estimou o impacto em cerca de US$ 6,3 bilhões, a TRM Labs rastreou US$ 6,36 bilhões e a Chainalysis chegou a US$ 6,4 bilhões. Qualquer das cifras equivale a cerca de quatro vezes o US$ 1,5 bilhão levado da Bybit em fevereiro de 2025, até então o recorde. A Tether congelou mais de US$ 1,5 bilhão em USDT, a Circle bloqueou mais de US$ 800 milhões em USDC, e a Binance fala em cerca de US$ 3 bilhões travados.

Leia também: Seu dinheiro está seguro em corretora de criptomoedas? Sete perguntas após ataque à Binance e o que é autocustódia

A entrada, ao que se sabe até aqui, foi o notebook de trabalho de um engenheiro de DevOps. Dali o invasor conseguiu que o sistema assinasse transações que ninguém autorizara. Não houve vazamento de chaves privadas, segundo a Binance, o que deixa a história mais desconfortável, porque o cofre estava trancado e quem o esvaziou foi atendido pelo próprio caixa. Segundo o co-CEO Richard Teng, a corretora já achou outros pontos de invasão além do notebook, sem atribuir culpa a nenhum funcionário.

🔍 DevOps é a equipe que une desenvolvimento e operação, cuidando dos servidores e dos acessos privilegiados que mantêm o serviço no ar. Por isso o notebook de um desses engenheiros abre tantas portas.

Coreia do Norte, suspeita de plantão

A autoria não tem selo de governo. A TRM Labs atribui o ataque, com alta confiança, ao TraderTraitor, unidade norte-coreana ligada ao Lazarus Group, e a Chainalysis aponta que parte do dinheiro se misturou, na mesma carteira, com o produto do ataque à Bitget. A Binance não nomeou os autores, e o FBI, que atribuiu a Bybit ao mesmo grupo em 2025, ainda não se manifestou sobre este caso.

Convém ler isso com o sorriso de quem já viu o filme. Pyongyang tem folha corrida respeitável no ramo, atestada pelo FBI em Bybit, Ronin e Harmony, mas virou também o culpado ideal, longe demais para ser processado, fechado demais para desmentir e sofisticado demais para que alguém cobre do dono do notebook.

Quem diz ataque de Estado desloca a conversa dos controles internos para a geopolítica, e o cliente, impressionado com o adversário, esquece de perguntar quem deixou a porta aberta. Fundos misturados na mesma carteira provam um elo, não uma identidade, e a lavagem pode ser serviço terceirizado. A prova pública, por ora, vem de firmas de rastreamento, não de um tribunal.

Agentes de IA invadem até quem rastreia o dinheiro

A ironia veio no dia seguinte. Na sexta-feira (30), a própria Chainalysis avisou clientes de que um hacker com técnicas ofensivas de agentes de IA entrou em seus sistemas e leu nomes e e-mails de usuários. A empresa diz que o caso não tem relação com a Binance.

🔍 Agentes de IA são programas que recebem um objetivo e decidem sozinhos os passos para cumpri-lo, de vasculhar uma rede a testar senhas, sem esperar um humano apertar cada tecla.

Nada até agora prova que IA tenha sido usada contra a Binance, e o próprio Joshua Saxe, da Abundant Security, admite que os norte-coreanos poderiam ter feito isso sem ela.

O que ele e o economista Eswar Prasad, de Cornell, apontam é a direção da conta, pois a IA barateia a procura por falhas e deixa mais gente tentar, o que aumentaria a escala e a frequência dos ataques.

O primeiro semestre de 2026 foi o mais atacado da história em quantidade de incidentes, mais de 200 segundo levantamentos do setor, e a TRM calculou que a Coreia do Norte levou 76% do valor roubado no ano com apenas dois ataques, antes da Binance.

Em abril, esta coluna contou que a Anthropic preferiu não soltar o Mythos Preview por ele achar falhas demais em sistemas operacionais e navegadores. A Binance diz ter barrado US$ 10,5 bilhões em fraudes com defesas de IA em 15 meses, e mesmo assim viu US$ 6,3 bilhões saírem em 20 minutos.

Binance retoma saques, mas risco continua

Para o cliente, a promessa foi a de sempre, e desta vez veio com número. A corretora separou mais de US$ 6,34 bilhões e anunciou no sábado (31) ter reposto cerca de 90% do que foi levado, com os dez principais ativos lastreados integralmente.

Os saques devem voltar em etapas no domingo (1º), e a prova de reservas fica para segunda-feira (2). Dizer que está tudo coberto custa uma postagem, provar custa uma auditoria, e o notebook de engenheiro segue como o trecho mais incômodo da explicação, à espera de que, na aposta dos analistas, um agente de IA procure milhares deles ao mesmo tempo.

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