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A mercantilização da medicina e os limites dos protocolos
Publicado 07/07/2026 • 14:04 | Atualizado há 3 horas
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Publicado 07/07/2026 • 14:04 | Atualizado há 3 horas
Tecnologia deixa medicina mais eficiente
Unsplash
O médico e escritor Dr. Maurício Mendes discute os efeitos da lógica da produtividade na assistência à saúde e propõe uma reflexão sobre aspectos do cuidado que não cabem em métricas de desempenho
A medicina incorporou um vocabulário originalmente associado ao mundo da administração, com termos como produtividade, fluxo, desempenho, tempo de permanência, conversão e rentabilidade. Com isso, a rotina assistencial e o paciente foram incluídos em métricas de eficiência, enquanto o médico viu sua atuação cercada por protocolos, indicadores e metas de desempenho.
Essa transformação produz e modifica a forma de compreender o cuidado, fazendo com que a consulta integre uma cadeia de processos submetida a controles de tempo, produtividade e custos, ao invés de ser um encontro entre duas pessoas para. Da mesma forma, a escuta disputa espaço com a urgência dos cronogramas, e o vínculo clínico precisa encontrar lugar em estruturas que privilegiam aquilo que pode ser medido.
Essa questão me acompanha tanto na medicina quanto na literatura. A formação médica ensina a importância do método, da objetividade e da precisão. A escrita, por sua vez, oferece um campo em que a experiência humana resiste às simplificações inevitáveis dos discursos técnicos. Nem toda dor pode ser traduzida em prontuários, escalas ou indicadores. O mesmo vale para quem exerce o cuidado. Medo, culpa, desgaste moral, insegurança, endurecimento emocional e pequenas estratégias de sobrevivência fazem parte da rotina dos profissionais de saúde, embora raramente apareçam nos registros oficiais. A narrativa literária alcança esse território porque admite contradições, ambiguidades e zonas de sombra que dificilmente encontram espaço na linguagem institucional.
Poucos aspectos evidenciam essa lógica de maneira tão clara quanto a administração do tempo. Em muitos serviços, a duração da consulta tornou-se variável de produtividade. A fala do paciente precisa caber em poucos minutos, enquanto a escuta prolongada frequentemente é percebida como fator de ineficiência.
O impacto dessa lógica não se restringe à organização do trabalho. A própria qualidade da atenção sofre alterações. Há experiências que exigem silêncio, elaboração e disponibilidade. Comunicar um diagnóstico grave, acolher uma dúvida ou construir confiança demanda tempo. Nenhum desses processos acontece sob a pressão de um cronômetro.
O que está em discussão, portanto, não é apenas a duração da consulta, mas a própria natureza da relação clínica. Há dimensões do cuidado incompatíveis com uma lógica que trata o tempo exclusivamente como recurso financeiro.
Esse ambiente também produz consequências para os profissionais. A imagem tradicional do médico, associada à autonomia e à autoridade técnica, convive hoje com uma realidade marcada por exigências administrativas, padronização crescente das condutas, escassez de recursos, judicialização e monitoramento permanente de desempenho.
Os conflitos éticos que surgem desse contexto raramente assumem a forma dos grandes dilemas apresentados nos livros de bioética. Em geral, aparecem de maneira discreta, incorporados à rotina. Estão na informação omitida para evitar conflitos, na resposta automática repetida dezenas de vezes ao longo do dia, na adaptação progressiva a situações que antes despertariam indignação.
Esse desgaste dificilmente ocorre de forma abrupta. Ele se acumula aos poucos, até que determinadas práticas passem a parecer naturais. A acomodação frequentemente nasce menos da convicção do que da necessidade de continuar funcionando dentro de estruturas que impõem limites permanentes ao exercício da profissão.
Foi esse universo que procurei explorar em "O homem não foi feito para ser feliz". No início do romance, Germano trabalha em um hospital público de uma pequena cidade do interior do Ceará, onde faltam medicamentos essenciais para pacientes internados. A direção determina que médicos não informem familiares e doentes sobre essa ausência. Mais tarde, o personagem assume uma posição em uma clínica privada de Fortaleza, na qual o tempo de conversa entre médico e paciente é rigidamente monitorado para ampliar a rentabilidade da operação.
Embora os cenários sejam distintos, ambos revelam formas semelhantes de distorção da prática médica. Em um deles, a precariedade material restringe o cuidado. No outro, a eficiência administrativa impõe limites à escuta. Em ambos os casos, interesses institucionais acabam ocupando um espaço que deveria pertencer à relação entre médico e paciente.
Meu interesse, entretanto, não está apenas em retratar estruturas institucionais. A literatura permite acompanhar aquilo que acontece dentro das pessoas submetidas a essas estruturas. A violência institucional raramente se manifesta de maneira espetacular. Ela costuma assumir a aparência da rotina, dos protocolos, das recomendações administrativas e da linguagem neutra dos processos.
Também a consciência moral não desaparece de uma só vez. Ela negocia, racionaliza, adapta-se e aprende a conviver com situações anteriormente consideradas inaceitáveis. A ficção consegue acompanhar esse percurso sem a obrigação de oferecer respostas definitivas. Ela observa como indivíduos justificam escolhas, convivem com contradições e preservam, ou perdem, partes importantes de si mesmos.
Há ainda outro aspecto que merece atenção. O sistema de saúde é atravessado por relações de poder envolvendo classe social, raça, gênero, prestígio institucional e acesso desigual à informação. Soma-se a isso uma tradição profissional que frequentemente associa autoridade à ausência de dúvida e competência ao distanciamento emocional.
A literatura torna essas estruturas visíveis ao atribuir importância ao detalhe aparentemente banal: o silêncio durante uma consulta, a frase dita para encerrar uma conversa, o tempo concedido a determinados pacientes e negado a outros. São elementos discretos, mas capazes de revelar quem é ouvido, quem permanece invisível e quem tem acesso pleno à verdade sobre a própria condição.
Escrever ficção a partir desse universo representa, para mim, um exercício ético tanto quanto literário. A literatura não oferece soluções para os problemas da medicina nem pretende substituir o conhecimento.
científico. Sua contribuição está em preservar a complexidade da experiência humana justamente onde a linguagem técnica precisa condensar, classificar e organizar.
Num período em que desempenho, produtividade e dados ocupam lugar central nas discussões sobre saúde, narrar continua sendo uma maneira de lembrar que nenhuma tecnologia, protocolo ou indicador substitui integralmente o encontro entre duas pessoas.
Dr. Maurício Mendes - CRM-CE 7624 | RQE 2283
Médico Nuclear, autor de “O homem não foi feito para ser feliz”
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