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O que o trabalho diante das telas faz com a coluna
Publicado 26/06/2026 • 12:30 | Atualizado há 3 horas
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Publicado 26/06/2026 • 12:30 | Atualizado há 3 horas
Pexels
O notebook ficou baixo demais, a cadeira perdeu apoio lombar e as pausas desapareceram.
Sedentarismo, permanência prolongada na mesma posição e estações de trabalho inadequadas ajudam a explicar o aumento das queixas de dor nas costas, afirma o Prof. Dr. Raphael Martus Marcon.
A dor na coluna deixou de ser uma condição restrita a quem carrega peso ou trabalha em pé. Hoje, também atinge quem passa oito ou dez horas diante de uma tela, em cadeiras improvisadas e com pouca movimentação. Dados recentes sobre afastamentos no Brasil reforçam o tamanho do problema: dores nas costas e transtornos dos discos intervertebrais estão entre as principais causas de incapacidade temporária.
O pós-pandemia consolidou um paradoxo. Parte dos trabalhadores passou a se deslocar menos e ganhou flexibilidade, mas também se movimentou menos e transformou qualquer canto da casa em escritório. O notebook ficou baixo demais, a cadeira perdeu apoio lombar e as pausas desapareceram. A consequência não é apenas “má postura”: é a soma de tempo prolongado na mesma posição, sedentarismo, perda de força muscular, sono ruim, estresse e repetição.
Na prática clínica, o perfil é amplo. Há o trabalhador remoto com dor cervical e tensão nos ombros pelo uso prolongado de telas. Há o paciente com dor lombar por ficar sentado por horas. E há quem exerce trabalho físico, levanta carga sem preparo adequado ou alterna esforço intenso com pouca recuperação. Em comum, muitos procuram atendimento quando a dor já limita a produtividade e a atividade física.
A prevenção começa com uma ideia simples: a melhor postura é a próxima postura. Nenhuma posição foi feita para ser mantida por horas. Por isso, pausas curtas e frequentes costumam ser mais úteis do que esperar a dor aparecer. Levantar, caminhar, movimentar ombros, quadris e coluna e alternar tarefas reduzem a sobrecarga acumulada.
O ajuste da estação de trabalho também importa. A tela deve ficar na altura dos olhos, teclado e mouse próximos ao corpo, pés apoiados no chão ou em suporte, e a cadeira deve permitir apoio lombar. No notebook, o erro clássico é trabalhar com a cabeça inclinada para baixo por muito tempo. Elevar a tela e usar teclado e mouse externos costuma ser uma solução simples.
Mas alongamento isolado não compensa musculatura fraca. A prevenção consistente passa por fortalecimento progressivo. Exercícios para tronco, quadril, pernas e cintura escapular aumentam a tolerância do corpo ao trabalho diário. Caminhada, musculação, pilates, fisioterapia e exercícios domiciliares orientados podem ajudar. O caminho não é repouso prolongado, e sim o retorno gradual ao movimento.
Nem toda dor na coluna exige ressonância magnética. Exames de imagem podem mostrar alterações comuns do envelhecimento, como protrusões discais ou degeneração, mesmo em pessoas sem dor. Quando o exame é pedido sem indicação clínica, pode gerar medo, diagnósticos excessivos e tratamentos desnecessários.
A decisão deve começar pela história e pelo exame físico. A ressonância passa a ser importante quando há sinais de compressão neurológica ou suspeita estrutural relevante: dor irradiada para braço ou perna com perda de força, alteração de sensibilidade progressiva, formigamento persistente em trajeto compatível com raiz nervosa, dificuldade para caminhar, perda de controle urinário ou intestinal, febre, perda de peso inexplicada, histórico de câncer, trauma importante ou dor intensa que não melhora apesar de tratamento adequado.
Também se deve investigar melhor quando a dor persiste por semanas com piora funcional importante, sobretudo se houver sinais radiculares ou possibilidade de tratamento específico. Fora dessas situações, a prioridade costuma ser um tratamento conservador bem conduzido: educação, controle da dor, reativação física, fortalecimento e correção dos fatores ocupacionais.
A coluna sofre quando o trabalho ultrapassa a capacidade física do corpo. A boa notícia é que essa capacidade pode ser treinada. Ergonomia, pausas e exercício são medidas de saúde ocupacional. E a ressonância, quando indicada, deve confirmar uma suspeita clínica – não substituir a avaliação médica.
Prof. Dr. Raphael Martus Marcon - CRM: 93.936 | RQE: 84.991
Ortopedista do Hcor e chefe do grupo de coluna do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP.
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