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Entre a crítica e a adaptação: indústria de alimentos redesenha estratégia diante da nova demanda por saúde

Publicado 20/03/2026 • 13:12 | Atualizado há 4 horas

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Atividade da indústria recua em novembro e queda supera padrão histórico, aponta CNI

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A presença da cientista de alimentos Kantha Shelke no 19º Congresso Internacional da Abimapi (Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias, Pães & Bolos Industrializados), realizado em Foz do Iguaçu esta semana, funcionou como um gatilho para uma discussão que já vinha ganhando força, mas ainda carecia de confronto direto. Afinal, a indústria de alimentos perdeu espaço para a indústria farmacêutica no campo da saúde metabólica?

A provocação ficou ainda mais evidente em uma das frases mais impactantes da apresentação: segundo Shelke, os bilhões movimentados atualmente pelos medicamentos para controle de apetite poderiam, em grande parte, estar nas mãos da indústria de alimentos, caso o setor tivesse avançado mais rapidamente no desenvolvimento de produtos capazes de promover saciedade e saúde metabólica. Só no ano passado, a indústria das “canetas emagrecedoras” movimentou R$ 10 bilhões somente no Brasil.

A lacuna exposta pela nova onda de remédios

Ao longo da apresentação, Shelke trouxe uma provocação clara ao setor ao afirmar que a transformação dos hábitos alimentares e o avanço de medicamentos baseados em GLP-1 expõem uma lacuna histórica da indústria. “A questão não é apenas o que comemos, mas o que fazemos com os alimentos. Existe uma oportunidade de reformulação que está diante de nós”, destaca, ao defender que alimentos podem, sim, atuar na regulação da saciedade e da resposta glicêmica.

A palestra, que abordou desde mudanças regulatórias até o papel da ciência na formulação de produtos, teve como pano de fundo a crescente pressão sobre os ultraprocessados e a mudança no comportamento do consumidor. “Nem todo processamento é igual. Há espaço para evoluir produtos sem perder desempenho ou aceitação”, aponta.

Na visão da especialista, essa transformação não precisa acontecer de forma abrupta. Pequenas mudanças graduais já seriam suficientes para reposicionar produtos ao longo do tempo. “A reformulação pode começar com ajustes simples – reduzir um ingrediente, substituir outro, simplificar a composição – sem comprometer a experiência do consumidor”, indica Shelke, ao defender uma evolução contínua, e não uma ruptura imediata.

A partir desse ponto, executivos do setor passaram a reagir – cada um à sua maneira – a um cenário que combina crítica, oportunidade e necessidade de adaptação.

Como as marcas tentam se reposicionar

Maurizio Scarpa, diretor-geral da Barilla no Brasil, rejeita a ideia de perda de protagonismo para a indústria farmacêutica e prefere enxergar o momento como uma mudança de papel. “Não vejo como uma perda de espaço. Vejo uma evolução natural. Enquanto a indústria farmacêutica foca na intervenção, a indústria de alimentos deve focar na prevenção e no estilo de vida.” Segundo ele, esse movimento já é consolidado dentro da companhia. “Desde 2010, a Barilla reformulou mais de 500 produtos, reduzindo sal, açúcar e gorduras e aumentando o teor de fibras e o uso de grãos integrais”, diz, ao reforçar a estratégia de evolução contínua do portfólio.

Esse movimento não é apenas discurso. Dados do relatório global de sustentabilidade da Barilla indicam que mais de 90% do portfólio da companhia já é fonte de fibras, com avanços consistentes na redução de açúcar e sal ao longo dos últimos anos. A estratégia também envolve o fortalecimento da cadeia produtiva, com milhares de agricultores integrados a práticas mais sustentáveis, reforçando a tentativa de alinhar escala industrial com qualidade nutricional e transparência.

Ao abordar críticas frequentes sobre alimentos refinados, Scarpa também relativiza o debate. “A massa é um alimento extremamente simples, composto por sêmola de trigo duro e água. É um produto minimamente processado, parte da dieta mediterrânea”, conclui.

A discussão sobre reformulação, no entanto, vai além da composição dos produtos e alcança o posicionamento das marcas. Para Flávia Molina, diretora de marketing da Camil, a convivência entre saúde e indulgência é inevitável e estratégica. “A indulgência continua inegociável. O que mudou foi o critério de escolha. O consumidor decide onde vale a pena gastar suas calorias”, explica.

Com um portfólio que vai de arroz e feijão a biscoitos e massas, a empresa trabalha com diferentes momentos de consumo. “Existe espaço para saudabilidade e para indulgência. Estamos crescendo nas duas frentes.” Na visão da executiva, a indústria não apenas acompanha as mudanças, como frequentemente as antecipa. “Esse movimento de saudabilidade não começou agora. Passamos pelo light, pelo diet, pelos produtos enriquecidos, e agora vemos novas demandas surgindo. O momento agora é da proteína. A indústria observa e responde a essas tendências”, analisa a executiva.

A inovação, segundo ela, segue uma lógica contínua. “A gente acompanha as tendências, testa a consolidação e coloca na esteira de inovação aquilo que faz sentido para o consumidor naquele momento”, finaliza.

Ultraprocessados, crítica e mudança de percepção

Enquanto grandes empresas ajustam portfólios e estratégias, players menores surgem como exemplos de antecipação de tendências. É o caso da Belive, empresa mineira criada há mais de uma década, em Uberaba, com foco em produtos sem glúten, sem lactose e sem açúcar.

Para Samuel Ma, sócio-diretor da marca, o movimento nasceu de uma lacuna clara do mercado. “Há dez anos, esse segmento era muito pequeno e não fazia sentido para a indústria tradicional investir. Foi aí que surgiram empreendedores focados nesse nicho”, explica.

Hoje, com a ampliação do debate sobre saudabilidade, ele reconhece que o desafio evoluiu. “Sempre haverá espaço para melhorar. Produzir alimentos sem trigo, leite ou açúcar, sem perder o que torna esses produtos desejados, já é um desafio enorme”, afirma. Samuel também chama atenção para um ponto central da discussão atual: o equilíbrio entre atributos. “Não há como ser tudo ao mesmo tempo. Cada produto precisa ter uma proposta clara – seja sabor, funcionalidade ou redução calórica”, conclui.

Do ponto de vista institucional, a Abimapi adota um discurso mais cauteloso diante das críticas ao setor. Para o presidente-executivo da entidade, Claudio Zanão, a indústria não perdeu relevância, mas enfrenta

mudanças de percepção. “Não acredito que perdemos espaço. A saudabilidade sempre esteve presente. O que houve foi uma mudança de foco, com maior valorização das proteínas e críticas aos carboidratos”, afirma.

Sobre os ultraprocessados, ele relativiza o debate. “Existe uma visão muito ideológica. O consumidor tem opções na gôndola e faz suas escolhas.” Os dados do próprio setor ajudam a contextualizar a dimensão desse mercado. Em 2025, a indústria representada pela Abimapi faturou R$ 70,5 bilhões, com presença em 99,7% dos lares brasileiros, reforçando seu papel estrutural na alimentação do país.

Nesse cenário, a fala de Kantha Shelke ganha ainda mais peso ao propor uma mudança de abordagem que não elimina os produtos existentes, mas redefine sua lógica de desenvolvimento. “A ciência da saciedade, a regulação e o comportamento do consumidor estão apontando na mesma direção. Oportunidades existem para quem souber reformular com propósito”, destaca.

Ao final, o que emerge do congresso não é um consenso, mas um retrato fiel de uma indústria em transição. Entre críticas aos ultraprocessados, avanços em reformulação e novas demandas do consumidor, o setor tenta equilibrar escala, custo e saúde – enquanto observa, de perto, o crescimento de soluções farmacológicas que avançam justamente onde a alimentação, historicamente, deixou espaço.

Alexandre Hercules é editor-chefe da Brasil Health

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