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Não existe casa para idoso. Existe a casa que envelhece com você
Publicado 14/09/2026 • 11:15 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 14/09/2026 • 11:15 | Atualizado há 2 meses
Flavia Ranieri, arquiteta com pós-graduação em Gerontologia.
Três da manhã. O caminho da cama ao banheiro é o mesmo há vinte anos: o interruptor atrás da porta, o tapete no corredor, o degrau do box. Nada mudou na casa. Mudaram a visão, o equilíbrio e a força desse morador que envelheceu. De dia, o banco encostado na cozinha para alcançar a louça do armário de cima ou a cadeira usada para regar a planta viram mais um risco de acidente. Quando o morador passa a se adaptar à casa, em vez de a casa se adaptar ao morador, o ambiente já começou a falhar.
O Brasil está envelhecendo mais depressa do que adapta as casas em que vive. Boa parte das residências do país foi projetada para o corpo do comprador no dia da entrega, como se ele fosse permanecer o mesmo por quarenta anos. A cena da madrugada é tão comum que apareceu no domingo, 13 de setembro, em O Globo, na voz de uma especialista em gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, ao lado de um apartamento adaptado da CasaCor Rio e de uma lista de dicas para o leitor.
Uma frente da arquitetura se ocupa desse descompasso. Recebe nomes como arquitetura para a longevidade ou geroarquitetura, termo que ainda desperta discussão. O que interessa hoje vem antes das dicas: o mercado que essa frente revela.
Mais de 5,6 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais moram sozinhos, segundo o Censo 2022. Formam a faixa etária mais numerosa entre quem vive só no país: 28,7% do total. No Brasil, envelhecer em casa é sobretudo inércia: continua-se na moradia que já se tem, sem projeto de longevidade.
O próprio mercado reconhece a lacuna. O panorama Residências para Longevidade, publicado em 2025 pela MV Marketing com a arquiteta Flavia Ranieri, uma das entrevistadas desta coluna, admite que envelhecer na própria casa é o modelo de moradia mais comum do país e também o menos estruturado.
"Uma residência pode estar perfeitamente adequada à norma de acessibilidade e ainda assim ser ruim para envelhecer", diz Ranieri, pós-graduada em gerontologia e consultora de incorporadoras. Pode ter iluminação que ofusca, acústica ruim, excesso de estímulos, dificuldade de orientação, mobiliário que dificulta levantar e sentar.
Juliana Tasca Tissot, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas e doutora em arquitetura pela UFSC, vai na mesma direção. A NBR 9050 define altura e posição das barras de apoio, parâmetros pensados sobretudo para espaços de uso coletivo, que precisam atender a uma diversidade de usuários. "Quando estamos projetando especificamente para uma pessoa, precisamos ir além da norma", afirma. Alcance, estatura e força mudam de um morador para outro. A norma é piso, não teto. "Não existe uma solução universal para o envelhecimento. Existe uma solução adequada para uma determinada pessoa, em um determinado contexto, em um determinado momento da sua vida."
A frase resume uma tese recorrente desta coluna: o público 60+ é plural, e a casa que o atende também precisa ser. E tudo isso vale para a casa comum, a que já existe e a que está sendo vendida na planta, e não apenas para prédios assistenciais ou condomínios dedicados a idosos.
A casa precisa continuar parecendo casa. Tissot lembra que ela tem o que o hospital não tem: memória, identidade, o móvel antigo, as fotografias. Retirar tudo que representa risco entrega uma casa que deixou de ser lar, sem torná-la necessariamente segura.
Para o mercado, a distinção tem consequência direta. Cumprir a norma, onde ela se aplica, é obrigação e não distingue ninguém; o que faz a diferença é o projeto que conhece o morador e prepara a casa para o que ele ainda vai precisar.
O que define o custo da adaptação de um imóvel para a longevidade é o momento da decisão. Para Tissot, há três cenários: quem pensa no envelhecimento ao planejar a moradia dilui o investimento ao longo dos anos e adapta aos poucos. Quem desenvolve uma condição que avança faz intervenções pontuais. Quem precisa adaptar a casa da noite para o dia, depois de uma queda, paga a conta mais alta, porque não há tempo para planejar e as intervenções são emergenciais. O que encarece é o estrutural: desníveis, vãos de porta, circulação estreita, banheiro pequeno com a estrutura pronta.
"A posição de uma porta, o sentido de abertura, a largura de uma circulação, a distribuição do mobiliário, a posição de interruptores, a escolha de um puxador ou a criação de um contraste adequado são decisões de projeto antes de serem decisões de custo", diz Ranieri.
Ela cita um edifício residencial intergeracional que seu escritório avaliou ainda na planta: reprovado na primeira análise, chegou ao nível mínimo que ela exige dos clientes com ajustes de layout, larguras de portas, louças e revestimentos, sem tocar em estrutura ou instalações. Custo para a construtora, segundo ela: nenhum, porque tudo ainda estava no papel. "Fazer isso depois de pronto é que seria inviável."
Custo também deve ser lido ao longo do ciclo de vida do imóvel. Uma solução que permite adaptação futura sem obra, pode reduzir acidentes e prolonga o tempo em que a pessoa consegue permanecer na própria casa produz valor para quem compra, para quem vende e para quem financia.
Algumas incorporadoras começam a se mover. Em Curitiba, o BIOOS, da Construtora Laguna, entregue em agosto de 2026, tem, segundo a empresa, 108 unidades de 42 a 83 metros quadrados, portas de entrada de 1,10 metro, banheiros acessíveis, botão de SOS e serviços de cuidado cobrados por uso. Em São Paulo, o Naara Longevity Residences leva o modelo a Higienópolis com 70 apartamentos de 100 a 145 metros quadrados, ambulatório e emergência 24 horas, a um valor médio de R$ 28,5 mil o metro quadrado, como mostrei na coluna sobre senior living. São imóveis pensados para o envelhecimento, e ainda são exceção.
O mercado maior, em número de casas, está no estoque existente. Cada casa em que alguém de 70 anos sobe num banco para alcançar o armário é uma unidade desse mercado: reforma por etapas, lojas de material de construção, mobiliário, iluminação e automação residencial. Vale, porém, a advertência de Tissot para não confundir esse mercado com uma lista de dicas. "Retirar o tapete, sozinho, não necessariamente vai resolver o problema", afirma; o acidente doméstico costuma ser a soma de fatores ambientais, biológicos e comportamentais. Uma barra de apoio, completa Ranieri, "não é boa simplesmente porque existe".
O risco brasileiro é transformar acessibilidade básica em amenidade premium, com a longevidade bem projetada presente no senior living de alto padrão e ausente do apartamento comum. Se a população vive mais, por que ainda se constrói como se ninguém fosse envelhecer?
A próxima coluna trata do que vem depois da promessa: quem garante que um projeto vendido como "para a longevidade" entrega o que promete, e quem disputa o nome, a formação e a prova desse novo campo.
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Gilmara Espino é mestre em gestão, palestrante e professora de MBA. Presidente da GPeS Comunicamos Saúde e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC.
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É a aplicação do conhecimento sobre o envelhecimento humano ao projeto de casas, edifícios e cidades, para que o ambiente acompanhe as mudanças físicas, sensoriais e cognitivas ao longo da vida. Vai além da norma de acessibilidade, incluindo iluminação, acústica, orientação espacial, mobiliário e preparação para adaptações futuras. Envelhecer na própria casa e na própria comunidade, com esse suporte, é o que a literatura internacional chama de aging in place.
Depende do momento da decisão, mais do que de um percentual. Quando a longevidade entra na concepção do projeto, muitas soluções têm custo baixo ou nulo. O que encarece é corrigir depois da obra pronta: ampliar banheiro, eliminar desnível, alargar portas ou alterar circulação.
Segundo o Censo 2022, do IBGE, mais de 5,6 milhões de pessoas com 60 anos ou mais viviam sozinhas. Elas são 28,7% de quem mora só no país, a maior proporção entre todas as faixas etárias.
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