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Lei do estágio não tem idade máxima e o estagiário 50+ ganha força

Publicado 31/08/2026 • 08:00 | Atualizado há 4 horas

Foto de Gilmara Espino

Gilmara Espino

A economia prateada já é um dos movimentos mais relevantes do nosso tempo. Gilmara Espino acompanha de perto o mercado 60+ e traz, semanalmente, tendências e casos práticos que revelam como esse fenômeno está abrindo novas frentes de negócio.

Estágio

O Brasil tinha cerca de 3.400 estagiários com mais de 50 anos em 2024. Três anos antes, eram apenas 550. O recorte é da Abres, a Associação Brasileira de Estágios. A pedido desta coluna, o CIEE, que há 62 anos conecta estudantes a empresas, abriu seu banco de talentos: acima de 45 anos, há 12.591 candidatos que esperam uma vaga e 6.194 já estagiam. Ou seja, um em cada três dessa faixa está contratado.O estágio, pensado para o começo da vida profissional, passou a servir a quem está na metade dela. 

Uma das explicações para o fenômeno é também a mais evidente: há mais pessoas com mais de 50 anos no ensino superior brasileiro. Em 2024, foram 211.237 ingressantes de 50 anos ou mais, cinco vezes o total registrado em 2010, segundo tabulação da ABED, a Associação Brasileira de Educação a Distância, sobre o Censo da Educação Superior do Inep. A Lei do Estágio, a 11.788, de 2008, que regula a atividade no Brasil, pede ao estagiário uma condição central: matrícula e frequência regulares em um curso. E isso vale igualmente para o calouro de 19 anos e para a estudante de 55. Quem volta à faculdade volta também a poder estagiar.

A outra explicação é consequência da longevidade. Quem cruza os 50 ou os 60 hoje carrega uma expectativa de vida que a geração anterior não tinha e não se reconhece no lugar que a sociedade reservou aos próprios pais na mesma idade. É o perfil prateado, o jovem idoso de que tratei nesta coluna: gente que segue produtiva e economicamente ativa, longe de um fim de carreira. É essa disposição que leva o maduro de volta à sala de aula, e da sala de aula ao estágio.

Experiência e diversidade geracional: o que a empresa ganha com o estagiário maduro

A inteligência artificial já automatiza parte das tarefas baseadas em conhecimento codificado. Nesse contexto, julgamento e leitura de contexto ganham peso. O estagiário mais velho pode chegar com um repertório construído em outras passagens profissionais e ao longo da vida. É o que Mônica Vargas, superintendente de Parcerias e Mercado do CIEE, descreve como “uma história, uma trajetória”: leitura de cliente, memória de mercado e tranquilidade diante de um problema parecido com outro já vivido profissionalmente.

Sentados lado a lado na mesma bancada, o estagiário de 22 anos e o de 55 trocam o que cada um tem. A mentoria corre nos dois sentidos, sem cerimônia nem programa formal. Essa convivência fortalece a passagem de conhecimento entre gerações.

Apesar de vantagens como essas, as empresas brasileiras ainda recebem o estagiário maduro por acaso, quase nunca por estratégia. Mônica afirma que praticamente nenhuma empresa procura o CIEE atrás de estagiários mais velhos. "A empresa não espera encontrar um candidato, na hora da entrevista, com essa idade", conta. Passada a surpresa, os retornos que as empresas dão ao CIEE costumam ser bons.

Quem desenhou um programa de propósito viu a procura de perto. Em 2019, a Unilever abriu uma única vaga de estágio para estudantes com mais de 55 anos, batizada de Senhor Estagiário. Chegaram cerca de mil candidaturas, a empresa terminou contratando cinco pessoas e quase todas foram efetivadas ao fim do contrato. Já no ano seguinte, o programa ganhou edição regular, com vagas em áreas como vendas, finanças e supply chain, em São Paulo e Valinhos, sem exigência de experiência prévia. A integração incluiu mentoria reversa dos mais jovens.

Perfil do estagiário mais velho

Um levantamento do CIEE Rio, divulgado no fim de 2023 depois de ouvir mais de 100 mil estagiários do país em processos seletivos, ajuda a desenhar esse perfil. Entre os maduros, 63% buscavam a graduação tardia para melhorar a situação financeira, 26% queriam se atualizar para seguir empregáveis e 11% realizavam a troca de carreira ou a profissão adiada. No recorte fluminense, que somava 465 estagiários acima dos 50 em grandes empresas, Pedagogia concentrava 80% das matrículas, com o Direito em segundo lugar.

Já Mônica enxerga do balcão nacional um perfil menos pressionado pela renda. Para o estagiário mais velho, diz ela, a remuneração e a construção de uma carreira tradicional não são o que ele mais almeja. 

Os dois retratos convivem porque o fenômeno ainda não foi medido por inteiro. A própria Mônica sinaliza que novos indicadores ajudariam a enxergá-lo, a começar pela empregabilidade por faixa etária ao fim do estágio, um recorte que hoje não existe no setor.

Programa de estágio 50+: o próximo passo

Segundo Mônica, empresas já desenham programas específicos de estágio para ampliar a presença de mulheres ou de pessoas com deficiência, e o mesmo instrumento serve à maturidade. No desenho da lei, estágio é formação: jornada de até seis horas, contrato de até dois anos, sem vínculo empregatício e, no formato não obrigatório, que é o da segunda carreira, bolsa e auxílio-transporte compulsórios, com a efetivação como desfecho natural quando a experiência dá certo. 

Para um candidato que precisa repor salário, a bolsa é pouca. Para quem quer mudar de área aprendendo sob supervisão, com a contratação no horizonte, é um caminho que já existe, regulado e testado, à espera de empresas que topem sair do óbvio.

Até lá, a tendência se estabelece por conta própria, empurrada pela longevidade e pela volta dos brasileiros maduros às salas de aula. Ao gestor que lidera uma operação, vale uma verificação simples junto ao seu RH: nos planos de crescimento, há espaço para o profissional maduro, seja pela porta formal do emprego, seja pela do estágio? 

Se o talento 50+ está no plano, a empresa escolheu seu lugar na Economia Prateada.

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Gilmara Espino é mestre em gestão, palestrante e professora de MBA. Presidente da GPeS Comunicamos Saúde e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC. linkedin.com/in/gilmaraespino

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