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Quando a IA generativa ocupa um espaço pouco imaginado
Publicado 06/01/2026 • 20:29 | Atualizado há 1 dia
Publicado 06/01/2026 • 20:29 | Atualizado há 1 dia
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Foto: Freepik
Imagem ilustrativa Inteligência Artificial
Há algo que soa insuficiente na forma como temos falado sobre inteligência artificial. O debate costuma girar em torno de produtividade, eficiência, automação, copilots. Falamos de empresas, mercados, estratégias. Ainda assim, esse vocabulário parece não alcançar um movimento mais silencioso, mas cada vez mais perceptível em 2025: muitas pessoas parecem recorrer à IA menos para trabalhar melhor e mais para sustentar a própria vida cotidiana.
Essa percepção não nasce de uma tese abstrata. Ela começa a se delinear em um estudo publicado este ano pela Harvard Business Review, assinado por Marc Zao-Sanders. Em vez de investigar o que executivos acreditam que a IA deveria fazer, o autor optou por observar algo mais simples — e talvez mais revelador: o que as pessoas fazem com a IA quando ninguém está olhando. A pesquisa se baseou na leitura e curadoria qualitativa de centenas de relatos espontâneos publicados em fóruns públicos como o Reddit, onde indivíduos falam sem mediação institucional.
O que aparece nesses relatos não soa exatamente como entusiasmo tecnológico.
Soa, antes, como tentativa de sustentação.

O gráfico que sintetiza os dez principais usos da IA em 2025 chama atenção menos pelo ranking em si e mais pelo deslocamento que sugere. Em 2024, usos ligados à geração de ideias ocupavam o topo. Em 2025, esse lugar passa a ser ocupado por terapia e companhia, seguidos por organizar a vida, buscar propósito, aprendizado aprimorado e vida mais saudável.
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Não se trata necessariamente de afirmar que a tecnologia mudou de natureza. Talvez o que tenha mudado sejam as expectativas, fragilidades e demandas que as pessoas levam até ela. O gráfico parece indicar um deslocamento do campo da performance para algo mais próximo da manutenção do cotidiano, como se a IA estivesse sendo chamada a operar em registros que antes pertenciam a outros espaços da vida social.
Talvez não estejamos diante de um novo hábito tecnológico, mas de um novo lugar onde o pensamento tenta respirar.
Entre os relatos analisados, cresce o número de pessoas que recorrem à IA para organizar pensamentos, atravessar decisões difíceis, lidar com perdas ou simplesmente reduzir o ruído interno do dia a dia — não necessariamente porque a vejam como substituta de relações humanas, mas porque os lugares tradicionais de escuta e elaboração parecem hoje mais escassos, mais caros ou mais arriscados.
Em muitos contextos contemporâneos, pensar, errar ou hesitar deixou de ser um gesto protegido. Não apenas porque esses movimentos podem expor fragilidades ou gerar custos institucionais, mas também porque ocorrem em um ambiente social atravessado por narrativas contínuas de sucesso, perfeição e abundância — corpos impecáveis, trajetórias sem falhas, vidas editadas. Sob esse olhar difuso e permanente, a reflexão tende a acontecer em estado de comparação constante, tornando-se mais cautelosa, mais silenciosa e, por vezes, mais solitária.
Nesse cenário, a IA passa a funcionar como um lugar onde ainda é possível falar sem precisar sustentar, a cada frase, uma identidade rígida, um posicionamento público ou uma coerência permanente. Ela não reage, não corrige, não se ofende. Ela permite que o pensamento aconteça no próprio ritmo.
Embora esse movimento atravesse o mundo do trabalho, é possível que ele não se origine ali. O que se deixa perceber é antes a experiência de indivíduos imersos em expectativas que não se organizam em sequência, mas se acumulam — exigências que coexistem, se tensionam e raramente se acomodam.
Nesse contexto, pensar pode deixar de ser um gesto natural. A reflexão passa a acontecer com algum grau de contenção, como se precisasse avaliar previamente suas próprias consequências. Não necessariamente por falta de vontade de pensar, mas porque o próprio ato de refletir pode começar a ser vivido como algo que expõe demais.
Quando o pensamento se aproxima desse limiar, não é difícil imaginar que ele procure outros lugares para acontecer. Hoje, pode ser que a IA esteja sendo convocada exatamente nesse intervalo incerto — não como resposta, mas como espaço onde a reflexão ainda encontra alguma margem.
É nesse ponto que entra a abordagem que desenvolvi e denomino Arquitetura Psicodinâmica — não como explicação fechada, mas como lente interpretativa.
Com esse conceito, refiro-me ao conjunto de estruturas invisíveis — simbólicas, emocionais e relacionais — que tornam possível pensar, errar, elaborar conflitos e transformar pressão em aprendizado. Essa arquitetura não se limita às organizações; ela atravessa a vida social como um todo. Quando está operante, permite que o sujeito reflita antes de reagir, fale antes de agir, simbolize antes de colapsar.
Quando se enfraquece, o pensamento tende a perder lugar.
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Visto a partir dessa lente, o gráfico do Top 10 não encerra um diagnóstico. Ele abre uma pergunta. O que acontece quando usos ligados a terapia, organização da vida e busca de sentido passam a ocupar o centro? Talvez a IA esteja sendo chamada a operar em espaços que se tornaram rarefeitos — não por virtude própria, mas pela ausência de alternativas mais consistentes de sustentação e reflexão.
A IA não cria esse vazio.
Mas, na prática, é ali que ela parece se instalar.
Nesse contexto, o crescimento do uso da IA para organizar a vida, buscar propósito ou obter algum tipo de apoio pode ser lido menos como progresso linear e mais como resposta adaptativa. Uma tentativa de preservar a continuidade do pensamento em um ambiente que oferece poucas pausas, poucos silêncios e poucos lugares onde errar não tenha consequências imediatas.
A IA oferece, ao menos por enquanto, um espaço provisório de reflexão: um ambiente onde ideias podem ser ensaiadas, dúvidas formuladas e conflitos nomeados sem custo simbólico imediato. Ela não resolve, não substitui, não transforma — mas permite que o pensamento não se interrompa.
Talvez seja por isso que ela cresça menos como ferramenta de eficiência e mais como recurso de sustentação do cotidiano.
Algo parece estar sendo sustentado ali — ainda que ninguém tenha pedido que fosse.
O estudo não responde — e talvez nem precise. Ele apenas torna visível um movimento em curso.
A pergunta que permanece não é tecnológica. É humana:
O que acontece com uma sociedade quando uma tecnologia passa a ser percebida como um dos poucos lugares onde ainda é possível pensar com calma, errar sem medo e refletir sobre decisões difíceis?
Enquanto continuarmos discutindo inteligência artificial apenas como inovação, talvez deixemos de olhar para o que realmente está em jogo. A expansão da IA parece acompanhar, quase como um eco, a rarefação dos espaços de reflexão e apoio na vida contemporânea.
E isso diz menos sobre tecnologia e mais sobre a arquitetura humana e social que estamos — ou não — conseguindo sustentar.
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