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Vida nas organizações Joaquim Santini

Síndrome do Avestruz: o preço de evitar o que precisa ser enfrentado

Publicado 02/10/2026 • 15:35 | Atualizado há 8 horas

Foto de Joaquim Santini

Joaquim Santini

Pesquisador e palestrante internacional, diplomado em Psicologia Clínica Organizacional e mestre em Consulting and Coaching for Change no Insead ( european business school, na França), graduado e mestre em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Fundador da EXO - Excelência Organizacional.

Há problemas que todos percebem, mas ninguém coloca em discussão. Uma decisão permanece adiada, um conflito atravessa reuniões, uma falha se repete e uma mudança necessária encontra resistência. O trabalho continua, embora as pessoas saibam que algo precisa ser enfrentado. Essa convivência com dificuldades conhecidas revela um comportamento que merece atenção: a tentativa de reduzir o desconforto evitando aquilo que o provoca.

Ao longo da minha atuação com comportamento humano nas organizações, tenho observado essa tendência em diferentes contextos. Chamo essa postura de “Síndrome do Avestruz”: o movimento de ignorar, minimizar ou contornar situações desconfortáveis, esperando que desapareçam ou sejam resolvidas por outra pessoa. A expressão ajuda a discutir uma reação humana diante da ansiedade e da ameaça percebida, especialmente quando enfrentar um problema parece trazer consequências difíceis de suportar.

O alívio produzido pela evitação costuma ser imediato. Ao encerrar uma conversa delicada, adiar uma decisão ou deixar de comunicar uma falha, a pessoa se afasta temporariamente da tensão. Entretanto, a situação permanece e pode se agravar. O que parecia uma proteção começa a comprometer o trabalho, as relações e a capacidade de aprender com a experiência.

Quando a cultura favorece o silêncio

Esse comportamento pode aparecer em qualquer posição. Um gestor evita conversar sobre o desempenho de sua equipe; um diretor minimiza divergências entre áreas; um profissional deixa de sinalizar um erro; um grupo resiste a rever processos que já não atendem às necessidades da organização. Cada situação exige análise, porque as razões para evitar o enfrentamento podem ser distintas.

Na liderança, essa postura ganha alcance pela influência das decisões e dos exemplos. Quando um líder ignora um conflito conhecido, sua equipe precisa continuar trabalhando sem o encaminhamento necessário. Quando desqualifica uma preocupação, pode desencorajar novas manifestações. Aos poucos, as pessoas aprendem quais assuntos encontram acolhimento e quais despertam reações que preferem evitar.

É fundamental, portanto, examinar a cultura organizacional. Ambientes muito hierárquicos, com decisões centralizadas e pouca abertura para questionamentos, podem favorecer o silêncio. O profissional calcula o risco de falar, considera sua posição e antecipa possíveis consequências. Se expressar uma dúvida ameaça sua relação com a autoridade, manter o problema fora da conversa pode parecer a escolha mais segura.

Isso também pode acontecer em organizações que valorizam intensamente a harmonia. Quando qualquer discordância é recebida como falta de colaboração, questões importantes ficam sem espaço. As reuniões transcorrem tranquilamente, mas as preocupações circulam nos corredores. A aparência de consenso convive com tensões que não encontram um caminho legítimo para serem discutidas.

Precisamos observar o que acontece depois que alguém apresenta uma dificuldade. Há escuta e investigação? A pessoa recebe apoio para buscar uma solução? O assunto tem continuidade? Essas experiências mostram à equipe se existe espaço para falar. Declarações de abertura perdem força quando, na prática, comunicar um problema resulta em constrangimento, isolamento ou transferência de culpa.

Os custos para o trabalho e para as pessoas

As consequências da evitação aparecem em diferentes dimensões do trabalho. Falhas não tratadas geram retrabalho, desperdício e perda de qualidade. Decisões adiadas dificultam a coordenação entre áreas. Conflitos acumulados prejudicam a comunicação e a colaboração. A organização passa a gastar energia administrando efeitos de situações que continuam sem receber atenção suficiente.

A confiança também se desgasta. Quando as pessoas percebem que uma dificuldade é conhecida e permanece sem encaminhamento, podem duvidar da disposição da liderança para agir. Surgem interpretações, suspeitas e tentativas individuais de proteção. O trabalho coletivo fica mais difícil porque cada pessoa precisa avaliar quanto pode depender das demais e quanto deve se resguardar.

Existe ainda uma dimensão emocional que precisa ser considerada. Sustentar diariamente o silêncio sobre algo que afeta o trabalho pode produzir tensão e desgaste. Algumas pessoas se afastam das discussões; outras passam a carregar responsabilidades que deveriam ser compartilhadas. Compreender essas experiências exige atenção às condições reais de trabalho e às relações estabelecidas naquele ambiente.

Três caminhos para sair da fuga

Enfrentar esse padrão exige preparo para agir, confiança para falar e compreensão do que nos leva a evitar problemas.

Na dimensão técnica, precisamos desenvolver a capacidade de decidir, administrar conflitos e comunicar dificuldades, com responsabilidades claras, recursos e autonomia para transformar decisões em ações.

Na dimensão socioemocional, o desafio é criar relações em que as pessoas possam pedir ajuda, discordar e trazer notícias difíceis sem medo de humilhação. A confiança cresce quando a escuta gera encaminhamentos concretos.

Na dimensão inconsciente, precisamos compreender os medos e as defesas que sustentam a fuga: fracassar, perder reconhecimento ou contrariar quem tem poder. Examinar a cultura e os conflitos silenciados, com apoio especializado quando necessário, ajuda a reconhecer o que mantém a organização presa aos mesmos padrões.

Liderar exige sustentar conversas difíceis

Cabe à liderança participar desse processo, inclusive examinando sua própria contribuição para o silêncio. Escutar uma preocupação, reconhecer uma decisão inadequada e assumir responsabilidade são atitudes que influenciam a confiança coletiva. O encaminhamento deve deixar claro o que será feito, quem participará e quando o assunto será retomado.

Enfrentar problemas exige disposição para tolerar o desconforto que acompanha o aprendizado. Algumas conversas não produzem respostas imediatas, mas permitem reconhecer fatos, esclarecer diferenças e construir alternativas. A organização amadurece quando consegue permanecer nessa discussão sem recorrer automaticamente à negação, à minimização ou à busca de culpados.

O momento vivido pelas organizações exige essa capacidade de olhar para o que acontece e agir com responsabilidade. Problemas evitados continuam afetando decisões, resultados e pessoas. Reconhecer sua existência, compreender o que impede seu enfrentamento e construir respostas coletivas são tarefas essenciais para uma liderança comprometida com o trabalho e com quem o realiza. Esse compromisso se demonstra na continuidade das ações e na atenção às dificuldades que reaparecem durante o processo de mudança.

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