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Análise Exclusiva Marcelo Favalli

A maré azul chega ao Brasil — e encontra a Realpolitik

Publicado 06/10/2026 • 09:00 | Atualizado há 2 horas

Foto de Marcelo Favalli

Marcelo Favalli

Marcelo Favalli além de jornalista é Mestre em Relações Internacionais pela PUC e professor nos cursos de pós-graduação de Política Contemporânea, da FAAP e do MBA em Comunicação e Política da USP. Dos 27 anos de profissão, na imprensa, dedicou 18 deles à cobertura estrangeira. Foi correspondente na América Latina e no Estados Unidos.

Joédson Alves/ Agência Brasil

A onda que elegeu Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile e tirou a esquerda do poder na Bolívia depois de duas décadas quebrou, no domingo, no litoral brasileiro. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo o TSE. A Presidência só se decide em 25 de outubro. O Congresso que começa a valer em 2027 já está formado.

O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988, e chegará à próxima legislatura com 28 dos 81 senadores. Quem vencer o segundo turno governará com um Congresso de nítida inclinação à direita e herdará um problema que nenhum palanque resolve: o coração dessa direita bate por Washington, mas a carteira do país está dividida entre Pequim e em Bruxelas.

O que Rochau escreveu e Kissinger praticou

O termo Realpolitik nasceu em 1853, num livro do jornalista alemão Ludwig von Rochau, um liberal frustrado com o fracasso das revoluções de 1848. Sua tese era pouco romântica: na política, uma ideia vale o tamanho da força que a sustenta. O chanceler alemão do século XIX Otto von Bismarck transformou a tese em método e unificou a Alemanha aliando-se a quem convinha, quando convinha.

Um século depois, Henry Kissinger deu ao conceito seu capítulo mais famoso. Conselheiro de Segurança Nacional e depois secretário de Estado de Richard Nixon, ele levou a Pequim, em 1972, o presidente que fizera carreira como caçador de comunistas. Nixon apertou a mão de Mao Tsé-tung porque a China servia para conter a União Soviética. A ideologia ficou no hotel onde a delegação americana ficou hospedada.

O Brasil tem a sua versão. Em 1974, o general Ernesto Geisel, à frente de um regime militar anticomunista, reconheceu a China de Mao e batizou a política de "pragmatismo responsável". Foi um governo de direita que abriu a porta para Pequim.

Os números que não votam

De janeiro a agosto de 2026, segundo a SECEX, a China comprou US$ 77,1 bilhões em produtos brasileiros, 30,7% de tudo o que o país exportou. A União Europeia ficou com US$ 37,3 bilhões (14,9%). Os Estados Unidos, com US$ 24,1 bilhões (9,6%), queda de 9,7% sobre o mesmo período de 2025, sob o efeito das tarifas impostas por Washington no ano passado.

A aritmética é simples e um pouco cruel. Para cada dólar que o aliado ideológico compra, o parceiro "socialista" compra mais de três. E a Europa deixou de ser apenas cliente: desde 1º de maio vigora, em caráter provisório, o acordo comercial Mercosul - União Europeia, promulgado pelo Decreto 12.953. Cotas e cronogramas de redução tarifária já estão em curso. Desfazê-los custaria mais caro do que cumpri-los.

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Dois tabuleiros, um só governo

Robert Putnam descreveu a diplomacia, em 1988, como um jogo de dois níveis: o governante joga ao mesmo tempo para a plateia doméstica e para os parceiros externos, e um lance aplaudido numa mesa pode ser desastroso na outra. Um eventual governo Flávio Bolsonaro teria a base pedindo alinhamento a Donald Trump e o agronegócio, que também é base, pedindo que ninguém irrite o comprador da soja e do minério.

Albert Hirschman já havia completado o raciocínio em 1945: quem concentra as vendas num só cliente entrega a ele um instrumento de pressão. Com quase um terço das exportações num único destino, o Brasil não escolhe se terá relação com a China. Escolhe apenas o tom.

Há precedente na vizinhança. Javier Milei prometeu em campanha não fazer negócios com comunistas e, já presidente, renovou o swap cambial com Pequim e passou a tratar a China como um sócio comercial dos mais interessantes. Hans Morgenthau, para quem o interesse nacional se define em termos de poder, não estranharia.

Lorde Palmerston dizia que a Inglaterra não tinha aliados eternos nem inimigos perpétuos, apenas interesses. O governo que tomar posse em 2027, seja qual for o resultado do dia 25, vai descobrir que a frase também vale para quem exporta soja. O eleitor escolhe o presidente em outubro. O cliente, esse, já estava escolhido.

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