Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no
A maré azul chega ao Brasil — e encontra a Realpolitik
Publicado 06/10/2026 • 09:00 | Atualizado há 2 horas
Meta Muse impulsiona AMD à medida que o avanço da IA migra para agentes pessoais
Preços do diesel devem permanecer altos até 2027 nos EUA, enquanto refinarias lutam para atender à demanda, aponta Goldman Sachs
Trump diz que pagará anúncios de TV que o elogiam e foram financiados pelo governo
CEO da Nokia afirma que data centers seriam construídos “duas vezes mais rápido” sem restrições de fornecimento
Ações brasileiras disparam com Bolsonaro agora visto como grande favorito para vencer a presidência
Publicado 06/10/2026 • 09:00 | Atualizado há 2 horas
Joédson Alves/ Agência Brasil
A onda que elegeu Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile e tirou a esquerda do poder na Bolívia depois de duas décadas quebrou, no domingo, no litoral brasileiro. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo o TSE. A Presidência só se decide em 25 de outubro. O Congresso que começa a valer em 2027 já está formado.
O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988, e chegará à próxima legislatura com 28 dos 81 senadores. Quem vencer o segundo turno governará com um Congresso de nítida inclinação à direita e herdará um problema que nenhum palanque resolve: o coração dessa direita bate por Washington, mas a carteira do país está dividida entre Pequim e em Bruxelas.
O termo Realpolitik nasceu em 1853, num livro do jornalista alemão Ludwig von Rochau, um liberal frustrado com o fracasso das revoluções de 1848. Sua tese era pouco romântica: na política, uma ideia vale o tamanho da força que a sustenta. O chanceler alemão do século XIX Otto von Bismarck transformou a tese em método e unificou a Alemanha aliando-se a quem convinha, quando convinha.
Um século depois, Henry Kissinger deu ao conceito seu capítulo mais famoso. Conselheiro de Segurança Nacional e depois secretário de Estado de Richard Nixon, ele levou a Pequim, em 1972, o presidente que fizera carreira como caçador de comunistas. Nixon apertou a mão de Mao Tsé-tung porque a China servia para conter a União Soviética. A ideologia ficou no hotel onde a delegação americana ficou hospedada.
O Brasil tem a sua versão. Em 1974, o general Ernesto Geisel, à frente de um regime militar anticomunista, reconheceu a China de Mao e batizou a política de "pragmatismo responsável". Foi um governo de direita que abriu a porta para Pequim.
De janeiro a agosto de 2026, segundo a SECEX, a China comprou US$ 77,1 bilhões em produtos brasileiros, 30,7% de tudo o que o país exportou. A União Europeia ficou com US$ 37,3 bilhões (14,9%). Os Estados Unidos, com US$ 24,1 bilhões (9,6%), queda de 9,7% sobre o mesmo período de 2025, sob o efeito das tarifas impostas por Washington no ano passado.
A aritmética é simples e um pouco cruel. Para cada dólar que o aliado ideológico compra, o parceiro "socialista" compra mais de três. E a Europa deixou de ser apenas cliente: desde 1º de maio vigora, em caráter provisório, o acordo comercial Mercosul - União Europeia, promulgado pelo Decreto 12.953. Cotas e cronogramas de redução tarifária já estão em curso. Desfazê-los custaria mais caro do que cumpri-los.
Leia também: A reserva de Kim Jong-un: como a Coreia do Norte virou estoque estratégico de Moscou e Pequim
Robert Putnam descreveu a diplomacia, em 1988, como um jogo de dois níveis: o governante joga ao mesmo tempo para a plateia doméstica e para os parceiros externos, e um lance aplaudido numa mesa pode ser desastroso na outra. Um eventual governo Flávio Bolsonaro teria a base pedindo alinhamento a Donald Trump e o agronegócio, que também é base, pedindo que ninguém irrite o comprador da soja e do minério.
Albert Hirschman já havia completado o raciocínio em 1945: quem concentra as vendas num só cliente entrega a ele um instrumento de pressão. Com quase um terço das exportações num único destino, o Brasil não escolhe se terá relação com a China. Escolhe apenas o tom.
Há precedente na vizinhança. Javier Milei prometeu em campanha não fazer negócios com comunistas e, já presidente, renovou o swap cambial com Pequim e passou a tratar a China como um sócio comercial dos mais interessantes. Hans Morgenthau, para quem o interesse nacional se define em termos de poder, não estranharia.
Lorde Palmerston dizia que a Inglaterra não tinha aliados eternos nem inimigos perpétuos, apenas interesses. O governo que tomar posse em 2027, seja qual for o resultado do dia 25, vai descobrir que a frase também vale para quem exporta soja. O eleitor escolhe o presidente em outubro. O cliente, esse, já estava escolhido.
Maiores Audiências
1
DECISÃO 2026: Onda recorde da direita atropela adversários, conquista poder no Congresso e acende alerta no Supremo
2
Globo autoriza auditoria sobre relação de Luciano Huck com Daniel Vorcaro
3
Europa em alerta: o avanço de Flávio Bolsonaro, a sombra de Trump e a fragilidade do acordo UE-Mercosul
4
DECISÃO 2026: veja quem são os deputados federais eleitos em São Paulo
5
DECISÃO 2026: confira o resultado da eleição para governador no Rio de Janeiro