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Países não têm amigos, têm interesses: a lição de Trump para Flávio Bolsonaro e María Corina Machado
Publicado 30/10/2026 • 12:51 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 30/10/2026 • 12:51 | Atualizado há 1 hora
Em 1848, Lord Palmerston explicou à Câmara dos Comuns que a Inglaterra não tinha aliados eternos nem inimigos perpétuos. Eternos e perpétuos eram os seus interesses. A frase atravessou quase dois séculos, ganhou versões atribuídas a Charles de Gaulle e a Henry Kissinger e continua sendo ignorada justamente por quem mais deveria conhecê-la: políticos que apostam a carreira na amizade de uma superpotência.
Nesta semana, dois deles receberam a lição ao mesmo tempo.
A Nobel que ficou sem resposta
Comecemos por María Corina Machado, cujo caso merece mais respeito. Ela não perdeu eleição nenhuma. Foi impedida de disputá-la. Em 2023, a Controladoria venezuelana a declarou inabilitada para cargos públicos por 15 anos, sob acusações de irregularidades administrativas que ela sempre contestou, denunciando um processo sem direito real de defesa. A substituta que indicou também foi barrada, e correligionários foram presos ou perseguidos na pré-campanha. Edmundo González, o diplomata aposentado que acabou na cédula, venceu segundo as atas recolhidas pela oposição. O Conselho Nacional Eleitoral proclamou Nicolás Maduro sem jamais publicar os resultados mesa a mesa, e boa parte da comunidade internacional não reconheceu o resultado.
Em 2025, Machado recebeu o Nobel da Paz. Em janeiro, entregou a medalha a Donald Trump. É difícil imaginar presente mais valioso na política mundial, e difícil não ler ali um pedido: fique do nosso lado.
Trump guardou com a medalha. O agradecimento parecia ter vindo em operação militar cinematográfica. Em 3 de janeiro, forças americanas capturaram Maduro em Caracas e o levaram para ser julgado nos Estados Unidos. No entanto, a oposição teve uma celebração contida. No mesmo dia, o presidente americano declarou que Machado não tinha apoio nem respeito suficientes dentro do próprio país. A Casa Branca preferiu tratar com Delcy Rodríguez, vice de Maduro e hoje presidente interina. O petróleo da maior reserva comprovada do planeta voltou a fluir para o norte, sob contratos que Hugo Chávez e Maduro passaram duas décadas chamando de saque imperialista. Washington chegou para libertar os venezuelanos da opressão chavista, mas descobriu que os herdeiros do chavismo sabem assinar contrato.
Machado voltou à Venezuela no domingo, 25, depois de dez meses fora e de sete tentativas frustradas de entrar no país. Foi recebida por multidões. Delcy reagiu com desdém: “podia ter evitado o show”. Nesta semana, María Corina Machado admitiu que não recebeu nenhuma mensagem de Washington para intermediar um encontro com o governo interino. A Nobel da Paz está em casa, pedindo eleições e o telefone da Casa Branca não toca. Nem a medalha que presenteou Trump faz o republicano lembrar da fã.
O líder que o partido não seguiu
Ironia do destino. No mesmo domingo, 25, Flávio Bolsonaro perdeu o segundo turno para Lula. Dois dias depois, com o STF já tendo determinado a entrega de seus passaportes, embarcou para os Estados Unidos sem avisar ninguém. Nem o pai sabia, segundo Valdemar Costa Neto, chefe do PL - partido que emoldurou o Bolsonarismo. Na quarta-feira, já em solo americano, publicou uma carta em que se declarava o verdadeiro presidente eleito do Brasil. O texto foi refeito mais de uma vez ao longo do dia. Numa das versões, o brasão trazia "Estados Unidos do Brazil", com z, detalhe que algum psicanalista talvez achasse revelador. Na última, o autor se rebaixava a "líder do Brasil", sem abrir mão da tese de fraude.
A reação veio de onde mais dói. Valdemar, presidente do PL, resumiu em duas palavras: "Não gostei". Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e hoje o nome mais bem posicionado para liderar a direita conservadora, pediu responsabilidade e disse que é hora de olhar para frente. Segundo pessoas próximas, Tarcísio havia aconselhado Flávio a não deixar o país e, desde a viagem, recebe telefonemas de apoio de governadores, senadores, empresários e do agronegócio.
Vale lembrar o que Flávio havia oferecido em março, na convenção conservador CPAC, no Texas: o Brasil seria a solução para os Estados Unidos deixarem de depender da China em terras raras e minerais críticos. Uma oferta e tanto, vinda de quem não tinha o que ofertar. O Brasil detém a segunda maior reserva desses minerais no mundo, mas quem assina concessões é o governo eleito, não o candidato derrotado. Washington acompanha esses movimentos de perto, e o que viu nesta semana foi um senador isolado pelo próprio partido, discursando para uma plateia que já tinha mudado de canal. A conclusão em Washington não exige grande sofisticação: a família Bolsonaro tem hoje pouca, ou quase nenhuma, capacidade de mobilizar o país.
Interesse definido como poder
Hans Morgenthau escreveu, em meados do século XX, que os Estados agem segundo o interesse definido em termos de poder. Kenneth Waltz descreveu o sistema internacional como um ambiente de autoajuda, em que cada um olha por si porque ninguém mais vai cuidar. Nada disso é cinismo. É descrição.
Trump precisa da Venezuela pelo petróleo e precisa do Brasil pelas terras raras, pela soja, pelo minério e por um mercado de mais de 200 milhões de consumidores. Eleger Machado custaria pressão diplomática, dinheiro e paciência, para obter algo que Delcy já entrega. Apostar em Flávio exigiria uma força política que ele prometeu e não tem. Sobrou o que sempre sobra: negociar com o governo Lula.
Há uma frase atribuída a Henry Kissinger, a grande referência da diplomacia americana: ser inimigo dos Estados Unidos pode ser perigoso, mas ser amigo pode ser fatal. Machado e Flávio não são casos equivalentes. Ela foi vítima de um regime que fraudou o voto. Ele perdeu nas urnas e tentou desacreditá-las. Ainda assim, cometeram o mesmo erro de cálculo: confundiram afinidade ideológica com compromisso de Estado.
Vistas daqui, as promessas de apoio soam como conversa entre amigos numa mesa de bar. Na manhã seguinte, cada um paga a própria conta. Lord Palmerston, aquele do começo do texto, teria entendido de primeira.
Leia todas as colunas de Marcelo Favalli.
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