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Análise Exclusiva Marcelo Favalli

A reserva de Kim Jong-un: como a Coreia do Norte virou estoque estratégico de Moscou e Pequim

Publicado 29/09/2026 • 10:43 | Atualizado há 2 horas

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Marcelo Favalli

Marcelo Favalli além de jornalista é Mestre em Relações Internacionais pela PUC e professor nos cursos de pós-graduação de Política Contemporânea, da FAAP e do MBA em Comunicação e Política da USP. Dos 27 anos de profissão, na imprensa, dedicou 18 deles à cobertura estrangeira. Foi correspondente na América Latina e no Estados Unidos.

Coreia do Norte

Foto: unsplash

No mesmo dia em que Vladimir Putin assinou o decreto que eleva o efetivo das Forças Armadas russas a 2,44 milhões de pessoas, O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky, trouxe um dado que ajuda a entender a conta. Segundo ele, mais de 8 mil militares norte-coreanos já desembarcaram em território russo, e outros 10 mil estão sendo selecionados para treinamento e envio. O pagamento, diz Kiev, vem em tecnologia: a Coreia do Norte já produziria drones do tipo Shahed com apoio técnico russo.

O número vem de uma das partes em guerra e merece uma leitura crítica. A tática, contudo, não é nova. Desde 2024 governos ocidentais e sul-coreanos confirmam a presença norte-coreana. O próprio Putin agradeceu a Kim Jong-un, em Pequim, pela "coragem" de seus soldados.

Que tipo de soldado é esse?

Observadores militares falam em tropas de elite com lealdade cega. A realidade vista nas batalhas travadas na cidade russa de Kursk foi menos épica. Disciplinados e fisicamente preparados, os norte-coreanos chegaram a uma guerra digital, com drones que nunca haviam visto e pagaram caro: cerca de 6 mil, entre mortos e feridos, segundo avaliações de Seul e Londres. Houve relatos de soldados que preferiram a morte à captura, por medo do que aconteceria às suas famílias. A lealdade, ali, também deixa reféns. Ainda assim, os militares que retornaram à Coreia do Norte compartilharam o aprendizado. Para Moscou, o valor dessas tropas não está na excelência, e sim na disponibilidade. A mobilização de soldados estrangeiros não pesa nas pesquisas de opinião como uma nova convocação. Para Pyongyang, a guerra é um laboratório remunerado, pago em divisas, em tecnologia e em experiência de combate que nenhum exército asiático possui.

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E a China?

Pequim é mais discreta, mas não menos interessada. Xi Jinping escolheu Pyongyang como destino de sua primeira viagem ao exterior em 2026 e sequer mencionou a desnuclearização. Num eventual conflito por Taiwan, a China não precisa da infantaria de Kim; o Exército Popular de Libertação é o maior do mundo, e a travessia do Estreito é um desafio naval e aéreo. A utilidade norte-coreana é outra: ser a segunda frente que detém tropas americanas na península coreana e no Mar do Japão.

Há também uma dimensão econômica, mais modesta do que parece. A China envia cabelo processado e recebe perucas prontas. Trabalhadores norte-coreanos descascam frutos do mar em fábricas chinesas e ficam com uma fração do salário. É terceirização, sim, mas em grande escala. O 15º Plano Quinquenal chinês promete preservar a fatia da indústria no PIB, e não repassá-la ao vizinho. As sanções da ONU, votadas pela própria China, também proíbem esse comércio. Quando a manufatura barata deixa a China, ela vai para o Sudeste Asiático, não para Pyongyang. Ainda assim, a aliança entre os líderes Xi Jinping e Kim Jong-un garante à Coreia do Norte uma redoma de proteção da segunda maior potência global. Pequim, por sua vez, tem disponível uma abundante mão de obra osciosa.

O cientista político Glenn Snyder descreveu o dilema de toda aliança: o medo de ser abandonado e o medo de ser arrastado. Kim resolveu o seu arrumando dois padrinhos. Para a Rússia, a Coreia do Norte é uma reserva de soldados. Para a China, é uma reserva de opções. O país mais pobre do Nordeste Asiático tornou-se, curiosamente, o mais cortejado.

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