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Análise Exclusiva Marcelo Favalli

A derrota de Trump pesou mais que a vitória dos democratas

Publicado 05/11/2026 • 11:50 | Atualizado há 1 hora

Foto de Marcelo Favalli

Marcelo Favalli

Marcelo Favalli além de jornalista é Mestre em Relações Internacionais pela PUC e professor nos cursos de pós-graduação de Política Contemporânea, da FAAP e do MBA em Comunicação e Política da USP. Dos 27 anos de profissão, na imprensa, dedicou 18 deles à cobertura estrangeira. Foi correspondente na América Latina e no Estados Unidos.

Os democratas ainda comemoravam quando Bernie Sanders, senador independente e aliado da bancada, lembrou que o partido segue pouco popular. A observação ajuda a ler o resultado de terça-feira. Os democratas tomaram sete cadeiras republicanas no Senado e, pela projeção da NBC, terão ao menos 258 na Câmara. Viraram cinco governos estaduais, enquanto os republicanos não conseguiram conquistar uma única vaga regional. O Kansas, que não elegia um senador democrata havia quase um século, mudou de lado. O Texas, sem vitória democrata para o Senado desde 1988, também.

Um partido impopular não desenha esse mapa sozinho. Teve ajuda da Casa Branca e o vice-presidente J.D. Vance já apontou a guerra com o Irã como causa das derrotas.

A ciência política tem nome para isso: voto de castigo. O eleitor elege menos por afinidade com quem chega do que para punir quem está no poder. A mesma chave ajuda a explicar a guinada à direita na América Latina que Trump tanto celebrou. Agora, o remédio chegou a ele em doses diferentes conforme o estado.

O bolso, espinha dorsal do castigo

O motivo que atravessa o país é o custo de vida. Em janeiro, o galão de gasolina custava em média US$ 2,81, o menor preço desde 2021. Depois vieram a guerra e o choque do petróleo. Em outubro, o galão estava em US$ 4,27. O diesel, que subiu de cerca de US$ 3,53 para US$ 6,35, bateu em setembro o recorde histórico, acima do pico de 2022. E diesel move caminhão, trem e trator: o aumento não fica no posto, chega ao supermercado. A inflação anual voltou a 3,7% em setembro.

A pesquisa de boca de urna da NBC mostra a conta na mesa do eleitor. Quase oito em cada dez americanos que foram votar disseram que a inflação traz dificuldades à família, e 87% se declararam preocupados com o preço dos combustíveis.

Os adesivos de Houston

Onde há mais latinos, o castigo ganhou outro ingrediente. Lorenzo Salgado Araujo, empreiteiro mexicano de 52 anos, foi morto a tiros por um agente do ICE em 7 de julho, em Houston, durante uma abordagem de trânsito. O ICE alega legítima defesa e diz que ele usou o veículo para ameaçar o agente.

No primeiro dia de votação antecipada no Texas, o filho da vítima, Ronaldo, votou e colou seu adesivo "I Voted" no memorial de madeira erguido no local dos tiros. Publicou a foto nas redes. Vieram centenas de outros, com recados como "I voted for you" e "Por usted". O gesto se repetiu em Minneapolis, nos memoriais de Renee Good e Alex Pretti, também mortos por agentes federais de imigração.

Os dados preliminares indicam que a vantagem democrata entre latinos saltou de 5 pontos em 2024 para mais de 20. Mas é bom não romantizar: em pesquisa da UnidosUS com 3.014 eleitores latinos, o custo de vida liderou as preocupações, citado por 58% dos entrevistados. A indignação com o ICE se somou ao bolso, sem substituí-lo.

Das urnas à Geórgia

A participação também pesou. Num país de voto facultativo, e numa eleição que acontece terça-feira, cerca de 124,3 milhões de pessoas votaram, pela estimativa preliminar de Michael McDonald, da Universidade da Flórida. São 49,42% dos aptos. Mais de três pontos acima de 2022 e pouco abaixo do recorde de 2018.

E os eleitos têm outra cara. Deb Haaland, no Novo México, é a primeira indígena eleita governadora; Peggy Flanagan, em Minnesota, a primeira indígena no Senado. Michigan elegeu o primeiro senador muçulmano e New Hampshire, o primeiro senador abertamente gay. Cinco governadores negros foram eleitos, entre eles um republicano, Byron Donalds, na Flórida.

O caso mais saboroso é o da Geórgia. Estado de passado escravocrata e segregação resistente, onde o voto negro só ganhou proteção federal efetiva com a Lei dos Direitos de Voto, de 1965, teve 83 governadores, todos homens brancos. Keisha Lance Bottoms será a primeira mulher negra eleita governadora em toda a história dos Estados Unidos. Venceu um bilionário que gastou mais de US$ 200 milhões do próprio bolso e prometia ser o governador favorito de Trump.

A Geórgia tem uma canção para o momento. "Georgia on My Mind" foi composta em 1930 por Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell, mas é de Ray Charles, nascido em Albany, no sudoeste do estado, a gravação de 1960 que todos conhecem. Em março de 1961, ele cancelou um show em Augusta ao saber que a plateia seria segregada e acabou multado por quebra de contrato. Só em 1979 a Geórgia lhe pediu desculpas formais e adotou sua versão como canção oficial. Foram mais 47 anos até a eleição de terça.

A geração que não encontrou a escada

Os jovens fecham a conta. Eles não foram a faixa que mais compareceu: os eleitores de 18 a 29 anos representaram cerca de 11% dos votos, e a estimativa de participação do centro CIRCLE, da Universidade Tufts, ainda está por sair. Foram, porém, os que mais mudaram. Pela boca de urna preliminar, passaram de 54% a 43% para os democratas em 2024 para cerca de 72% a 25% agora. Entre os homens jovens, o voto republicano caiu de 49% para 32%.

É a geração que entra num mercado de trabalho fechado e percebe que dificilmente terá o que os pais tiveram. Os economistas David Blanchflower e Alex Bryson documentaram o aumento do desespero entre jovens trabalhadores americanos. A taxa de suicídio dos adultos da Geração Z superou a da geração anterior na mesma idade, segundo levantamento do Stateline com dados federais. Na pesquisa de Harvard, 91% dos jovens registrados citaram o custo de vida como decisivo.

Não há como provar um elo direto entre esses números e o voto. Mas é razoável enxergar na urna mais um sintoma da mesma frustração.

Fica o aviso aos vencedores. Em 2024, a inflação ajudou a devolver Trump à Casa Branca e tirou os democratas de lá. O voto de castigo não tem fidelidade partidária, e o eleitor que mandou o recado na terça-feira continua pagando o diesel.

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