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Análise Exclusiva Marcelo Favalli

O velho manual do medo: Trump, a França e a busca por culpados às vésperas das midterms

Publicado 20/10/2026 • 10:15 | Atualizado há 1 hora

Foto de Marcelo Favalli

Marcelo Favalli

Marcelo Favalli além de jornalista é Mestre em Relações Internacionais pela PUC e professor nos cursos de pós-graduação de Política Contemporânea, da FAAP e do MBA em Comunicação e Política da USP. Dos 27 anos de profissão, na imprensa, dedicou 18 deles à cobertura estrangeira. Foi correspondente na América Latina e no Estados Unidos.

Montagem

A duas semanas das eleições legislativas americanas, Donald Trump decidiu falar de Paris. Os protestos que atingem a França nos últimos dias ganharam do presidente uma leitura própria. Segundo ele, Emmanuel Macron teria sido avisado de que a política migratória era um erro, e “Paris vai se tornar uma cidade muçulmana muito em breve”. A declaração chega em um momento delicado para a Casa Branca, e não por acaso.

A primeira premissa: um presidente em queda

Os números são pouco animadores para os republicanos. Pela pesquisa Reuters/Ipsos divulgada nesta segunda-feira, apenas cerca de 31% dos americanos aprovam o desempenho de Trump, o menor índice já registrado em seus dois mandatos. Na pergunta sobre o voto para o Congresso, os democratas aparecem com 47% contra 35% dos republicanos, a maior vantagem do ciclo eleitoral. O desgaste do eleitor é reflexo da alta do custo de vida e à impopularidade da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. 

A história eleitoral americana não oferece consolo. Desde 1946, existe a tendência do partido do presidente perder cadeiras na Câmara, nas eleições de meio de mandato. E mais: presidentes com aprovação abaixo de 50% costumam arrastar seus partidos para resultados ruins. Com uma maioria de 218 a 214 na Câmara e 53 a 47 no Senado, a margem republicana é estreita demais para absorver o tombo.

A segunda premissa: a crise alheia como argumento de campanha

O detalhe mais revelador do episódio francês é sua origem. As manifestações começaram como reação à inflação elevada, ou seja, o mesmo problema que corrói a popularidade de Trump nos Estados Unidos. A Casa Branca, porém, preferiu outra leitura. O vice-presidente JD Vance afirmou que liberais ocidentais “importaram o terceiro mundo” para a França, e comentaristas conservadores atribuíram a crise à imigração de países de maioria muçulmana. Um pesquisador do German Marshall Fund resumiu a operação: a crise francesa está sendo convertida em argumento eleitoral. 

O cálculo tem lógica. Segundo o Pew Research Center, a economia pesa na decisão de 82% dos eleitores americanos, contra 59% da imigração. Quando o terreno principal é desfavorável, desloca-se a disputa para o terreno em que se joga melhor.

O que a Ciência Política explica

Três chaves teóricas ajudam a entender o movimento. A primeira é a teoria da securitização, da Escola de Copenhague de 1998: um tema se torna “questão de segurança” quando um ator político o apresenta como ameaça existencial, e o público aceita essa moldura. A imigração deixa de ser assunto de política pública e passa a ser questão de sobrevivência nacional, o que dispensa debate sobre preços, tarifas ou guerra.

A segunda é a definição de 2007 sobre o populismo de direita radical, de Cas Mudde. O centista político holandês combina as definições entre “povo puro” e “elite corrupta” com o nativismo: a ideia de que elementos estrangeiros ameaçam a nação homogênea. A fala de Vance encaixa as duas peças: a elite liberal é culpada por ter “importado” o estrangeiro.

A terceira é o mecanismo do bode expiatório, descrito por René Girard e, antes dele, pela hipótese da frustração-agressão formulada em 1939 pela Universidade de Yale: em momentos de crise, a frustração coletiva tende a ser descarregada sobre um grupo vulnerável, que é mais fácil de atingir do que as causas reais do problema.

A história como precedente

Esta lógica tem longa linhagem. Em 64 d.C., segundo o históriador Tácito, Nero atribuiu aos cristãos o grande incêndio de Roma. Durante a Peste Negra, comunidades judaicas foram acusadas de envenenar poços, e em Estrasburgo cerca de dois mil judeus foram queimados vivos em 14 de fevereiro de 1349, antes mesmo de a peste chegar à cidade. Um cronista da época anotou que as dívidas com os judeus foram canceladas e seu dinheiro, dividido entre os trabalhadores: o medo tinha também uma contabilidade.

Nos próprios Estados Unidos, os exemplos sobram. A Lei de Exclusão Chinesa, de 1882, foi a única grande lei de imigração americana dirigida a um único grupo étnico, alimentada pelo temor de trabalhadores americanos de perderem empregos para a mão de obra chinesa “barata”. Na Grande Depressão, entre 400 mil e 1 milhão de mexicanos e americanos de origem mexicana foram deportados ou “repatriados”, e estima-se que 60% deles eram cidadãos dos EUA. Economistas que estudaram o episódio concluíram que as expulsões não melhoraram as economias locais. Na Alemanha de Weimar, a “lenda da punhalada pelas costas” culpou judeus pela derrota de 1918 e pela ruína econômica, com o desfecho conhecido.

Conclusão

O padrão se repete: uma crise econômica real, um governo incapaz de resolvê-la e um estrangeiro disponível para levar a culpa. Trump não inventou o método; apenas o atualizou para a era das redes sociais e o exportou para o outro lado do Atlântico. A diferença é que, desta vez, o próprio caso escolhido como prova expõe o truque: os franceses saíram às ruas contra a inflação, não contra imigrantes.

Resta saber se o medo ainda converte. Especialistas duvidam. O discurso pode mobilizar a base republicana, mas dificilmente conquistará votos novos. Em 3 de novembro, o eleitor americano dirá se teme mais os imigrantes de Paris ou o preço do supermercado em Ohio.

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