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Seis meses de guerra no Irã: o tiro que saiu pela culatra
Publicado 01/09/2026 • 13:21 | Atualizado há 57 minutos
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Publicado 01/09/2026 • 13:21 | Atualizado há 57 minutos
Foto: AFP
Em 24 de fevereiro, no discurso do Estado da União, Donald Trump exibiu um número do qual se orgulhava, na época: gasolina a US$ 2,92 o galão. Naquele dia, o Brent fechou a US$ 70,77. Quatro dias depois começava a Operação Epic Fury. Os dois números viraram história. Nesta semana, a cotação de referância para o mercado global de combustível voltou a superar US$ 91.
O relatório semanal do Banco Pine, divulgado na segunda-feira, 1 de setembro, condensa seis meses de guerra em um diagnóstico incômodo: os Estados Unidos obtiveram vitórias militares relevantes que não se converteram em resultado estratégico equivalente. Afundaram dezenas de embarcações iranianas, derrubaram boa parte da defesa antiaérea, atingiram instalações nucleares e de mísseis. E continuam sem o que foram buscar.
O Irã, por sua vez, transferiu a disputa para o terreno em que é mais forte: a geografia. O gráfico do Pine sobre o tráfego comercial no Estreito de Ormuz é a imagem mais eloquente desta guerra. Até fevereiro, entre 100 e 145 navios por dia atravessavam esta que é uma das principais rotas para escoamento de comodities. De março em diante, o fluxo da marinha mercante encolheu para números de um dígito. Em tempos normais, por ali passa um quinto do petróleo do mundo.
O resto é matemática básica. O Brent chegou perto de US$ 120 em março, o maior nível desde 2008. O FMI, que em janeiro projetava crescimento global de 3,3% para 2026, hoje trabalha com 3,0%. A inflação global, que seria de 3,8%, virou 4,7%. Kristalina Georgieva, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional foi direta: sem o choque provocado pela guerra no Oriente Médio, o FMI estaria revisando o crescimento global para cima. Bancos centrais que planejavam cortar juros pararam de fazê-lo. O próprio Banco Pine projeta a taxa de juros estipulada pelo Fed em 4% no fim deste ano e 4,75% em 2027. Não é ciclo de afrouxamento. É o contrário.
Parafraseando o ditador popular, o tiro saiu pela culatra. E aqui entra a culatra. Os Estados Unidos são exportadores líquidos de energia e, em tese, deveriam ganhar com petróleo caro. Ganharam nas contas externas e perderam na única estatística que decide a eleição. A gasolina bateu US$ 4,39 o galão no fim de maio, alta de mais de 47% desde o início de março. Mark Zandi, da Moody's, calcula que a guerra custa mais de US$ 1.200 ao domicílio americano médio. A conta militar tem o mesmo peso no orçamento federal. Pete Hegseth, secretário de Guerra, informou ao Senado, em 21 de julho, que a ofensiva militar contra o Irã já tinha custado US$ 37,5 bilhões, incluídas despesas previstas até 30 de setembro. A CNBC apurou que a estimativa interna do Pentágono, somando reposição de munição e reconstrução de bases, fica entre US$ 80 bilhões e US$ 100 bilhões neste mesmo período. O think tank Center for Strategic and International Studies estima que a campanha consumiu cerca de metade dos interceptadores Patriot e THAAD disponíveis e 30% dos mísseis Tomahawk. Baterias antiaéreas foram retiradas da Coreia do Sul e transferidas para o Golfo.
Em 24 de agosto, o Tesouro americano lançou a Operação Economic Outcast, medida qual o secretário do Tesouro Scott Bessent apresentou como um "Dia D Econômico", com cerca de 60 determinações para asfixiar o que resta das exportações iranianas. É a admissão implícita de que a campanha militar não entregou o desfecho planejado Neste ponto a análise econômica encontra a teoria. O que se vê aos seis meses não é falha de inteligência. É decisão equivocada.
O Wall Street Journal revelou na semana passada que, dias antes de 28 de fevereiro, a então diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, avisou Trump no Salão Oval exatamente do que aconteceria: o Irã correria para fechar Ormuz, desestabilizaria o mercado global de energia, atacaria parceiros americanos na região e emergiria com um regime mais duro e mais interessado na bomba. O Estado-Maior alertou sobre baixas e sobre a queima de estoques de munição. Outro centro de estudos, o Council on Foreign Relations, publicou um relatório apontando que a Casa Branca calculava de quatro a seis semanas para vencer, isto há seis meses. Ou seja: o risco foi corretamente identificado e descartado. A estrategista política e escritora americana especializada em economia mundial Michele Wucker classificou a retaliação iraniana como "óbvia, provável e de alto impacto que se opta por não enxergar". Ouro autor que se recorre para prever movimentos políticos em tempos de crise, Geoffrey Blainey, escreveu que guerras começam quando os dois lados discordam sobre quem é mais forte e terminam quando passam a concordar. O economosta Thomas Schelling completa o raciocínio: dissuadir alguém de agir é bem mais barato do que obrigá-lo a recuar depois. Washington trocou uma coisa pela outra e está descobrindo o preço.
Nada disso significa que Teerã esteja ganhando. O FMI projeta contração de 6,1% da economia iraniana em 2026, com hiperinflação e escassez de combustível. A assimetria é outra: o Irã sempre esteve disposto a pagar em economia doméstica. Para Donald Trump pesa a credibilidade de dissuasão às vésperas de uma eleição legislativa que pode restringir seu segundo – e último - mandato. Em 7 de agosto, Arábia Saudita, Paquistão e Turquia assinaram um pacto de defesa mútua com cláusula ao estilo do Artigo 5º da Otan, aquele que exige a resposta conjunta quando um dos integrantes é militarmente atacado. Aliados que se armam entre si costumam estar dizendo alguma coisa sobre aquele que antes era garantidor da segurança.
Para o Brasil, o choque chega com dois sinais. A Fazenda elevou a projeção de IPCA de 2026 de 3,7% para 4,5%, o teto da meta. Voltando ao relatório do Banco Pine, a instituição trabalha com 5,1% e Selic a 13,25% no fim do ano. Do outro lado, o país é exportador líquido de petróleo, e a própria Secretaria de Política Econômica reconhece que a arrecadação extra do choque supera o custo fiscal das desonerações de combustíveis.
O relatório do Pine encerra com o paralelo mais desconfortável de todos: a guerra da Ucrânia entra no quinto ano sem desfecho. Nos dois casos, nem avanço militar nem sanção econômica produziram resultado político rápido. É uma lição cara. E está sendo aprendida duas vezes.
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