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Análise Exclusiva Marcelo Favalli

Lula, Trump e Putin provam que a China é o centro gravitacional do século XXI

Publicado 20/05/2026 • 12:04 | Atualizado há 13 minutos

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Marcelo Favalli

Marcelo Favalli além de jornalista é Mestre em Relações Internacionais pela PUC e professor nos cursos de pós-graduação de Política Contemporânea, da FAAP e do MBA em Comunicação e Política da USP. Dos 27 anos de profissão, na imprensa, dedicou 18 deles à cobertura estrangeira. Foi correspondente na América Latina e no Estados Unidos.

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Bandeira da China.

Em vinte e um dias, três cúpulas presidenciais redesenharam o mapa do poder global. Em todas as reuniões a China foi o personagem decisivo, mesmo quando o presidente Xi Jinping não esteve presente.

Vladimir Putin desembarcou em Pequim na segunda-feira, 18 de maio, para o que se tornou, nesta quarta-feira, 20, o ponto de chegada mais simbólico de um ciclo diplomático que merece leitura atenta. Em pouco mais de três semanas, três cúpulas presidenciais — Lula e Trump em Washington, Trump e Xi em Pequim, e agora Putin e Xi também na capital chinesa — ofereceram, em sequência, um diagnóstico do tabuleiro geopolítico contemporâneo. Em todas as três reuniões, mesmo quando não era a anfitriã, a China foi o eixo gravitacional. Quando estava ausente, era para impedir que tivesse poder demais. Quando estava presente, era para confirmar que está em todo lugar.

O gasoduto que fecha o flanco oriental

A visita de Putin a Xi terminou, nesta quarta-feira, com um saldo difícil de ignorar. Foram mais de 40 acordos de cooperação assinados em comércio, tecnologia e energia, e um avanço político decisivo no projeto Power of Siberia 2 — o gasoduto de 2.600 quilômetros, com capacidade para transportar 50 bilhões de metros cúbicos de gás por ano dos campos de Yamal, na Rússia, até a China, passando pela Mongólia. O memorando legalmente vinculante já havia sido assinado em setembro de 2025, em Tianjin, mas a definição de preços, prazos e financiamento foi destravada nesta semana em Pequim.

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Os dados mostram por que o encontro importa para muito além do bilateral. As exportações de petróleo russo para a China cresceram 35% no primeiro trimestre de 2026, segundo a presidência russa. O comércio bilateral atingiu cerca de US$ 228 bilhões em 2025. Em discurso ao lado de Putin, Xi Jinping classificou a cooperação energética como um dos "pilares estabilizadores" da relação e prometeu acelerar a integração em inteligência artificial e economia digital.

A leitura geopolítica precisa ser feita por escalas. Para Moscou, o gasoduto compensa o colapso das exportações para a Europa após 2022. Para Pequim, faz algo mais sutil: oferece à China uma alternativa terrestre ao gás transportado pelo Estreito de Ormuz, hidrovia que normalmente movimenta cerca de um quinto das remessas globais de petróleo e que segue parcialmente comprometida desde a guerra entre EUA-Israel e Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026. Em outras palavras: a China troca, em parte, uma vulnerabilidade marítima por uma codependência energética com Moscou. É um cálculo, não uma capitulação. Mas é um cálculo estratégico — e revela que Pequim opera com horizontes de décadas, não de manchetes.

A mensagem é claramente a de que a China mantém amizade e parceria estratégica com qualquer potência que escolher, e os Estados Unidos são apenas uma delas.

Pequim por Trump: aviões, chips e a fatura do Estreito

Cinco dias antes do desembarque de Putin, era Donald Trump quem chegava a Pequim, acompanhado de uma delegação empresarial que incluía Jensen Huang (Nvidia), Tim Cook (Apple), Elon Musk (Tesla), Kelly Ortberg (Boeing) e Cristiano Amon (Qualcomm). A reunião com Xi Jinping, realizada entre 13 e 15 de maio, produziu anúncios comerciais de até US$ 250 bilhões — alguns inéditos, vários antigos; requentados para a ocasião.

Os números relevantes: a Boeing fechou pedidos e compromissos no valor de US$ 37 bilhões por 200 aeronaves, incluindo os modelos 737, 787 e 777. A Qualcomm assinou acordos não vinculantes de US$ 12 bilhões em chips para as empresas de celular Xiaomi, Oppo e Vivo. Os contratos vigorarão por três anos. A GE Aerospace voltou aos EUA com um pedido de US$ 3,5 bilhões. E a Nvidia recebeu autorização de Washington para vender o chip H200 — o segundo mais avançado de seu portfólio — a cerca de dez empresas chinesas, abrindo uma fresta na barreira de restrições tecnológicas que o próprio governo americano havia erguido nos anos anteriores.

O capítulo mais revelador, contudo, veio no voo de volta. Trump declarou à imprensa que Xi havia "concordado" que o Irã deve reabrir o Estreito de Ormuz. Pequim não confirmou. Quando pressionado por jornalistas sobre se a China havia se comprometido a pressionar Teerã, Trump respondeu, em frase que merece grifo: "Não estou pedindo favores, porque quando você pede favores, você tem que retribuir." O americano insinuou ainda que poderia suspender sanções contra empresas petrolíferas chinesas que compram petróleo iraniano. A diplomacia, aqui, opera como uma planilha de troca.

Washington por Lula: as terras raras e a outra ponta do mesmo nó

Recuemos uma semana. Em 7 de maio, Lula havia sido recebido por Trump na Casa Branca. O encontro foi precedido, na véspera, pela aprovação na Câmara dos Deputados do marco regulatório das terras raras — projeto de relatoria do deputado Arnaldo Jardim que limita a exportação de material bruto, cria incentivos fiscais ao beneficiamento em território nacional e autoriza o governo a barrar operações que comprometam a soberania econômica.

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O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com cerca de 20% a 23% dos recursos globais conhecidos. A China, primeira colocada, controla aproximadamente 60% da extração e quase 90% do refino. Para Washington, o Brasil é a peça que falta no esforço de reduzir essa dependência. O movimento mais concreto até aqui foi a aquisição da mineradora Serra Verde, em Minaçu (GO), pela americana USA Rare Earth por cerca de US$ 2,8 bilhões — operação que contou com aporte de US$ 565 milhões da International Development Finance Corporation (DFC), a agência de fomento americana, e que faz parte do Project Vault, iniciativa de US$ 12 bilhões para securitizar estoques estratégicos de defesa.

Lula chegou à reunião defendendo parcerias "com soberania" e, dias depois, em Campinas, soltou a frase que sintetiza a sua posição: gostaria que Trump "deixasse os conflitos com a China de lado" para investir no Brasil. A diplomacia brasileira, ao mesmo tempo, manteve sua posição histórica de defesa da livre navegação no Estreito de Ormuz e de rejeição a escaladas militares — mas o subtexto da reunião, segundo apurou parte da imprensa, incluiu também a tentativa americana de pressionar Brasília, na condição de membro fundador do Brics e parceiro do Irã, a contribuir para a reabertura plena da hidrovia.

Todos os caminhos passam por Pequim

Três encontros. Três pautas distintas. Um único centro gravitacional. Em Washington, Brasil e EUA conversavam sobre como reduzir a dependência da China em terras raras. Em Pequim, EUA e China negociavam aeronaves, chips e a chave do Estreito de Ormuz — chave que, hoje, o Irã segura, mas que vários analistas suspeitam que Pequim seja capaz de influenciar. E também em Pequim, dias depois, Rússia e China selavam o gasoduto que, no longo prazo, blinda parte da equação energética chinesa contra eventuais novos bloqueios em Ormuz.

A coreografia desses 21 dias permite uma síntese austera: a China não precisa estar à mesa para definir o que se discute na mesa. Quando o Brasil negocia com os EUA, é o peso chinês que dita a urgência do americano. Quando os EUA negociam com a China, é a parceria sino-russa que esvazia a margem de chantagem de Washington. E quando a Rússia negocia com a China, é o cenário de Ormuz — operado pelo Irã, aliado de ambas — que torna o gasoduto não apenas um negócio, mas uma apólice de seguro estratégica.

No século XX, dizia-se que todas as estradas levavam a Washington. No século XXI, basta acompanhar a agenda diplomática de três semanas para concluir que, agora, todas elas — vindas de Brasília, de Washington ou de Moscou — passam, mais cedo ou mais tarde, por Pequim.

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