CNBC
Chips

CNBCIntel sobe 9% após Trump dizer que empresa fará parceria com a Apple no design de chips nos EUA

Análise Exclusiva Marcelo Favalli

O bombeiro que ateou o fogo: Trump e a paz que ele mesmo precisava

Publicado 17/06/2026 • 21:45 | Atualizado há 2 horas

Foto de Marcelo Favalli

Marcelo Favalli

Marcelo Favalli além de jornalista é Mestre em Relações Internacionais pela PUC e professor nos cursos de pós-graduação de Política Contemporânea, da FAAP e do MBA em Comunicação e Política da USP. Dos 27 anos de profissão, na imprensa, dedicou 18 deles à cobertura estrangeira. Foi correspondente na América Latina e no Estados Unidos.

O que muda para empresas como OpenAI, Google e Anthropic com o novo decreto de Trump?

Foto: Wikimedia Commons

Donald Trump encerrou nesta quarta-feira, 17, a participação dos Estados Unidos na cúpula do G7, nos alpes franceses de Evian-les-Bains, com um recado que beirou a confissão. Defendendo o entendimento alcançado com o Irã, o presidente americano disse não ter querido provocar "uma catástrofe econômica". E foi além na escolha da referência histórica: afirmou que não pretendia se tornar "o falecido e grande Herbert Hoover" — o ocupante da Casa Branca durante a quebra da Bolsa de 1929 que iniciou a Grande Depressão. "Se mantivéssemos isto andando (a guerra contra o Irã), aquilo poderia acontecer (uma nova crise econômica global sem precedentes)", explicou Trump sobre a guerra que ele próprio encabeça desde 28 de fevereiro.

É um enquadramento curioso. Trump apresenta como triunfo diplomático a solução de um problema que ele mesmo criou. O bombeiro chega com a mangueira, mas foi ele quem acendeu o fósforo.

A conta que o mercado já fazia

O detalhe que torna a fala reveladora é o que veio na sequência. Pressionado por repórteres, Trump admitiu que manter o conflito custa muito caro. "Se continuássemos bombardeando... você está falando de US$ 500, US$ 600, US$ 700 milhões por dia", disse, sugerindo que os próprios Estados Unidos ficariam sem munição se a campanha se arrastasse. E, num gesto típico, transferiu o veredito ao mercado: toda vez que se falava em paz a Bolsa "disparava como um foguete".

Aí está o ponto que interessa ao leitor de economia. A guerra que começou em fevereiro empurrou o Brent — de pouco mais de US$ 70 — para acima de US$ 113 no auge da guerra, em março, quando o bloqueio do Estreito de Ormuz chegou a estrangular cerca de um quinto do fluxo global de petróleo e gás. A cotação em queda do barril, que agora celebra a paz, é o mesmo que castigou consumidores e bancos centrais por mais de três meses. Nesta quarta-feira, o óleo negociado na Bolsa de Londres recuava para perto de US$ 78 — o menor patamar desde o início de março, em queda de quase 40% ante o pico do conflito.

O memorando de entendimento, que deve ser assinado na sexta-feira e abre uma janela de 60 dias para negociar os termos finais, prevê a liberação total de Ormuz e a retomada imediata das exportações iranianas. E aqui, entra uma das exigências americanas que mais pesará no capital político de Trump: o Tesouro americano emitiria licenças para o petróleo e os petroquímicos de Teerã assim que o documento for firmado. Há mais de cem navios carregados represados no Golfo aguardando o sinal verde. A Agência Internacional de Energia já alerta para o risco oposto ao de meses atrás: não a escassez, mas um novo excesso de oferta global.

O alívio que chega ao Brasil

Para a economia brasileira, o fim do conflito desfaz justamente o nó que mais incomodava o Banco Central. A guerra desancorou as expectativas de inflação: antes dela, o mercado projetava um IPCA de cerca de 3,95% para 2026; com o petróleo em alta e a cascata sobre combustíveis e alimentos, o Boletim Focus chegou a trabalhar com algo perto de 4,9%, acima do teto da meta. O Copom, que em abril cortou a Selic para 14,5% no primeiro alívio em quase dois anos, passou a pisar no freio.

Gabriel Galípolo foi explícito ao dizer que a postura mais conservadora buscava tempo para separar o que era choque de oferta — o "casamento" entre o petróleo caro e o Super El Niño — do que poderia contaminar os preços de forma persistente.

Com o barril em queda, esse choque tende a se dissipar. É a diferença entre uma inflação importada que se entranha e uma que recua. Para o Brasil, exportador líquido de petróleo, o conflito sempre teve dois lados — a Petrobras lucrava na exportação enquanto o país importava diesel e, sobretudo, incerteza. O fim das hostilidades não devolve a Selic para baixo dos dois dígitos da noite para o dia, mas devolve ao Copom algo que faltava: visibilidade.

O ponto de interrogação

Resta a ressalva que o próprio Trump fez questão de deixar no ar. Questionado se o memorando era definitivo, respondeu que não — e que, se não gostar do texto final, "voltaremos a atirar neles, a jogar bombas em suas cabeças". A frase recoloca sobre a mesa toda a fragilidade do arranjo: um cessar-fogo de 60 dias amarrado à boa vontade de um negociador que já rasgou um acordo nuclear no passado e que define "paz" pela cotação da Bolsa.

Os armadores e as seguradoras, aliás, ainda não embarcaram no otimismo: reabrir Ormuz no papel não significa normalizar o tráfego, e o prêmio de risco sobre o seguro de guerra não desaparece com um aperto de mãos em Genebra. O mercado comemora, mas com um olho na assinatura de sexta-feira e outro na próxima publicação no Truth Social.

Talvez a paz saia. Talvez não. O que ficou claro em Evian é que, depois de meses defendendo a força como método, Trump descobriu que o adversário mais difícil de domar não era Teerã — era a conta.

Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no

MAIS EM Marcelo Favalli