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Quando a guerra revela o erro de cálculo: o Irã que os EUA não esperavam
Publicado 11/06/2026 • 13:08 | Atualizado há 3 horas
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Publicado 11/06/2026 • 13:08 | Atualizado há 3 horas
Freepik
Bandeiras do Irã e dos Estados Unidos
"Ataque muito forte esta noite." A ameaça publicada por Donald Trump nesta quinta-feira, 11, soaria como o último capítulo da guerra caso não fosse a quarta promessa do gênero desde que o confronto começou, em 28 de fevereiro. Do outro lado, Teerã inovou ao responder: incluiu as empresas de Elon Musk no Oriente Médio na lista de alvos militares; em especial uma estação terrestre da Starlink.
O Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, voltou a ser declarado fechado pelo Irã — versão que o Comando Central americano contesta. Ainda assim, a publicação da imprensa estatal iraniana bastou para para manter o Brent rondando os 94 dólares. Embora a cotação do petróleo permaneça abaixo dos 100 dólares, a commodity subiu mais de 50% desde o início do conflito.
>> Leia mais da coluna de Marcelo Favalli
O que nos ajuda a entender estes três meses e meio da Operação "Epic Fury" é a teoria a partir destas premissa: os Estados Unidos entraram em uma guerra contra um inimigo mais forte do que imaginavam? O erro tem nome — e bibliografia. A resposta mais direta vem do historiador australiano Geoffrey Blainey. Em "The Causes of War", de 1973, ele sustenta que as guerras começam quando dois lados discordam sobre a distribuição real de poder entre os envolvidos.Se ambos soubessem com precisão quem venceria - e a que custo -, fariam o acordo antes do primeiro tiro. A guerra, nessa leitura, é o método mais caro que existe de corrigir uma estimativa errada. Washington apostou que algumas semanas de bombardeio arrasariam Teerã. O Irã, por sua vez, apostou na capacidade de fechar Ormuz, mesmo que o bloqueio causasse enormes prejuízos internos. O desenrolar dos fatos mostrou que o governo iraniano encarou absorver as perdas mais do que o Pentágono calculava. O preço do barril sugere quem errou nas previsões.
Robert Jervis, no livro "Perception and Misperception in International Politics", de 1976, refinou o diagnóstico: líderes tendem a superestimar a própria força, subestimar a determinação do adversário e interpretar sinais ambíguos da forma que confirma o plano já decidido. O Irã avisou que incendiaria qualquer navio no estreito. O aviso foi lido como retórica. Os Estados Unidos viram, na prática, a audácia do inimigo.
Há ainda a camada psicológica. Daniel Kahneman, Nobel de Economia, escreveu com Jonathan Renshon o ensaio "Why Hawks Win" ("Foreign Policy", 2007): nos gabinetes de crise, os vieses cognitivos — excesso de confiança, ilusão de controle, aversão a aceitar perdas — favorecem sistematicamente os falcões. Dominic Johnson, em "Overconfidence and War" (Harvard, 2004), chama isso de "ilusões positivas": a convicção de que a vitória será rápida porque precisa ser rápida. Trump prometeu quatro ou cinco semanas de conflito. Estamos na décima quinta.
As explicações ainda ecoam no tempo. No século quinto antes de Cristo, o estrategista Sun Tzu cravou: quem não conhece o inimigo nem a si mesmo perderá todas as batalhas. Carl Von Clausewitz - patrono dos estudos contemporâneos da Guerra - alertava, já no século XIX que nenhum estadista deveria iniciar uma guerra sem clareza sobre o que pretende alcançar com ela — e a "névoa" do combate se encarrega de embaralhar até os planos claros. Barbara Tuchman, em "A Marcha da Insensatez", clássico de 1984, documentou o padrão: governos que persistem em políticas contrárias ao próprio interesse mesmo diante das evidências, de Troia ao Vietnã.
É nesse ponto que entra o editorial da The Economist desta semana. A revista — que já havia estampado Trump de capacete sobre os olhos sob o título "Operation Blind Fury" — argumenta que a guerra custou caro aos EUA e que restam apenas opções ruins: conversar, sair, continuar ou escalar. A menos ruim, diz o texto, é um acordo improvisado: reabertura do estreito em troca de um cessar-fogo prolongado, sem qualquer ilusão de recuperar o status quo anterior — muito menos os termos do acordo nuclear de 2015, que o próprio Trump rasgou.
O detalhe incômodo: negociar exige convencer Teerã de que um acordo o deixará mais seguro do que antes da guerra. Ou seja, exige concessões americanas — descongelamento de ativos e alívio de sanções. Para um presidente que vendeu a guerra como demonstração de força, admitir que a saída passa por dar algo ao adversário é a confissão tácita do erro de cálculo original.
Para a economia brasileira, o erro alheio cobra pedágio: petróleo acima de US$ 90 pressiona a inflação global, adia cortes de juros do Fed e mantém o câmbio tenso. A Petrobras lucra na exportação, mas o país importa diesel — e importa - sobretudo - a incerteza.
Parafraseando, outra vez, o australiano Geoffrey Blainey: "as guerras terminam quando os dois lados finalmente concordam sobre quem é mais forte". A julgar pelas ameaças desta quinta-feira, Estados Unidos e Irã ainda não chegaram a esse consenso. Até lá, o mundo paga para assistir a correção da conta.
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