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Três meses de guerra no Irã: a vitória que escapa de Trump e a vantagem silenciosa de Pequim
Publicado 28/05/2026 • 11:54 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 28/05/2026 • 11:54 | Atualizado há 2 meses
KEY POINTS
Foto: Majid Asgaripour/WANA/Reuters.
Há exatamente três meses, em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel desencadearam a Operação “Epic Fury” contra a República Islâmica do Irã. As primeiras ondas de bombardeios cumpriram quase tudo o plano militar de Washington: consumiram o estoque de mísseis balísticos iranianos, afundaram boa parte da Marinha de Teerã e mataram líderes do alto escalão do regime. Donald Trump venceu, no plano tático, praticamente todas as batalhas. No entanto, ao completar 90 dias de cerco, a pergunta que fica não é mais se os Estados Unidos venceram os combates — mas se Trump está perdendo a guerra.
Nas palavras de Aaron David Miller, ex-negociador para o Oriente Médio sob administrações tanto republicanas quanto democratas, a recente operação militar contra o Irã seria "um passeio de curto prazo". Porém, o cenário sugere "um fracasso estratégico de longo prazo" porque o maior beneficiário desse desfecho talvez não esteja no Golfo Pérsico, nem em Jerusalém ou Washington — mas a milhares de quilômetros de distância, em Pequim. Vale o registro: a China que não disparou um único tiro.
O problema de Trump não é militar. É de definição de vitória. O presidente americano entrou na guerra com três objetivos declarados: enterrar a ambição iraniana à bomba atômica, acabar com a capacidade de Teerã de ameaçar a região e interferir nos interesses dos Estados Unidos, e facilitar a derrubada do regime teocrático pelos próprios iranianos. Três meses depois, nenhum destas metas foi alcançada.
O caso mais emblemático é o nuclear. O estoque iraniano de urânio enriquecido a 60% — estimado em cerca de 440 kg, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica — segue, ao que tudo indica, soterrado e intacto sob as instalações atingidas. Este material está bem abaixo dos 90% necessários para uso bélico, mas relativamente próximo ao estágio de potência para aplicação militar. E o novo líder supremo, o aiatolá Mojtaba Khamenei — sucessor de seu pai, morto no início do conflito —, emitiu uma diretriz explícita: o urânio enriquecido não deve deixar o território iraniano.
A determinação coloca Trump em uma armadilha narrativa. O presidente afirmou publicamente que o Irã "concordou com tudo" e entregaria seu estoque nuclear. Israel, segundo fontes ouvidas pela Reuters, recebeu garantias de que o material seria removido como condição de qualquer acordo. A realidade do terreno contradiz ambos. Pior: existe a possibilidade da guerra tornar o Irã mais — e não menos — propenso a buscar a bomba, uma vez que ogivas atômicas servem de elemento de persuasão, blindando os Estados contra futuros ataques. Um exemplo contemporâneo é a Coreia do Norte.
Há ainda o constrangimento doméstico. Trump fez campanha prometendo não embarcar em intervenções militares desnecessárias e acabou arrastando os Estados Unidos para um atoleiro que já dura o dobro das seis semanas que ele próprio estipulara como prazo máximo. A guerra é impopular, os preços da gasolina pressionam o eleitorado às vésperas da eleição de meio de mandato, em novembro. As rachaduras começaram a aparecer no apoio - antes, quase unânime - dos parlamentares republicanos. O presidente reagiu como de costume: atacando a imprensa. Aliados que passaram a discordar da Casa Branca passaram a ser chamados de "traidores".
Se o Irã foi esmagado militarmente, usou a geografia como sua mais poderosa retaliação. Ao fechar o Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural liquefeito do mundo, Teerã colocou em prática o que sabia na teoria: que pode estrangular a economia global a um custo próprio surpreendentemente baixo.
Jonathan Panikoff, ex-vice-oficial de inteligência nacional para o Oriente Médio e hoje no Atlantic Council, resume o aprendizado iraniano: o regime descobriu que pode exercer essa alavancagem "com poucas consequências" para si mesmo. A leitura de Teerã, acrescenta, é que pode tolerar mais sofrimento econômico do que Trump, e simplesmente sobreviver a ele.
Os números do estreito traduzem o impasse. Desde o início da crise, ao menos 17 navios mercantes foram danificados, sete abandonados e dois capturados; um rebocador afundou. O bloqueio naval americano às portas iranianas — uma resposta de Trump ao fechamento de Hormuz — já passou da marca dos cem dias e tampouco dobrou a vontade de Teerã. As negociações mediadas por Omã chegaram a Maio em ritmo errático, com Washington e Teerã rejeitando alternadamente as propostas um do outro.
O episódio mais recente ilustra o nível de frustração. Nesta semana, a TV estatal iraniana divulgou o esboço de um suposto memorando que daria ao Irã e Omã o controle conjunto do tráfego pelo estreito. Trump reagiu de forma extraordinária mesmo para seus padrões: ameaçou um aliado de mais de dois séculos. "Ninguém vai controlá-lo. São águas internacionais, e Omã vai se comportar como todos os outros, ou teremos de explodi-los". O Departamento de Estado, em vez de corrigir o que parecia um lapso, confirmou que o presidente se referia mesmo a Omã. A mediação, assim, foi parar na mira da retórica de Washington.
Para quem acompanha os mercados, a guerra do Irã é, antes de tudo, um choque de oferta de energia — o primeiro de grande escala desde os anos 1970. O petróleo Brent, que orbitava os US$ 73 por barril antes dos ataques, disparou. Em diferentes momentos do conflito ultrapassou os US$ 100, US$ 110 e flertou com os US$ 120, em alta de cerca de 40% no mês de abertura das hostilidades. Bancos de investimento revisaram suas projeções repetidamente: o Goldman Sachs trabalha com cenários que vão de um pico de US$ 140 (interrupção de dez semanas) a US$ 160 (dez semanas mais dano à infraestrutura). Analistas alertam que, se Hormuz permanecer fechado, o barril pode saltar para US$ 150 com relativa rapidez.
O contágio é amplo e desigual:
Inflação. Estudos do CEPR (Centre for Economic Policy Research) estimam que o fechamento de Hormuz por um trimestre - seguido da lenta retomada gradual - levaria a um aumento de 0,6 ponto percentual na inflação anualizada dos Estados Unidos, em 2026. A União Europeia, mais exposta por sua dependência de gás importado, alertou que sua inflação pode ultrapassar 3%, este ano, devido a um reajuste de 0,4% a mais que o esperado. O preço do gás natural na Europa chegou a subir 39%, contra apenas 3,5% no mercado americano — uma assimetria que pune o euro e, paradoxalmente, fortalece o dólar no curto prazo.
Cadeias além do petróleo. O estreito não transporta apenas energia. Fertilizantes e ureia, insumos críticos do agronegócio, também passam por ali — o que ameaça pressionar os preços de alimentos mundo afora, num efeito de segunda ordem que tende a atingir com mais força os países importadores.
Mercados e crescimento. Wall Street oscilou conforme as ameaças de Trump, com semanas consecutivas de perdas nos principais índices. Kristalina Georgieva, do FMI, fez um alerta contundente: governos e bancos centrais têm, hoje, muito menos margem fiscal para amortecer um novo choque do que tinham em crises anteriores. O dólar, vale notar, vive um paradoxo: ganha força conjuntural — porque o petróleo caro obriga importadores a comprar dólares e porque a moeda é refúgio em momentos de incerteza —, ao mesmo tempo em que a crise corrói sua autoridade estrutural de longo prazo. É justamente nessa brecha que entra a China.
Para o brasileiro, a guerra chega em três ondas. E a equação não é simples. Há um ganho fiscal genuíno: como o Estado é o maior acionista da Petrobras, o Brent elevado engorda os lucros da estatal e, por consequência, os dividendos recebidos pela União — um alívio para as contas públicas. No horizonte mais longo, o país pode até se firmar como fornecedor confiável em um mundo fragmentado, apoiado em novas fronteiras como a Margem Equatorial. Mas os custos chegam primeiro e atingem o bolso de forma mais visível.
A primeira onda é o combustível. Como o petróleo é cotado em dólar, a Petrobras sofre pressão para repassar a alta — e estima-se que cada 1% de aumento na gasolina adicione cerca de 0,05 ponto percentual ao IPCA. A segunda é o diesel: com aproximadamente 80% das cargas brasileiras viajando por caminhões, o frete mais caro encarece em cascata desde o arroz e o feijão até bens industrializados. A terceira onda, mais silenciosa, atinge o agronegócio: o Brasil importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome, e o Oriente Médio é fornecedor-chave — em 2025, Irã e países da região concentraram cerca de 35% das importações brasileiras de ureia, 17% dos fosfatados e 10% do cloreto de potássio. O risco, alertam analistas, é que o encarecimento chegue à mesa do brasileiro já na safra 2026/27.
A isso somam-se o canal cambial — a fuga de capital para portos seguros fortalece o dólar e penaliza o real, num "duplo fardo" sobre o consumidor — e o dilema do Banco Central, pressionado a manter a Selic alta para conter a inflação importada. Modelos do BTG sugerem que um Brent sustentado em torno de US$ 80 acrescentaria 0,6 ponto à inflação de 2026, empurrando a projeção para perto de 4,7%, acima do teto da meta. O fantasma que ronda os economistas é o da estagflação — crescimento fraco com inflação persistente —, agravado pela sobreposição entre o choque de energia e o protecionismo tarifário americano. E, como tudo isso ocorre em ano eleitoral, ressurge a velha tentação de usar a Petrobras como amortecedor artificial de preços, com os riscos fiscais que gestões anteriores já demonstraram.
Aqui está o ângulo que melhor define o momento. A China não declarou guerra, não enviou tropas, não disparou um tiro. Fez algo mais sofisticado: orbitou a crise, mantendo-se a uma distância calculada — perto o suficiente para colher os ganhos, longe o suficiente para não pagar os custos. E saiu, segundo um coro crescente de analistas, como a potência mais beneficiada.
Os ganhos chineses se distribuem em quatro órbitas.
Primeira órbita — energia barata e estoques preventivos. A China é o maior importador de petróleo do mundo e o maior comprador isolado do petróleo iraniano, absorvendo mais de 80% das exportações marítimas de Teerã. Antecipando a crise, Pequim agiu como um "Estado planejador": nos dois primeiros meses de 2026, suas importações de petróleo saltaram 16% para formar estoques, e a Rússia ampliou em cerca de 300 mil barris/dia seus embarques para a China. Sobre uma reserva estratégica capaz de cobrir três a quatro meses de consumo, Pequim transformou seus estoques em instrumento de flexibilidade operacional — podendo esperar a poeira baixar enquanto rivais sufocam. E, crucialmente, o Irã nunca representou mais de 12% do suprimento chinês: era a Europa e o Leste Asiático aliado dos EUA, não a China, que dependiam vitalmente do fluxo do Golfo. O tiro de Washington, nesse sentido, mirou os próprios aliados.
Segunda órbita — o avanço do petroyuan. É talvez o ganho mais estrutural. Com o sistema financeiro do dólar transformado em arma de sanções, Irã e China aceleraram a liquidação do comércio de petróleo em yuan, por fora do SWIFT, através do sistema CIPS do banco central chinês. O GeoEconomics Center, do Atlantic Council, observou que o volume diário de transações no CIPS saltou de uma faixa de US$ 85–105 bilhões para mais de US$ 130 bilhões, coincidindo com o início do conflito. Há relatos de que o Irã passou a negociar a passagem de petroleiros por Hormuz condicionada à liquidação em yuan. O Deutsche Bank chegou a classificar o momento como um possível divisor de águas para a supremacia do petrodólar — vigente desde o acordo de 1974 entre EUA e Arábia Saudita. Convém a cautela analítica: trata-se, por ora, de um "desvio do dólar" (dollar bypass), não de sua substituição. Mas a direção da seta é inequívoca, e cada transação fora do dólar é um tijolo na arquitetura financeira multipolar que Pequim deseja construir.
Terceira órbita — a inteligência militar gratuita. Talvez o ganho que mais deveria preocupar o Pentágono. Sem participar dos combates, a China assistiu a uma aula completa de guerra americana moderna: como os EUA usam IA para selecionar alvos, como rotacionam grupos de porta-aviões, e — sobretudo — como drones iranianos baratos drenam os interceptadores mais caros do arsenal americano. Os números do desgaste são reveladores: Washington teria comprometido cerca de 80% de seu estoque de mísseis de cruzeiro furtivos JASSM-ER, puxando reservas do Pacífico para alimentar a frente iraniana, além de depletar estoques de Tomahawk, Patriot, interceptadores THAAD e drones. Para planejadores chineses que simulam um cenário sobre Taiwan, foi melhor que qualquer exercício de guerra. China e Rússia, observam analistas, extraíram lições preciosas sobre as vulnerabilidades dos EUA diante de táticas assimétricas e sobre a fragilidade de suas cadeias de suprimento bélico.
Quarta órbita — o capital diplomático da estabilidade. Enquanto Washington aparecia impulsivo e imprevisível, Pequim cultivava a imagem oposta. Autoridades chinesas disseram a repórteres da Axios que desejam o fim rápido da guerra e que o que a China verdadeiramente almeja é estabilidade geopolítica e econômica — mas não escondiam certo deleite com o fato de que países ao redor do mundo passaram a buscar em Pequim algum senso de previsibilidade. É a continuidade de uma estratégia de longo curso: foi a China que mediou a reaproximação entre Arábia Saudita e Irã em 2023 e que vem empurrando Teerã para a Organização de Cooperação de Xangai e para o BRICS. A guerra, ao minar a credibilidade do regime de sanções americano, reforça o argumento chinês de um mundo multipolar.
Seria, porém, uma “meia-verdade” não mencionar a vantagem de Pequim. Os think tanks Foreign Policy e o Peterson Institute (PIIE) alertam para um ponto que merece destaque: a derrota americana não se converte automaticamente em vitória chinesa.
Os riscos para Pequim são reais. A economia chinesa segue estruturalmente dependente da demanda externa, ainda mais dos parceiros comerciais EUA e Europa. Um choque de energia prolongado que empurre Europa e Estados Unidos para a recessão derrubaria as encomendas à indústria chinesa, agravaria a crise imobiliária doméstica e exporia a fragilidade da demanda interna. Modelos padrão sugerem que o PIB chinês recua cerca de 0,5% a cada alta de 25% no preço do petróleo. E, ao contrário dos governos ocidentais, Pequim tem pouca margem fiscal para proteger seus consumidores — a meta de déficit de 2026 não deixa espaço para estímulo ao consumo.
Há ainda o risco geopolítico inverso: se os EUA, contra as probabilidades atuais, conseguissem impor um regime mais dócil em Teerã, toda a arquitetura multipolar que a China vem tecendo no Golfo poderia desmoronar, sinalizando ao Sul Global que as garantias de segurança chinesas são ocas. É por isso que a fórmula mais precisa talvez não seja "a China venceu a guerra", mas "a China soube orbitá-la" — colhendo ganhos assimétricos enquanto administra com cuidado os riscos de uma escalada que não lhe interessa.
O balanço de três meses deixa um mapa de perdas que vai além de Washington e Teerã.
Os aliados europeus emergem desgastados e ressentidos. Arrastados para os custos de uma guerra sobre a qual não foram consultados, recusaram em sua maioria os pedidos americanos de assistência — aprofundando uma erosão nas relações transatlânticas que já vinha de antes. A Europa, mais dependente do gás do Golfo, paga a conta energética mais pesada.
As monarquias do Golfo, aliadas históricas de Washington, correm o risco de sair do conflito em pior situação. O argumento dos defensores de Trump — como Alexander Gray, ex-assessor sênior de seu primeiro mandato — é que a guerra teria aproximado os Estados do Golfo dos EUA e os afastado da China. Mas a realidade do terreno, com Hormuz militarizado e investimentos bilionários em infraestrutura de IA na região (de Microsoft, Oracle e Nvidia) agora sob risco geopolítico indefinido, sugere o contrário.
E há a credibilidade americana em si. Robert Kagan, da Brookings Institution, foi além em um ensaio intitulado "Xeque-mate no Irã": para ele, o desfecho representará um golpe ainda mais decisivo à posição global dos EUA do que as retiradas humilhantes do Vietnã e do Afeganistão — porque aqueles países "estavam longe dos principais teatros da competição global". Sua sentença é dura: "Não haverá retorno ao status quo ante, nenhum triunfo americano final que desfaça ou supere o dano causado."
A guerra do Irã não acabou, e algum desfecho de triunfo para Trump ainda é possível, caso as negociações em Omã virem a seu favor. O presidente conserva opções. Entre elas, um ataque limitado e cirúrgico para rotular de "vitória final", e uma tentativa de mudar de assunto deslocando o foco para Cuba; como já sugeriu.
Mas o saldo dos três primeiros meses é claro o suficiente para uma leitura analítica. A potência militar mais poderosa do planeta venceu todas as batalhas contra um adversário de segunda linha e, ainda assim, vê-se incapaz de transformar superioridade tática em vitória estratégica. O Irã, militarmente devastado, descobriu que a geografia lhe deu uma alavanca que sobrevive aos bombardeios. A economia global pagou — e segue pagando — a conta em petróleo caro, inflação e crescimento comprometido.
E a China, que não entrou na guerra, talvez seja quem melhor a compreendeu. Orbitando a crise com a paciência de quem joga um jogo de décadas, Pequim converteu a turbulência alheia em petróleo barato, em avanço da moeda yuan, em inteligência militar gratuita e em capital diplomático. Não como uma vitória sem custos — esses existem e são reais —, mas como a demonstração de uma lição que talvez seja o legado mais duradouro destes três meses: no século XXI, a forma mais eficaz de ganhar uma guerra pode ser, simplesmente, não lutá-la.
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