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Raphael Coraccini

Da construção à energia: as empresas mais pressionadas pela guerra e pelos juros

Publicado 24/03/2026 • 18:41 | Atualizado há 23 horas

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Raphael Coraccini

Analista e repórter de mercado, economia e negócios, Raphael Coraccini é jornalista, especializado em jornalismo econômico e mercado financeiro, mestre e pesquisador em Ciência Social com foco em Ciência Política. Atua na cobertura de autoridades monetárias, autoridades econômicas, resultados corporativos, M&A, mercado de capitais, impostos e tarifas, regulação e outros assuntos relacionados a economia e política.

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Foto: Majid Asgaripour/WANA/Reuters.

Desde que os EUA e Israel atacaram o Irã, no dia 28 de fevereiro, os mercados viraram de ponta-cabeça e as projeções otimistas para a bolsa brasileira começaram a esfriar. Os 200 mil pontos, que antes pareciam questão de tempo, passaram a ficar cada vez mais distantes. Desde a deflagração da guerra, o Ibovespa – principal índice da bolsa de valores – caiu de 3,5% no meio do pregão desta terça-feira (24), quase um mês depois dos ataques.

A guerra causou efeitos em sequência que culminam na derrubada da bolsa de valores no Brasil, a começar pela disparada no preço do petróleo, com avanço perto de 40% no período. Isso impactou a curva de juros no Brasil. Os títulos públicos do Brasil para 2033 e 2035 subiram mais de 10% no período. Isso impacta diretamente as empresas da bolsa de valores, e aquelas que estão mais endividadas estão entre as principais quedas da bolsa.

“Como o petróleo subiu e aumentou a perspectiva de inflação, reduziu a chance de ter um ciclo de corte de juros mais agressivo”, destaca Artur Horta, head de Operações e Análises e sócio do The Link Investimentos. E isso já foi visto na decisão de março do Copom, com uma queda mais modesta que a estimada anteriormente (de 0,50 pp. para 0,25).

Para Horta, o caminho que estava sendo desenhado, de queda dos juros em um compasso de 0,5 p.p. até chegar perto dos 12% de juros no final do ano, significaria um grande avanço para as empresas brasileiras. A guerra mudou tudo e essas empresas – que estavam sendo beneficiadas por uma queda dos juros – passaram a sofrer. A queda do Ibovespa está relacionada principalmente a setores cíclicos e intensivos em capital. E só não é pior por conta do contrapeso feito pelo setor de commodities.

Dívida castiga empresas durante a guerra

Entre as empresas endividadas, algumas construtoras sofrem. É o caso da Cyrela, que desaba 15% mesmo com uma dívida muito mais controlada (2,54). A Direcional, um dos destaques da bolsa em 2025, cai os mesmos 15% com dívida de 0,65.

Setor de energia cai em bloco

Quando o assunto é setor da bolsa, o de energia é o que tem mais nível de endividamento e registra algumas das piores perdas da bolsa desde a guerra. “As empresas se alavancam mais porque têm uma vantagem competitiva que é a previsibilidade. Muitas operam por meio de concessão sabendo a receita que será gerada nos próximos anos, isso tudo contribui para que se alavanquem mais”, detalha Horta.

Contudo, essa previsibilidade não tem sido suficiente para que o investidor mantenha sua aposta no setor como antes da guerra. E a perda poderia ter sido maior se os leilões de energia. O Brasil fez o maior leilão da história do setor há uma semana, com a perspectiva de investimentos na casa de R$ 65 bilhões. Na sessão seguinte à do leilão, as ações subiram em bloco, mas não o suficiente para reverter a tendência de queda.

*Dívida líquida/Ebitda e desempenho na bolsa em 30 dias

Braskem (BRKM5) 55,20 (+11,11%)
Axia (AXIA6) 7,01 (-6,14%)
Bradespar (BRAP3) 6,53 (-8,18%)
Auren (AURE3) 5,55 (-2,51%)
Taesa (TAEE11) 4,37 (-6,98)
CSN (CSNA3) 4,48 (-22,35%)
Equatorial (EQTL3) 4,15 (-3,23%)
Engie (ENGI11) 3,88 (-8,52%)
MBRF (MBRF3) 3,85 (-5,43%)

Dados de valorização das ações apurados no pregão do dia 24 de março, às 13h. Dados de endividamento referentes ao 4T25

Braskem vive dinâmica distinta

A Braskem lidera o ranking de endividamento do Ibovespa, mas a empresa tem registrado outra dinâmica na bolsa. A empresa teve seu valor de mercado deteriorado ao longo dos últimos 12 meses por conta da sua exposição aos juros, problemas anteriores de safra que afetaram produtividade e preço das commodities.

Depois de bater no fundo, a empresa parece dar algum respiro para o seu investidor com a perspectiva de alguma melhora nos resultados da companhia.

Varejo

As empresas do varejo que se mantêm nos principais índices da bolsa não estão entre as principais empresas alavancadas da bolsa por terem entrado numa trajetória longa de redução de custos nos últimos anos, já preparadas para o ciclo de alta dos juros.

Ainda assim, algumas empresas sofreram bastante, como foi o caso do GPA, que anunciou recuperação extrajudicial e, por consequência, a saída do Ibovespa e de todos os outros índices da bolsa.

O Magazine Luiza (MGLU3) conseguiu controlar seu endividamento, com uma relação dívida líquida/ Ebtida de 0,08. Mesmo assim, diante da possibilidade de o dinheiro se manter caro nos próximos meses e anos, as ações estão sofrendo: queda de 14,4%.

Mas a queda da varejista brasileira, quando colocada em perspectiva, não parece o fim do mundo. Grande referência na América Latina nesse setor, o Mercado Livre (MELI) desabou mais 15,4% no mesmo período, também sofrendo com a disparada dos juros nos EUA, onde a empresa tem capital aberto.

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