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Sérgio Leverdi Sergio Leverdi

Sob risco de El Niño, setor elétrico monta operação especial para eleições de 4 de outubro

Publicado 25/08/2026 • 18:14 | Atualizado há 3 horas

Foto de Sérgio Leverdi

Sérgio Leverdi

Advogado com mais de 30 anos de atuação, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização em Direito Econômico e Empresarial, pós-graduação pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Também é especialista em Direito Tributário e em regulação do setor de energia, tendo cursado Pós-Graduação tanto no IDP como na PUCPR, área em que atua na representação de grandes projetos de relevância nacional. Idealizador do LAWINFRA, iniciativa voltada ao diálogo entre o setor produtivo, reguladores e o sistema de justiça, Sérgio Leverdi é sócio do Observatório Internacional da Justiça e Arbitragem. Sua trajetória é marcada pela atuação estratégica em infraestrutura, energia, segurança jurídica e desenvolvimento econômico.

ANEEL, ONS e CCEE articulam um plano de contingência para blindar o fornecimento de energia no dia da votação, enquanto o setor tenta emplacar, em paralelo, uma reforma regulatória que só vai se resolver com as urnas

Brasília — Faltam 45 dias para o primeiro turno, e enquanto os candidatos disputam palanque, uma outra campanha corre em silêncio nas salas de operação do setor elétrico: garantir que, no domingo 4 de outubro, a luz não falte — e que, se faltar, o problema seja pequeno e sem sombra sobre o resultado da eleição.

Dias atrás, esse esforço ganhou um capítulo novo: a ANEEL comunicou ao TSE as medidas de contingência preparadas por geradoras, distribuidoras e transmissoras. O motivo é climático.

A agência estima em 95% a chance de o El Niño chegar entre outubro e dezembro com força muito forte, acima dos 70% calculados pelo comitê que monitora o setor em reunião de 5 de agosto. As projeções não se contradizem: só mostram que ninguém tem certeza sobre a intensidade exata do fenômeno.

O ponto mais frágil não é o Brasil conectado à rede nacional, e sim os rincões que dependem de barcos e rios. Com menos chuva, os rios da Amazônia podem baixar justamente quando as usinas isoladas mais precisam de diesel.

Para evitar esse gargalo, a ANEEL decidiu adiantar dinheiro a pequenas geradoras da região: melhor estocar combustível agora, enquanto a navegação ainda é possível, do que torcer para que o transporte funcione em outubro — sem custo extra para o consumidor, segundo a agência. Em julho, o comitê já havia liberado a antecipação de quase 1,8 mil megawatts em contratos de reserva, um colchão energético contratado meses antes.

Um protocolo que ninguém quer ver em ação

Enquanto a ANEEL cuida do combustível, cabe ao Operador Nacional do Sistema Elétrico blindar a rede física. A cada eleição, o órgão repete o mesmo roteiro: suspende manutenções da véspera até a manhã seguinte ao pleito; opera com margens de segurança mais folgadas, aceitando gastar mais para correr menos risco; e mantém linha aberta com ANEEL, Ministério de Minas e Energia, TSE e tribunais regionais. Na prática, troca eficiência econômica por tranquilidade numa janela de pouco mais de um dia.

Vale desfazer um mal-entendido comum: um apagão não interromperia a votação. A urna eletrônica tem bateria própria, acionada automaticamente na falta de energia, com autonomia para cobrir toda a votação, além de reserva externa. O risco real está depois da urna — na transmissão dos boletins, na totalização e nos data centers da apuração.

Há ainda uma camada reputacional: numa era de desinformação, uma falha banal em qualquer cidade pode virar narrativa de fraude em minutos, e a coordenação entre os órgãos serve também para produzir, na hora, explicações técnicas confiáveis. Quem torna tudo isso executável, nos bastidores financeiros, é a CCEE, câmara que administra as contas do setor desde 2017: sem ela, a antecipação anunciada pela ANEEL seria só um anúncio no papel.

A outra eleição: a disputa por uma nova regra do jogo

Enquanto a operação de outubro dura um domingo, outra disputa corre em paralelo mirando os próximos quatro anos. Em 21 de julho, quatro entidades que representam grandes consumidores e investidores — Abihv, Global Renewables Alliance, Abrace e Abiape — publicaram carta aberta aos presidenciáveis pedindo a revisão dos subsídios do setor.

O argumento é o custo: o fundo que banca esses subsídios saltou de cerca de R$ 23 bilhões para mais de R$ 52 bilhões anuais entre 2022 e 2026. Semanas depois, a Abiape voltou ao tema com carta sobre o desperdício de energia renovável por limitações da rede, estimando prejuízo de R$ 6 bilhões aos geradores em 2025.

Por trás dos números está um diagnóstico compartilhado pelo setor: as regras atuais foram desenhadas no fim dos anos 1990, num mercado que já não existe, e duas décadas de remendos criaram mais distorção do que solução. A aposta de quem defende a reforma é usar 2026 para amadurecer o consenso e implementá-la em 2027. O contraponto: debater reforma estrutural em plena campanha tende a ser capturado pelo calendário eleitoral, e prometer tarifa mais barata rende votos com mais facilidade do que explicar quem vai pagar a conta.

Se tudo correr bem em outubro, a história não vai virar manchete — infraestrutura crítica só chama atenção quando falha. O que ficar pendente depois da apuração vai pesar por mais tempo: subsídios, desperdício de energia limpa, abertura do mercado, expansão da transmissão. Essa conta, diferente da operação de um domingo, só será resolvida por quem for eleito.

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