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Agro

Crise de endividamento no agro é gravíssima e governo tem miopia, diz Tereza Cristina

Publicado 01/06/2026 • 19:49 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Senadora afirmou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC que juros altos, queda das commodities e câmbio pressionam produtores rurais.
  • Ex-ministra da Agricultura diz que o Brasil segue competitivo, mas ainda enfrenta gargalos em logística, armazenagem e infraestrutura.
  • Para Tereza Cristina, acordo Mercosul-União Europeia pode beneficiar o Brasil no médio prazo, apesar de cotas pequenas e barreiras sanitárias.

A crise de endividamento dos produtores rurais é “seríssima” e “gravíssima”, afirmou a senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura, em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

Segundo ela, o governo federal trata o problema como uma dificuldade passageira, mas o setor enfrenta uma combinação de juros elevados, queda no preço das commodities, câmbio desfavorável e custos pressionados por fertilizantes.

“Infelizmente, há uma miopia do governo em achar que isso é uma crise passageira. Não é. É seríssima, é gravíssima”, afirmou.

A senadora disse que os juros praticados hoje no mercado não cabem na operação dos produtores rurais.

“Com juros nas alturas, a agricultura não cabe no bolso do agricultor. Um juro de 18%, 20%, que é o que nós temos hoje no mercado”, disse.

Tereza Cristina também citou a queda no preço da soja e a variação cambial como fatores de pressão. Segundo ela, produtores plantaram a safra com dólar em torno de R$ 6 e venderão com a moeda perto de R$ 5.

“A soja já chegou a R$ 200, hoje é R$ 100. O dólar caindo. Nós plantamos uma safra com dólar a R$ 6 e vamos vender com dólar a R$ 5. Isso também é um prejuízo enorme”, afirmou.

Leia também: Produtores rurais passam a ter acesso a financiamentos para inovação tecnológica

Fertilizantes e segurança alimentar

A ex-ministra disse que o Brasil segue altamente dependente de fertilizantes importados, em um cenário global marcado por guerras e pressão sobre insumos. Segundo ela, o país conseguiu se tornar potência agrícola com tecnologia, correção de solo e inovação, mas ainda precisa dos fertilizantes químicos e dos bioinsumos para sustentar o tamanho da produção atual.

“O Brasil tem terras pobres. Nós corrigimos o nosso solo ao longo desses anos todos, usando muita tecnologia e inovação, e o Brasil hoje é uma potência no agro”, disse.

Tereza Cristina afirmou que o país tem papel central na segurança alimentar global por ser um dos poucos capazes de ampliar produção caso o mundo precise de mais alimentos. Ela defendeu que o agro brasileiro é competitivo e sustentável.

“Ninguém no mundo tem uma agricultura como a nossa, que faz duas safras no mesmo espaço por ano, que preserva o seu meio ambiente”, afirmou.

A senadora citou o Código Florestal e o ganho anual de produtividade do setor como diferenciais. Segundo ela, a produtividade agrícola brasileira cresce cerca de 1% ao ano.

“Nós somos o único país do mundo que podemos aumentar a nossa produção se o mundo precisar de mais comida”, disse.

Mercosul-União Europeia

Sobre o acordo entre Mercosul e União Europeia, Tereza Cristina afirmou que o agro sempre foi um dos principais obstáculos à conclusão das negociações, que se arrastaram por 26 anos. Para ela, a Europa sabe que precisa do agro brasileiro, mas ainda enfrenta resistências internas de países que veem o Brasil como concorrente.

“A Europa sabe que precisa do agro brasileiro, mas enfrentamos muitas resistências de alguns países que ficaram para trás, tanto na sustentabilidade quanto na produtividade”, afirmou.

A ex-ministra citou França e Irlanda como países com preocupação especial em relação à carne bovina brasileira. Segundo ela, as cotas previstas no acordo são pequenas em comparação ao volume exportado pelo Brasil para outros mercados.

“As cotas são muito pequenas. São pífias em relação ao que nós já fazemos de exportação com a China e com outros países”, disse.

Tereza Cristina criticou a restrição europeia ligada a antimicrobianos, adotada após o avanço do acordo. Para ela, a medida resgata o uso de justificativas sanitárias para proteger mercados.

“Foi muito ruim o que eles fizeram logo após a implementação do acordo, virem com esse problema dos antimicrobianos, proibindo por um tempo a entrada da carne brasileira na Europa”, afirmou.

Apesar das dificuldades, a senadora disse acreditar que o acordo pode ser positivo para o Brasil no médio prazo.

“Eu tenho certeza que a Europa vai se acostumar com a qualidade dos nossos produtos”, afirmou. “O Brasil sai ganhando no médio prazo com esse acordo.”

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Além da União Europeia, Tereza Cristina apontou o Japão como um dos mercados mais próximos de abertura para o agro brasileiro. Segundo ela, autoridades japonesas já estiveram no Brasil e realizaram inspeções em plantas frigoríficas.

“O que está mais próximo é o Japão. É um mercado que paga melhor, superexigente”, disse.

A senadora também citou Coreia do Sul e Estados Unidos como mercados relevantes, especialmente para carne bovina. Segundo ela, a redução do rebanho americano deve ampliar a necessidade de importações nos próximos anos.

“Os Estados Unidos são um mercado que vai precisar do nosso produto cada vez mais, pelo menos nos próximos anos, porque nós temos uma diminuição do rebanho americano muito significativa”, afirmou.

Leia também: CNA: Agro deve seguir impulsionando economia em 2026, mas clima, juros e custos já preocupam para o ano que vem

Infraestrutura é gargalo

Tereza Cristina também apontou a infraestrutura como um dos principais gargalos do agro brasileiro. Segundo ela, o país avançou, mas ainda tem rodovias insuficientes, pouca ferrovia, portos que precisam ser mais eficientes e grande déficit de armazenagem.

“Esse é o grande gargalo. Eu nem sei como é que nós conseguimos ser tão fortes no agronegócio”, disse.

A senadora afirmou que a falta de armazenagem obriga produtores a venderem em momentos desfavoráveis, pressionando preços e reduzindo margem.

“Armazém é diretamente na veia da agricultura brasileira. Hoje nós temos uma deficiência enorme de armazenagem no país”, afirmou.

Eleições

Ao comentar o cenário eleitoral, Tereza Cristina disse que a eleição tende a travar decisões importantes para o setor. Segundo ela, o próximo presidente receberá um país com juros altos, inflação pressionada, custos de produção em alta e necessidade de reformas.

“Nós vamos entregar um país para o próximo presidente muito complicado”, disse. “Esse presidente que chegar vai ter que ter capital político para fazer as reformas necessárias.”

Questionada sobre eventual candidatura neste ano, a senadora negou interesse.

“Eu gostaria de ver o Brasil caminhando para o rumo certo, sem esse aumento de impostos que também está minando a nossa economia”, afirmou.

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