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Agro

Setor portuário repudia invasão em terminal da Cargill e fala em vandalismo

Publicado 22/02/2026 • 18:45 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Entidades do setor portuário classificaram a invasão do terminal da Cargill em Santarém (PA) como “inaceitável” e relataram vandalismo e danos a estruturas operacionais.
  • Associações alertam que a paralisação pode gerar risco de desabastecimento de combustíveis, gás e insumos essenciais.
  • Protesto indígena cobra revogação de decreto que incluiu rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização, enquanto disputa judicial sobre a desocupação segue em curso.
A multinacional Cargill é uma das maiores empresas de agronegócio do mundo.

A multinacional Cargill é uma das maiores empresas de agronegócio do mundo.

Foto: Michael Chu/Flicker

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e outras quatro entidades do setor portuário e de infraestrutura repudiaram neste domingo (22), a invasão e ocupação do terminal portuário da Cargill em Santarém (PA), ocorrida na madrugada de sábado (21).

As organizações classificaram os episódios como “ações inaceitáveis e incompatíveis com qualquer forma legítima de reivindicação” e pediram às autoridades o restabelecimento imediato das operações.

Assinam o documento conjunto a Abiove, a Associação Brasileira de Armadores de Navegação Industrial (Abani), a Associação Brasileira de Terminais Portuários (ABTP), a Associação dos Portos e Terminais Privados da Amazônia (Amport) e o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP).

Na nota, as entidades relatam vandalismo, destruição de equipamentos, danos a estruturas operacionais, ameaças a trabalhadores e restrição de liberdade “sob forte risco à sua integridade física”. O documento afirma que nenhuma causa autoriza “ocupação irregular, restrição às operações e atividades comerciais regularmente constituídas, atos violentos, intimidação aos funcionários próprios e terceiros, invasões de propriedades, intimidações, agressões, danos ao patrimônio ou a interrupção forçada e ilegal de atividades essenciais”.

Leia também: Cargill tem pedido negado e Justiça mantém invasão indígena em Santarém

O terminal de Santarém movimentou mais de 5,5 milhões de toneladas de soja e milho em 2025, o que representou mais de 70% de todos os grãos embarcados no porto paraense, segundo dados do setor portuário. A Cargill informou que as operações foram “completamente interrompidas” após a ocupação e que há “fortes evidências de vandalismo e danos a ativos” no terminal. A empresa afirmou que a prioridade é garantir a segurança de funcionários, manifestantes e da comunidade local.

Na nota conjunta, as entidades afirmam que a paralisação representa “risco iminente de desabastecimento de gás, combustíveis para transporte público, aeroportos e hospitais”. As associações pedem que as autoridades restabeleçam a posse e o funcionamento do terminal, garantam a integridade dos trabalhadores, pacifiquem o ambiente para realização de perícias e assegurem a proteção do patrimônio público e privado.

A Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa) também divulgou nota de repúdio, assinada pelo presidente Carlos Fernandes Xavier. A entidade manifestou “solidariedade e apoio institucional à Cargill e às famílias que vivem de suas operações” e afirmou que as reivindicações dizem respeito a matérias “de competência exclusiva do Governo Federal”. A Faepa sustenta que direcionar atos contra empresa privada “é improdutivo” e “desvirtua o legítimo espaço democrático de diálogo”.

Histórico

Os protestos tiveram início em 22 de janeiro, quando o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita) bloqueou o acesso de caminhões ao terminal. Ao longo das semanas seguintes, o grupo chegou a interceptar balsas no rio. Na noite de sexta-feira (20), manifestantes vandalizaram a fachada do escritório central da Cargill em São Paulo.

O Cita afirma ter tentado diálogo com a Presidência da República, a Casa Civil e o Ministério dos Transportes, mas não obteve resposta. “Após um mês completo de silêncio institucional e ausência de respostas concretas, ocupamos o escritório da empresa Cargill, em Santarém”, declarou o conselho em nota. Em carta divulgada após a ocupação, os manifestantes afirmaram que “os rios não são canais de exportação: são uma fonte de vida, sustento, memória e identidade para milhares de famílias”.

Os indígenas cobram a revogação do Decreto nº 12.600, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em agosto de 2025, que incluiu os rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND). A medida permite ao governo avaliar concessões de navegabilidade nesses rios, incluindo eventuais obras de dragagem. O governo federal afirma que a inclusão no PND é etapa preliminar e técnica e que qualquer empreendimento será precedido de “consulta livre, prévia e informada” às comunidades afetadas.

A Cargill acionou a Justiça Federal para retirar os manifestantes do terminal, mas a Subseção Judiciária de Santarém negou analisar o pedido em regime de plantão. O juiz federal Eneias Alexandre Gonçalves Torres reconheceu a gravidade da situação, mas afirmou que “a adoção de medidas destinadas ao pronto restabelecimento da ordem não se mostra recomendável em sede de plantão”.

Leia também: Governo suspende licitação no Tapajós e convoca reuniões após ocupação indígena na Cargill

Torres acrescentou que a mobilização reúne mulheres, crianças e idosos e que “a simples requisição imediata de força policial, em regime de plantão, sem prévia articulação institucional, sem plano operacional estruturado e sem diálogo com os atores envolvidos, apresenta risco concreto de agravamento do conflito”.

Nas semanas anteriores, a Justiça Federal do Pará havia concedido liminares para desocupação forçada do entorno do terminal, mas o Ministério Público Federal (MPF) no Estado bloqueou as decisões. Na sexta-feira (20), os indígenas foram notificados a desocupar o local em 48 horas. O MPF contestou a intimação, classificando-a como irregular por ter sido feita “de maneira genérica, por meio do uso de megafone a dez metros de distância do acampamento, sem a identificação ou notificação pessoal dos indígenas”.

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Amanda Souza

Jornalista formada pela Universidade Mackenzie e pós-graduada em economia no Insper. Tem passagem pela Climatempo, CNN Brasil, PicPay e Revista Oeste. É redatora de finanças no Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC. Eleita uma das 50 jornalistas +Admiradas da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças de 2024.

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