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Ciências e Saúde

Medicamento experimental contra câncer de pulmão reduz risco de morte em 34% em estudo avançado

Publicado 31/05/2026 • 13:00 | Atualizado há 18 minutos

KEY POINTS

  • Novo estudo de fase 3 realizado na China mostrou que o ivonescimab reduziu em 34% o risco de morte em pacientes com câncer de pulmão de difícil tratamento quando combinado à quimioterapia.
  • O medicamento manteve pacientes vivos por uma mediana de 27,9 meses, cerca de quatro meses a mais do que o tratamento padrão com imunoterapia e quimioterapia.
  • Especialistas consideraram os resultados encorajadores, mas ressaltaram que ainda será necessário confirmar os benefícios em populações fora da China.

Um medicamento experimental contra o câncer de pulmão desenvolvido pela Akeso e pela Summit Therapeutics reduziu em 34% o risco de morte em um estudo avançado amplamente acompanhado pelo mercado e pela comunidade médica, segundo resultados divulgados neste domingo.

Quando combinado com quimioterapia, o tratamento permitiu que pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas do tipo escamoso permanecessem vivos por uma mediana de quatro meses a mais do que aqueles tratados com a combinação padrão de imunoterapia e quimioterapia. Os resultados serão apresentados durante a reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO).

Resultados animadores

O medicamento, chamado ivonescimab, é um anticorpo biespecífico que atua sobre os alvos PD-1, de forma semelhante ao Keytruda, da Merck, e VEGF, mecanismo semelhante ao do Avastin, da Roche. O estudo de fase 3 foi realizado na China, enquanto uma pesquisa global de fase 3 continua em andamento.

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Para o diretor executivo do Winship Cancer Institute, da Universidade Emory, Suresh Ramalingam, os dados são promissores.

O fato de haver melhora na sobrevida global em uma população de pacientes difícil de tratar é muito encorajador“, afirmou. Ele observou, porém, que o estudo foi realizado exclusivamente na China e que ainda será necessário entender como os resultados se aplicam a pacientes de outras regiões.

Debate sobre a nova classe de medicamentos

O ivonescimab se tornou um dos medicamentos mais discutidos atualmente na oncologia e entre investidores. Parte dos especialistas acredita que ele pode se tornar um sucessor do Keytruda, um dos maiores sucessos comerciais da história do tratamento do câncer. Outros, porém, alertam que o entusiasmo pode ser semelhante ao observado em terapias promissoras que acabaram não entregando os resultados esperados.

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Essa divisão de opiniões também se reflete nas ações da Summit Therapeutics, que detém os direitos do medicamento fora da China. Os papéis da empresa acumularam valorização próxima de 600% nos últimos dois anos após estudos indicarem melhor controle tumoral em comparação ao Keytruda. No último mês, porém, as ações perderam força diante de dúvidas sobre o desempenho do tratamento em populações globais.

Sobrevida maior

Pesquisas anteriores já haviam mostrado que o ivonescimab era capaz de controlar o avanço dos tumores, resultado conhecido como sobrevida livre de progressão. Entretanto, as autoridades regulatórias dos Estados Unidos exigem evidências de que os medicamentos também aumentem efetivamente a sobrevida dos pacientes.

No estudo Harmoni-6, apresentado neste domingo, pacientes que receberam ivonescimab combinado com quimioterapia alcançaram uma sobrevida mediana de 27,9 meses, contra 23,7 meses entre aqueles tratados com um medicamento PD-1 convencional associado à quimioterapia.

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A professora de medicina e oncologia da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, Deborah Doroshow, avaliou que o ganho de quatro meses merece análise cuidadosa.

Não está claro o quão significativo isso é. Certamente não são dois meses, mas também não é uma diferença enorme. O significado de viver quatro meses a mais depende totalmente da pessoa que está vivendo esse tempo“, afirmou.

Ela observou ainda que os pacientes do grupo de controle viveram cerca de seis meses a mais do que o esperado, levantando dúvidas sobre o perfil da população incluída no estudo e sobre o impacto real do medicamento.

Questões sobre aplicabilidade global

Segundo Ramalingam, uma possível explicação para essas diferenças é o fato de o estudo ter sido realizado na China, onde pacientes historicamente apresentam respostas mais favoráveis a terapias baseadas em PD-1 e VEGF. Novos estudos em países ocidentais serão necessários para determinar se os resultados podem ser reproduzidos em populações mais amplas.

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Mesmo assim, o especialista classificou os resultados como “boas notícias” para os pacientes chineses.

Existe uma nova abordagem para o câncer de pulmão escamoso que amplia a sobrevida em cerca de quatro meses, um avanço substancial para uma população em que o progresso costuma ocorrer em pequenos passos“, afirmou.

A Summit informou que pretende divulgar os resultados de sobrevida livre de progressão do estudo global Harmoni-3 para pacientes com tumores escamosos no segundo semestre deste ano. Dados envolvendo pacientes com tumores não escamosos devem ser divulgados no primeiro semestre do próximo ano.

Segurança e mercado bilionário

Uma das vantagens atribuídas aos medicamentos que combinam PD-1 e VEGF é a possibilidade de tratamento de pacientes com câncer de pulmão escamoso, frequentemente associado ao tabagismo. Esses tumores costumam surgir próximos a grandes vasos sanguíneos, aumentando o risco de hemorragias quando medicamentos anti-VEGF são utilizados.

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No estudo apresentado, episódios de sangramento de qualquer gravidade ocorreram em quase um quarto dos pacientes tratados com ivonescimab, aproximadamente o dobro do registrado no grupo de controle. Casos graves ficaram abaixo de 3%, contra cerca de 1% entre pacientes tratados com o medicamento tislelizumabe.

O interesse do mercado por essa nova classe de medicamentos é enorme porque muitos especialistas buscam identificar qual terapia poderá suceder tratamentos como Keytruda e Opdivo, que revolucionaram o tratamento do câncer nas últimas décadas.

Somente o Keytruda possui 44 indicações aprovadas e gerou mais de US$ 30 bilhões (R$ 151,2 bilhões) em vendas para a Merck no ano passado.

Segundo a analista da Leerink Partners, Daina Graybosch, substituir o Keytruda em todas as suas aplicações atuais e expandir seu uso para novas indicações representaria “um mercado muito grande“.

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Os acordos de licenciamento envolvendo medicamentos baseados em PD-1 alcançaram US$ 30 bilhões (R$ 151,2 bilhões) no ano passado, quase o dobro do recorde anterior de US$ 16 bilhões (R$ 80,6 bilhões) registrado em 2017.

Novas alternativas

Apesar do entusiasmo, o diretor de oncologia da Norstella, Ethan Smith, acredita que o ivonescimab e medicamentos semelhantes dificilmente alcançarão a mesma presença do Keytruda, principalmente devido à concorrência crescente de novas terapias, como os conjugados anticorpo-fármaco.

Durante a reunião da ASCO, também serão apresentados dados de um conjugado anticorpo-fármaco desenvolvido pela Merck em parceria com a Kelun. Segundo os resultados divulgados previamente, o medicamento reduziu em 65% o risco de progressão tumoral em um estudo realizado na China.

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A chefe global de desenvolvimento clínico em oncologia da Merck, Marjorie Green, afirmou que a empresa vê espaço para medicamentos baseados em PD-1/VEGF, mas não acredita que eles se tornarão necessariamente o próximo Keytruda.

“É um momento empolgante para a oncologia. Nunca imaginei que chegaríamos a um ponto em que discutiríamos qual nova terapia é a melhor opção para câncer de pulmão. O Keytruda foi um tratamento fundamental, e agora existem várias possibilidades surgindo. Isso é uma boa notícia para os pacientes diagnosticados com a doença“, afirmou.

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