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Recuperações judiciais: Crise nas empresas começa na perda de lucro e vira ‘bola de neve mortal’, diz CEO da Excellance

Publicado 27/08/2026 • 15:48 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Recorde de recuperações judiciais reflete combinação de decisões equivocadas no passado, perda de lucratividade e aumento do custo das dívidas.
  • Max Mustrangi afirma que empresas priorizaram crescimento e investimentos sem preservar geração de caixa e foram surpreendidas pela alta dos juros.
  • Executivo alerta que avanço das recuperações aumenta a aversão ao crédito no mercado doméstico e também afeta a percepção de investidores estrangeiros.

A multiplicação de empresas em recuperação judicial ou extrajudicial no Brasil é resultado de uma combinação entre perda de lucratividade, investimentos sem retorno, crescimento sem geração adequada de caixa e dívidas assumidas quando o crédito era mais barato, segundo Max Mustrangi, CEO da Excellance. Para ele, a alta dos juros e o enfraquecimento do consumo agravaram problemas originados por decisões empresariais tomadas no passado.

Em entrevista nesta quinta-feira (27) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Mustrangi afirmou que a deterioração financeira costuma começar pela rentabilidade. “Eu costumo dizer que toda crise começa de dois grandes fatores: perda de lucratividade”, explicou. Segundo ele, diversas companhias buscaram ampliar faturamento e pontos de venda mesmo sacrificando margens e, em alguns casos, acumulando prejuízos.

Quando a operação deixa de gerar recursos suficientes, acrescentou o executivo, a alternativa passa a ser o financiamento. “A conta não fecha, [é preciso] buscar financiamento. O dinheiro estava barato ainda, conseguiram se alavancar”, disse Mustrangi, ao lembrar que outra fonte de desequilíbrio foram grandes investimentos em capex, aquisições, novos negócios e tecnologias cuja expectativa de retorno não se confirmou.

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Dívida barata virou problema com alta dos juros

Para Mustrangi, o ponto crítico surge quando o caixa produzido pelo investimento não é suficiente para honrar a dívida contratada. “Nos dois casos, a questão é que você não vai ter o retorno no futuro que você precisava dar do investimento para o financiamento do presente”, afirmou.

O CEO da Excellance associa parte desses problemas à má gestão e a decisões equivocadas tomadas anteriormente. O ambiente econômico posterior, porém, ampliou fortemente seus efeitos. “Tomaram dinheiro, muito dinheiro barato, não imaginavam que o dinheiro ia ficar tão caro, então a despesa financeira ia ficar tão alta na conta do demonstrativo de resultados”, ressaltou.

Ao custo maior das dívidas somou-se a deterioração das condições de consumo. Mustrangi destacou o aumento do endividamento e da inadimplência das famílias, que reduz a capacidade de recuperação das empresas justamente quando elas precisam recompor margens e geração de caixa.

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Tudo isso convergindo faz com que as empresas que fizeram decisões erradas no passado, crescimento, investimento ou os dois, […] agora precisem recuperar a lucratividade”, explicou. Nesse processo, segundo ele, as companhias encontram “um mercado econômico frágil, volume menor, mix fraco”. O resultado, resumiu, “é uma bola de neve mortal”.

Crescer sem preservar caixa aumenta vulnerabilidade

Mustrangi ponderou que transformações inevitáveis nos hábitos dos consumidores não podem ser antecipadas em todos os casos. Para ele, a proteção contra essas mudanças está na qualidade da gestão, na lucratividade e na preservação da geração operacional de caixa.

O executivo comparou essa preparação à fábula da cigarra e da formiga. “Se você é formiga, que você sabe que todo ano vai ter inverno, pode ser diferente, mas você está com seu estoque, você vai conseguir passar por ele”, afirmou. Já empresas que descuidam do caixa, acrescentou, ficam muito mais expostas quando o cenário muda.

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Se você é cigarra que só canta, não toma cuidado com o seu caixa, faz crescimento de qualquer maneira, faz investimento de qualquer maneira […] é lógico que você vai estar se expondo à falha”, alertou Mustrangi.

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Na avaliação dele, a chamada inteligência de negócio está diretamente ligada às metas e estratégias definidas para a companhia. Um dos problemas recorrentes nas empresas que entram em crise, segundo o CEO, está justamente na forma como os incentivos aos administradores são estabelecidos.

Metas de curto prazo podem comprometer empresa

Mustrangi afirmou que, em muitas crises empresariais, “o sistema de incentivo do executivo e/ou que o controlador colocou para a empresa foi mal desenhado e mal calibrado”. Isso pode estimular decisões voltadas ao crescimento rápido, mesmo quando a expansão não oferece retorno adequado.

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O executivo citou como exemplo companhias que posteriormente precisaram fechar 200, 300 ou 400 pontos de venda que já apresentavam resultados deficitários. “Fez o crescimento porque queria fazer um faturamento alto”, afirmou.

Para Mustrangi, a busca por indicadores capazes de elevar a avaliação de uma empresa ou favorecer uma abertura de capital pode criar incentivos incompatíveis com a sustentabilidade de longo prazo. “O sistema de incentivo era visando curto prazo, o próprio bolso e não a sustentabilidade da empresa”, criticou.

Recuperações aumentam aversão ao crédito

O avanço das recuperações judiciais e extrajudiciais também pode produzir consequências para empresas que não estão diretamente em crise. Segundo Mustrangi, a disseminação desses processos aumenta a percepção de risco e torna os agentes financeiros mais cautelosos na concessão de crédito.

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Em primeiro lugar, você contamina o terreno nacional brutalmente. O risco, a aversão ao crédito, ao risco do crédito, fica escancarado”, afirmou. Para ele, tanto uma recuperação judicial quanto uma extrajudicial representam, de certa maneira, uma situação de inadimplência para os credores.

Por um certo tempo, esse crédito, não sei que dê certo, ele não volta, você perdeu”, explicou. Com a repetição desses episódios, acrescentou, instituições e investidores podem concluir que “não vale a pena emprestar dinheiro” ou endurecer significativamente as condições de financiamento.

Esse ambiente também pode chegar à percepção internacional sobre os negócios brasileiros. “Quem está vindo de fora para colocar dinheiro no país começa a ver que as empresas não estão dando retorno. Não vale a pena você investir pelos negócios em si, pelas empresas”, avaliou Mustrangi.

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Ao mesmo tempo, os juros nominais e reais elevados no Brasil podem continuar atraindo recursos financeiros, mas o executivo apontou o risco fiscal como mais um elemento de preocupação para quem observa o país de fora. “Você fica com risco fiscal, que deixa o investidor estrangeiro com muito medo de um futuro de curto e médio prazo”, afirmou.

Para Mustrangi, portanto, a sequência de empresas em dificuldades não permanece restrita aos respectivos balanços. “Eu diria que ele contamina o nacional e acaba batendo no internacional”, concluiu.

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