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Inadimplência e juros altos ajudam a explicar crise de grandes varejistas

Publicado 17/08/2026 • 16:24 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Renda maior das famílias não chega integralmente ao varejo, com parcela dos consumidores direcionando recursos para o pagamento de dívidas.
  • Cerca de 84 milhões de brasileiros estão inadimplentes, cenário que reduz o espaço disponível para consumo e pressiona as redes varejistas.
  • Integração entre e-commerce e lojas físicas aparece como estratégia para reduzir custos logísticos e melhorar o atendimento ao consumidor.

O avanço da renda e os indicadores positivos da economia não têm se traduzido na mesma proporção em vendas para o varejo porque parte dos consumidores está comprometida com dívidas, enquanto as empresas enfrentam custos financeiros elevados, segundo Eduardo Yamashita, sócio-diretor da Gouvêa Inteligência. Em entrevista nesta segunda-feira (17) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ele avaliou os fatores que ajudam a explicar as dificuldades enfrentadas por grandes varejistas, como Casas Bahia e Marabraz, mesmo em um cenário de crescimento do consumo e das vendas do setor.

Para Yamashita, a aparente contradição precisa ser analisada por duas perspectivas: receitas e despesas. De um lado, indicadores como emprego e renda mostram desempenho favorável; de outro, uma parcela relevante desses recursos não está chegando ao caixa das varejistas.

Renda esbarra na inadimplência

Segundo Yamashita, apesar de o país registrar desemprego em níveis baixos, crescimento da massa salarial e avanço da renda, o aumento do poder aquisitivo não necessariamente está sendo convertido em novas compras.

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Esse crescimento de renda do consumidor não está chegando no varejo. Essa renda está indo para outros lugares”, explicou. Na avaliação do executivo, o mercado entende que uma parcela importante desses recursos está sendo direcionada para o pagamento de dívidas, embora ainda seja difícil mensurar exatamente esse movimento.

O quadro é agravado pelo elevado número de consumidores com pagamentos em atraso. “São 84 milhões de brasileiros inadimplentes. Não são endividados, são inadimplentes”, ressaltou Yamashita, destacando que essas pessoas já possuem obrigações vencidas com pelo menos uma empresa.

Segundo ele, esse contingente corresponde a aproximadamente 45% da população economicamente ativa. “Metade das pessoas que poderiam consumir estão fora do mercado de consumo. Então essa renda não está chegando nas redes varejistas”, afirmou.

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Juros pesam sobre empresas

Do lado das despesas, Yamashita apontou o endividamento e o custo financeiro como componentes importantes da crise enfrentada por algumas companhias. Parte das varejistas aumentou suas dívidas durante a pandemia, seja para financiar planos de expansão, seja para sustentar as operações no período posterior.

Com a permanência dos juros elevados por um período mais prolongado, porém, essas obrigações ficaram mais difíceis de administrar. “O custo financeiro dessas empresas tem ficado cada vez mais difícil de ser pago”, pontuou.

Além desse fator, cada segmento enfrenta desafios próprios. Enquanto setores como farmácias, supermercados e atacarejos estão mais protegidos de determinadas pressões competitivas, empresas ligadas a móveis, eletrodomésticos e eletroeletrônicos convivem com uma dinâmica diferente.

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Yamashita avaliou que Casas Bahia e Marabraz sofrem uma influência menor da entrada de grandes grupos internacionais no Brasil do que outros segmentos do varejo. Ainda assim, há uma transformação estrutural importante na maneira como esses produtos são comercializados.

O comércio eletrônico, de uma maneira geral, já representa mais de 60% das vendas desses segmentos”, afirmou. Segundo ele, trata-se de um mercado bastante comoditizado e submetido a uma forte pressão sobre as margens, fator que também contribui para agravar as dificuldades financeiras das empresas.

Recuperação exige decisões difíceis

Apesar da dimensão das dívidas e dos problemas enfrentados pelas companhias, Yamashita considera que uma recuperação é possível. Ele ressaltou que a recuperação judicial não equivale à falência, mas funciona justamente como um mecanismo para dar à empresa condições de reorganizar suas obrigações.

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Sempre é reversível. Tanto é que o processo de recuperação judicial serve exatamente para isso”, explicou. Segundo Yamashita, o procedimento permite que a companhia tenha tempo para se reorganizar e apresentar aos credores um plano para o pagamento das dívidas.

O caminho, porém, pode exigir medidas duras. “É preciso cortar na carne, é preciso tomar uma série de decisões, de novo, impopulares, para reverter a situação da companhia”, afirmou. Ele lembrou que há empresas que conseguem concluir a recuperação judicial e retomar suas atividades em melhores condições, enquanto outras não conseguem superar o processo.

E-commerce não elimina papel das lojas

No caso específico dos eletroeletrônicos, Yamashita considera o e-commerce uma variável decisiva, principalmente porque produtos como geladeiras e outros eletrodomésticos podem ser facilmente comparados pelo consumidor entre diferentes lojas e plataformas digitais.

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A mesma geladeira que você encontra na loja, você encontra online, pode pesquisar preço e muitas vezes com o mesmo nível de serviço”, explicou. Ainda assim, isso não significa que as lojas físicas estejam necessariamente destinadas a desaparecer.

Segundo Yamashita, algumas das empresas que lideram o mercado de eletroeletrônicos utilizam justamente sua estrutura física como vantagem competitiva para apoiar as operações digitais. As unidades podem contribuir para melhorar o serviço e reduzir os custos logísticos associados ao comércio eletrônico.

Essa sinergia de canal digital com lojas físicas tem se mostrado a fórmula ideal neste momento do desejo do consumidor, tanto no Brasil quanto fora do Brasil”, concluiu Yamashita.

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