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Ninguém mais quer data centers de IA na Terra; será que faz sentido no espaço?

Publicado 21/06/2026 • 11:07 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • IPO da SpaceX levanta US$ 85,7 bilhões e torna viável a ideia de data centers de IA no espaço
  • Bezos, Google e startups como Starcloud e Rocket Lab disputam corrida por infraestrutura orbital
  • Pressão regulatória e ambiental contra data centers na Terra reforça argumento a favor do espaço
data center

Leah Millis | Reuters

Imagem ilustrativa. Data Center de Realidade Digital em Ashburn, Virgínia, EUA, 17 de março de 2025.

O sucesso do IPO da SpaceX, que levantou US$ 85,7 bilhões e tornou Elon Musk o primeiro trilionário do mundo, devolve fôlego a uma ideia até pouco tempo vista com ceticismo pelo mercado, a construção de data centers de inteligência artificial no espaço. Segundo análise da CNBC, embora ainda existam desafios econômicos relevantes, os avanços de engenharia e o novo capital disponível aproximam o conceito da viabilidade.

Atualmente, a SpaceX reúne foguetes reutilizáveis Falcon, a xAI com demanda crescente por capacidade computacional e a rede de satélites Starlink, capaz de receber atualizações. Juntas, essas peças formam a base para abastecer as operações internas de inteligência artificial da empresa e também oferecer serviços comerciais a clientes como a Anthropic.

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Capital do IPO reabre debate sobre data centers no espaço

Para o investidor Duncan Davidson, sócio da Bullpen Capital, a tese de longo prazo da SpaceX está diretamente ligada à instalação de data centers em órbita. Davidson, cujo fundo não investe diretamente na SpaceX mas tem participação indireta na Starcloud, afirma que os desafios técnicos estão sendo resolvidos, embora a equação econômica ainda seja apertada no momento atual.

Conforme o executivo, o cenário tende a mudar com a queda dos custos de lançamento e o encarecimento progressivo da operação de data centers na Terra. Musk já afirmou que o foguete Starship, se entrar em operação no próximo ano, deve reduzir significativamente os custos de lançamento, embora a CNBC ressalte o histórico de atrasos do empresário em cumprir prazos anunciados.

Em janeiro, a SpaceX protocolou pedido à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) para uma constelação de até um milhão de satélites, que serviria de base para um data center orbital de inteligência artificial. Os chamados satélites AI1 seriam versões aprimoradas dos atuais satélites Starlink, demandando uma quantidade ainda maior de semicondutores. Para sustentar essa escala, SpaceX, Tesla e Intel firmaram parceria na Terafab, fábrica de mais de 900 mil metros quadrados em construção em Austin, no Texas, com previsão de abertura em 2029 e custo estimado de até US$ 119 bilhões.

Bezos e Google também disputam corrida espacial

Enquanto isso, Jeff Bezos, fundador da Amazon, também demonstra interesse no tema através da Blue Origin e da Prometheus, suas empresas de foguetes e inteligência artificial. Em entrevista à CNBC no mês passado, o empresário classificou a construção de data centers no espaço como realista, embora tenha questionado prazos mais otimistas de dois a três anos divulgados pelo mercado.

Já em março, a Blue Origin submeteu à FCC um plano para lançar 51,6 mil satélites de data center em órbita baixa da Terra, como parte do programa Project Sunrise. A constelação, batizada de TeraWave, deve iniciar sua implementação no quarto trimestre de 2027.

Por sua vez, o Google entrou na disputa por meio de parceria com a fabricante de satélites de observação Planet Labs, no projeto Suncatcher, com a SpaceX como possível parceira de lançamento. Um estudo da própria companhia projeta que o custo de lançamento pode cair para menos de US$ 200 por quilo até a metade da próxima década, tornando a operação de data centers orbitais comparável, em termos de custo energético por quilowatt ao ano, à de data centers terrestres equivalentes.

Startups testam infraestrutura para o espaço

Fora do universo das gigantes de tecnologia, startups também buscam espaço nesse mercado. A Starcloud já enviou uma GPU H100 da Nvidia a bordo de um satélite de teste lançado por um foguete Falcon 9. Segundo Will Marshall, CEO da empresa, sair da Terra elimina a disputa por água e energia elétrica nas comunidades locais.

A companhia trabalha ainda com a Rendezvous Robotics, especializada em sistemas modulares que se montam de forma autônoma no espaço, para gerar energia aos data centers orbitais. Joe Landon, presidente da Rendezvous, afirma que suas estruturas já passaram por três testes, um em voo da New Shepard, da Blue Origin, e dois a bordo da Estação Espacial Internacional, com nova rodada prevista para ainda este ano.

Já a Rocket Lab, fundada em 2006 pelo engenheiro autodidata Peter Beck, lançou quase 90 satélites próprios para clientes como a Nasa e a Força Espacial dos Estados Unidos, e desenvolve o foguete reutilizável Neutron para competir nesse mercado emergente, ainda que em escala menor que a SpaceX. Segundo o diretor financeiro Adam Spice, a empresa prefere transformar clientes em locatários de infraestrutura própria a ajudá-los a construir capacidade própria.

Outra entrante é a Cowboy Space, fundada em 2024 pelo cofundador da Robinhood, Baiju Bhatt, sob o nome original de Aetherflux, que desenvolve internamente tanto os foguetes quanto a infraestrutura de data center. Segundo Bhatt, o diferencial da empresa é usar o segundo estágio do próprio foguete como satélite de data center.

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Barreiras regulatórias na Terra reforçam tese do espaço

De acordo com Mark Weinzierl, economista de Harvard que estuda negócios espaciais há cerca de uma década, a pergunta central permanece sem resposta definitiva, a de saber se ainda é mais barato manter a operação na Terra. Para o pesquisador, nenhum dos modelos de negócio analisados hoje se mostra competitivo em custo frente à infraestrutura terrestre.

Ainda assim, Weinzierl considera razoável projetar um cenário em que os custos da operação terrestre subam progressivamente, enquanto os custos da operação espacial caiam, até o ponto em que as duas curvas se cruzem. Esse raciocínio depende, contudo, de premissas sobre tendências futuras que ainda não estão garantidas.

Soma-se a isso o crescimento das restrições regulatórias, ambientais e políticas contra data centers na Terra. Mais de 100 propostas de moratória já tramitam em níveis municipal, estadual e federal nos Estados Unidos. Uma pesquisa da Heatmap News, realizada em maio, mostrou que sete em cada dez americanos se opõem à construção de um data center perto de onde moram, número que era de quatro em cada dez em agosto do ano passado. Um estudo da First Street, empresa de análise de risco climático, também aponta que 79% da capacidade de data centers no país enfrenta risco elevado a eventos climáticos extremos.

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