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Ícone de gerações, Duralex está em crise: veja quem são os três investidores que querem comprar a fabricante francesa de louças
Publicado 08/08/2026 • 12:04 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 08/08/2026 • 12:04 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
Por Jacek Halicki - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=134633926
Xícaras Duralex
Poucas marcas francesas transformaram um produto tão cotidiano em símbolo nacional como a Duralex. Fundada em 1945, a fabricante tornou seus copos de vidro temperado reconhecidos dentro e fora da França e construiu, ao longo de oito décadas, uma marca associada à resistência, ao design simples e à produção industrial francesa.
Agora, esse patrimônio está novamente em disputa.
Em recuperação judicial desde junho, a Duralex recebeu três propostas para assumir suas operações. Na corrida estão Cédric Meston, por meio da holding Tomé; o grupo industrial Carlesimo; e a AA Investments, empresa sediada em Hong Kong.
O processo reúne três perfis diferentes de compradores, mas com algo em comum: todos têm experiência ou interesse em ativos que atravessam processos de transformação, reestruturação ou dificuldades financeiras.
Na América do Sul, a marca Duralex pertence à Nadir Figueiredo, fabricante brasileira com mais de um século de atuação no mercado de louças e utensílios domésticos. A empresa assumiu os direitos da marca em 2011, ao comprar a Vidraria Santa Marina, que também trouxe ao portfólio a Marinex.
Em 2019, a Nadir Figueiredo foi vendida ao fundo americano HIG Capital, negócio avaliado em R$ 836 milhões. A operação brasileira funciona de forma independente da fábrica francesa, e a nova recuperação judicial na França não tem efeito direto sobre a produção e a venda da marca no Brasil.
Depois de descontinuada em 2012, a linha âmbar da Duralex, aquela dos pratos e copos marrons presentes em cozinhas brasileiras entre as décadas de 1980 e 1990, virou peça de colecionador. Em plataformas de e-commerce, unidades avulsas do modelo chegam a ultrapassar R$ 400, e kits completos com pratos, xícaras e travessas alcançam valores ainda mais altos, movidos pelo apelo nostálgico e pela escassez do produto fora de linha.
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Em junho, a Duralex voltou à recuperação judicial. Agora, a companhia entra na etapa decisiva da busca por um novo controlador.
Os três candidatos já apresentaram propostas, mas a disputa permanece aberta. O prazo para entrega de novas ofertas ou aprimoramento dos projetos existentes foi prorrogado até 11 de setembro. Em seguida, no dia 17 de setembro, o Tribunal de Comércio de Orléans deverá realizar uma audiência para analisar as propostas de aquisição.
Até lá, os interessados poderão ajustar seus planos de financiamento, investimentos e continuidade da operação. Para a Justiça, a escolha não envolve apenas o valor oferecido pela companhia, mas também a viabilidade do projeto de recuperação, a capacidade de financiar a operação e as perspectivas de preservação da atividade industrial e dos empregos.
A situação cria um paradoxo que ajuda a explicar a própria disputa: a Duralex continua vendendo e mantém uma marca reconhecida internacionalmente, mas não conseguiu gerar caixa suficiente para sustentar uma operação industrial que exige capital e investimentos constantes.
É nesse cenário que Meston, Carlesimo e AA Investments apresentam três estratégias diferentes para tentar recuperar o negócio.
Entre os interessados, Cédric Meston possui o histórico mais diretamente relacionado à recuperação de marcas de consumo.
Cofundador da empresa de alimentos vegetais HappyVore, Meston passou nos últimos anos a concentrar parte de sua atuação na compra e recuperação de empresas em dificuldade.
A operação mais conhecida ocorreu com a Tupperware France.
Em março de 2025, Meston e seus sócios assumiram a operação francesa da marca depois da quebra da controladora americana. A estratégia envolveu relançar as vendas, fortalecer o comércio eletrônico e combinar a tradicional venda direta da Tupperware com uma distribuição multicanal.
O empresário também comanda o Groupe Revive, que se apresenta justamente como uma estrutura dedicada à retomada e transformação de empresas. Seu portfólio inclui companhias adquiridas em processos de dificuldade financeira, como Jay&Joy e Bluedigo.
A Duralex, portanto, representaria uma aposta familiar à estratégia de Meston: comprar uma marca conhecida antes que seus problemas financeiros destruam o valor comercial construído ao longo de décadas.
Há ainda uma proximidade de mercado evidente. Assim como a Tupperware, a Duralex está presente no universo da cozinha e dos artigos para casa e possui uma relação de reconhecimento que vai além do produto vendido.
Se Meston chega associado à recuperação de marcas, o grupo Carlesimo tem um perfil essencialmente industrial.
Criada em 2016 e comandada por Jonathan Carlesimo, a holding francesa é especializada na aquisição e desenvolvimento de pequenas e médias empresas industriais, especialmente nos segmentos de fundição, caldeiraria e transformação de metais.
O grupo vem ampliando seu portfólio por meio da compra de empresas industriais e também atua em situações de reorganização e recuperação de negócios.
Carlesimo já conhece a Duralex.
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Siga o Times | CNBCO grupo apresentou uma proposta pela fabricante em 2024, quando o tribunal acabou escolhendo o projeto de cooperativa dos funcionários. Dois anos depois, Jonathan Carlesimo voltou à disputa e afirmou estar disposto a colocar mais de € 5 milhões em recursos próprios na operação.
Seu interesse ajuda a destacar um ativo da Duralex que vai além da marca: a fábrica.
Uma indústria de vidro exige instalações, fornos, equipamentos, técnicos especializados e conhecimento de produção. Construir essa estrutura do zero demanda tempo e grandes volumes de capital.
Para um grupo acostumado a recuperar operações industriais, portanto, o valor pode estar em assumir uma capacidade produtiva já instalada e tentar torná-la mais eficiente.
A AA Investments, ligada à família Goshayeshi e sediada em Hong Kong, chega com um histórico diferente: o de comprador recorrente de empresas de consumo que enfrentam dificuldades.
Nos últimos anos, a companhia adquiriu negócios como Smallable, Wethenew, L’Exception, Bazarchic e Françoise Saget.
Em maio, acrescentou à lista uma marca particularmente relevante para entender seu interesse pela Duralex: a Bouchara.
Fundada em 1899, a tradicional rede francesa de artigos para casa e decoração estava em recuperação judicial quando a Justiça aprovou a proposta da AA Investments.
O plano não consistiu apenas em colocar dinheiro na estrutura existente. A companhia propôs manter 25 das 52 lojas da Bouchara, rever o posicionamento da oferta e fortalecer áreas como comunicação e comércio eletrônico.
É uma amostra da lógica utilizada por compradores especializados em ativos problemáticos: preservar aquilo que ainda gera valor e redesenhar as partes do modelo de negócio que deixaram de funcionar.
A aquisição da Duralex ampliaria essa estratégia para uma empresa que reúne duas características valiosas: uma marca internacional de consumo e uma operação industrial própria.
Uma empresa em recuperação judicial pode parecer, à primeira vista, um negócio pouco atraente. Para investidores especializados, porém, a análise é diferente.
O que importa é saber quanto ainda valem os ativos da companhia em relação ao preço, aos problemas e ao capital necessário para recuperá-la.
Empresas em crise podem conservar ativos que custariam anos e grandes investimentos para serem construídos do zero: marcas reconhecidas, clientes, canais de distribuição, fábricas, equipamentos, profissionais especializados e conhecimento acumulado.
A dificuldade financeira pode também reduzir o valor pelo qual esses ativos são negociados. Se o comprador acredita que consegue corrigir problemas de gestão, custos, estrutura de capital ou estratégia comercial, a diferença entre o valor pago e o potencial futuro do negócio passa a ser a oportunidade.
É o princípio por trás do chamado distressed M&A, mercado de fusões e aquisições envolvendo companhias em dificuldades.
Mas há uma diferença importante entre comprar uma empresa simplesmente barata e encontrar um ativo subvalorizado.
No caso da Duralex, os números comerciais ajudam a explicar por que existe uma disputa.
A fabricante cresceu 7% de faturamento em 2025. Mesmo depois de voltar à recuperação judicial, a direção informou que o orçamento comercial de 2026 continuava sendo cumprido e apontou aceleração das vendas em junho e julho, além da abertura de novos mercados internacionais.
O problema central não parece ser a ausência de consumidores.
A companhia enfrenta uma combinação mais complexa: falta de capital, pressão sobre o caixa, custos industriais elevados e uma fábrica que acumulou décadas de necessidade de investimentos. A própria empresa já reconheceu a necessidade de modernizar máquinas, desenvolver novos moldes e, nos próximos anos, substituir seu forno.
Para quem analisa uma possível aquisição, portanto, a pergunta é objetiva: o valor da marca, da fábrica e do mercado da Duralex é maior do que o dinheiro necessário para recuperá-los?
Cada candidato parece responder a essa pergunta de uma maneira.
Meston chega com experiência na recuperação de marcas e modelos comerciais. Carlesimo traz a lógica da reestruturação industrial. A AA Investments acumula aquisições de empresas de consumo em dificuldade.
Agora, caberá à Justiça francesa decidir qual dessas estratégias oferece o projeto mais viável para uma marca que sobreviveu a sucessivas crises, mas ainda precisa provar que sua força junto ao consumidor pode novamente se transformar em um negócio rentável.
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