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70 das 76 ações do Ibovespa operam em queda neste pregão; somente as exportadoras apresentam ganhos

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‘Reprecificação completa do mercado financeiro’, diz Felipe Corleta sobre queda da bolsa e circuit breaker

Publicado 26/10/2026 • 12:40 | Atualizado menos de um minuto

KEY POINTS

  • Ibovespa despenca 17% após a reeleição de Lula e aciona o "circuit breaker" diante da forte pressão vendedora.
  • Felipe Corleta afirma que a surpresa eleitoral provocou uma revisão das expectativas para juros, câmbio e inflação, pressionando principalmente empresas ligadas ao mercado doméstico.
  • Analista prevê volatilidade nos próximos pregões e avalia que a recuperação da bolsa dependerá de sinais de responsabilidade fiscal e da definição da equipe econômica.

A Bolsa brasileira registrou uma queda de aproximadamente 17% nesta segunda-feira (26), após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Ibovespa chegou à região dos 169 mil pontos, em meio a uma forte pressão vendedora que provocou a suspensão temporária das negociações logo no início do pregão.

O mecanismo de proteção conhecido como “circuit breaker” foi acionado três minutos depois da abertura, interrompendo as operações por 30 minutos. Após a paralisação, as negociações foram retomadas, mas o mercado continuou apresentando perdas expressivas.

Em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Felipe Corleta, sócio da Brasil Wolf, explicou que a reação está relacionada à necessidade de os investidores revisarem suas expectativas para a economia brasileira diante de um resultado eleitoral que contrariou as projeções predominantes no mercado financeiro.

“O que está acontecendo é uma reprecificação completa do mercado financeiro”, afirmou Corleta, ao destacar que os investidores trabalhavam majoritariamente com a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro e de uma mudança na condução da política fiscal.

Resultado eleitoral provoca revisão das expectativas

Segundo Corleta, a reeleição de Lula, com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, surpreendeu investidores que haviam organizado suas posições com base em pesquisas eleitorais e modelos de previsão.

O analista classificou o resultado como um evento de “cisne negro”, expressão utilizada no mercado financeiro para descrever acontecimentos inesperados e de grande impacto. A mudança de cenário levou investidores a vender ações brasileiras, pressionando os preços de diferentes ativos. O movimento também atingiu o câmbio e as expectativas para as taxas de juros nos próximos anos.

De acordo com Corleta, a intensidade das vendas reflete não apenas a revisão das perspectivas econômicas, mas também um desequilíbrio momentâneo entre compradores e vendedores. “Você tem muito mais gente querendo vender do que comprar no dia de hoje”, explicou.

O impacto também foi observado nos ativos brasileiros negociados no exterior. Às 6h50, o fundo iShares MSCI Brazil, listado nos Estados Unidos, apresentava queda de 27%. Já o dólar futuro havia alcançado R$ 5,55 em Chicago na noite de domingo (25).

Leia também: Bolsa retoma negociações após acionar circuit breaker na abertura e indica queda de 17%, a 169 mil pontos

Circuit breaker tenta conter movimentos extremos

A interrupção das negociações pela Bolsa ocorreu diante da velocidade e da intensidade da desvalorização do Ibovespa. Corleta explicou que a bolsa possui mecanismos para suspender temporariamente as operações quando o índice de referência apresenta oscilações acentuadas.

A Bolsa alterou excepcionalmente os limites de acionamento do mecanismo nesta segunda-feira. Pelas condições estabelecidas, uma queda de 15% provocaria a primeira interrupção, enquanto uma desvalorização de 20% poderia levar a uma nova suspensão. O objetivo da medida é permitir que os participantes do mercado reavaliem suas posições antes da continuidade das negociações.

A paralisação atingiu ações, opções vinculadas a ações, certificados de ações estrangeiras, índices e fundos negociados em bolsa, entre outros ativos.

Empresas exportadoras resistem melhor à queda

Apesar das perdas generalizadas, a reação das ações variou de acordo com a atividade econômica e a exposição de cada companhia ao dólar e aos juros. Empresas exportadoras, como Vale, Suzano e Gerdau, apresentaram desempenho relativamente mais favorável. Algumas delas registraram valorização de dois dígitos durante o pregão.

Corleta explicou que companhias com receitas em moeda estrangeira podem se beneficiar da alta do dólar, uma vez que seus faturamentos externos passam a representar valores maiores quando convertidos para reais.

No caso da Vale, por exemplo, uma venda de minério de ferro por US$ 100, que anteriormente equivaleria a cerca de R$ 500, passaria a representar aproximadamente R$ 560 com a valorização da moeda americana utilizada na comparação.

“Você tem diferentes setores da economia representados na bolsa de valores”, explicou o analista, ao destacar que cada atividade responde de maneira distinta às mudanças no câmbio, nos juros e nos preços das commodities.

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A Gerdau também apresenta exposição relevante ao mercado internacional, com mais da metade de seu lucro proveniente de operações fora do Brasil, segundo Corleta. Além dos fundamentos das companhias, a procura dos investidores por empresas exportadoras contribuiu para ampliar a diferença de desempenho entre os setores.

Varejo, construção e indústria enfrentam pressão dos juros

Na outra ponta, empresas ligadas ao consumo doméstico e mais dependentes de financiamento sofreram desvalorizações expressivas. Entre os segmentos mais sensíveis estão varejo, construção civil, indústria e locação de veículos. Esses setores dependem diretamente das condições de crédito, do custo do capital e das expectativas para a taxa básica de juros.

Corleta relatou movimentos de aproximadamente 280 a 300 pontos-base na curva de juros em um único dia, uma oscilação que afirmou não ter observado em mais de 15 anos acompanhando o mercado. A alta das taxas projetadas aumenta o custo de financiamento das empresas e pode reduzir a demanda por produtos e serviços.

No varejo, por exemplo, os juros elevados encarecem a manutenção de estoques e o financiamento das vendas. Na construção civil, afetam tanto os recursos necessários às obras quanto o crédito disponível aos compradores de imóveis.

O analista também mencionou que algumas empresas de menor valor de mercado, conhecidas como “small caps”, registravam perdas entre 50% e 70%. Em meio à instabilidade, o Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e de papéis vinculados à inflação previstos para o dia seguinte, de acordo com as informações apresentadas na entrevista.

Banco Central pode intervir no dólar?

A possibilidade de atuação do Banco Central no mercado cambial também foi abordada durante a entrevista. Corleta explicou que a autoridade monetária costuma realizar intervenções quando identifica problemas de liquidez ou funcionamento do mercado, e não necessariamente para estabelecer um valor específico para o dólar.

Segundo ele, a valorização da moeda americana observada após a eleição estaria mais relacionada à revisão das perspectivas econômicas do que a uma falha de funcionamento do mercado. “Não sei se o Banco Central vai entrar no dólar hoje. Pode ser que entre”, afirmou.

O analista ponderou, no entanto, que uma eventual intervenção teria capacidade limitada de modificar a trajetória do câmbio caso as expectativas dos investidores permanecessem desfavoráveis.

Política fiscal será decisiva para recuperar a confiança

Na avaliação de Corleta, a principal medida que o governo poderá adotar para reduzir a instabilidade é apresentar compromissos claros com o controle das contas públicas. O analista argumentou que as preocupações com a trajetória da dívida pública, os gastos governamentais e a inflação influenciam diretamente as expectativas para a taxa Selic.

Juros elevados, por sua vez, aumentam as despesas financeiras das companhias e tornam os investimentos em renda fixa mais atraentes em comparação com o mercado acionário. Para Corleta, o governo precisará demonstrar que é possível manter uma trajetória de responsabilidade fiscal mesmo sem a mudança de orientação econômica esperada por parte dos investidores.

O desafio também envolve compatibilizar as propostas apresentadas durante a campanha eleitoral com as restrições do arcabouço fiscal. O analista considera que uma sinalização de disciplina nas contas públicas teria maior capacidade de influenciar positivamente as expectativas do que medidas pontuais de compra de ações ou venda de reservas cambiais.

“É uma crise de confiança, e o governo vai ter que, de alguma forma, tentar reconquistar essa confiança do mercado”, afirmou.

Ministério da Fazenda entra no centro das atenções

A formação da equipe econômica do próximo mandato será outro fator acompanhado pelos investidores. Corleta apontou a permanência de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda como seu cenário mais provável.

Outros nomes, como Geraldo Alckmin e o ex-presidente do Bradesco Luiz Carlos Trabuco, também são cotados para comandar a pasta. O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, também estaria sendo cogitado para o ministério.

O analista também comparou o momento atual à reeleição de Dilma Rousseff em 2014, quando Joaquim Levy foi escolhido para comandar a Fazenda em uma tentativa de melhorar a relação com o mercado financeiro. Para Corleta, entretanto, a escolha de um ministro não seria suficiente sem autonomia para implementar medidas econômicas.

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