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Ameaça de tarifas dos EUA amplia incerteza e pressiona projeções para dólar, inflação e juros

Publicado 08/06/2026 • 23:30 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Segundo o economista Rodolfo Tobler, a principal consequência imediata é o aumento da incerteza, que reduz o apetite por investimentos e encarece o custo de captação para o país.
  • Os setores mais expostos às tarifas são os ligados à indústria de transformação, enquanto produtos considerados estratégicos para a economia americana ficaram fora das listas preliminares de sobretaxação.
  • O aumento do risco tende a fortalecer o dólar, pressionar a inflação e dificultar cortes na Selic, contribuindo para a piora das projeções econômicas para 2026 e 2027.

A possibilidade de uma nova rodada de tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros já produz efeitos sobre as expectativas econômicas, mesmo antes de qualquer medida ser efetivamente implementada. Para o economista Rodolfo Tobler, do Movimento Brasil Competitivo, o principal impacto imediato não está nas tarifas em si, mas no aumento da incerteza sobre as relações comerciais entre os dois países, fator que tende a elevar o prêmio de risco exigido por investidores e pressionar indicadores como dólar, inflação e juros.

Em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ele afirmou que o ambiente de instabilidade já gera custos para a economia brasileira. Segundo ele, o aumento do risco percebido pelos investidores reduz o apetite por novos investimentos e dificulta a atração de capital estrangeiro.

“Mesmo que se consiga negociar e rever tarifas, a gente já está observando um custo. Quando começamos a ter um ambiente de elevada incerteza, isso acaba sendo bastante negativo. O empresário fica mais cauteloso e o investidor estrangeiro passa a exigir um prêmio de risco maior para investir no Brasil”, afirmou.

O debate ganhou força após propostas apresentadas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que sugeriram sobretaxas de 25% sobre determinados produtos brasileiros, além de uma segunda proposta que poderia acrescentar mais 12,5%. Embora as medidas ainda não tenham sido oficialmente adotadas pela Casa Branca, a simples possibilidade de sua implementação já afeta as projeções do mercado.

Segundo Tobler, os setores mais vulneráveis seriam os ligados à indústria de transformação, especialmente aqueles que ficaram fora da lista preliminar de exceções elaborada pelos americanos. Produtos como café, suco de laranja, carne, celulose, derivados de petróleo e componentes aeronáuticos foram poupados das propostas iniciais por terem relevância para a própria economia dos Estados Unidos.

“A indústria de transformação brasileira acaba sendo a principal impactada pelos efeitos diretos das tarifas. Os produtos que ficaram de fora da lista são justamente aqueles que têm importância estratégica para os americanos e que não são facilmente substituíveis”, explicou.

Para o economista, porém, os impactos indiretos podem ser ainda mais relevantes do que as próprias tarifas. A manutenção de um ambiente de dúvidas sobre as regras comerciais afeta decisões de investimento, reduz competitividade e amplia dificuldades já enfrentadas pela economia brasileira.

“Não são apenas os setores atingidos diretamente que sofrem. Todo esse ruído gera instabilidade e afeta a competitividade de maneira geral. O Brasil já convive há décadas com custos estruturais elevados e parte de uma posição mais delicada”, disse.

O tema ganhou ainda mais relevância após a divulgação do Boletim Focus desta segunda-feira, que mostrou piora das projeções para inflação, dólar e taxa Selic nos próximos anos. Na avaliação de Tobler, o cenário externo se soma a fragilidades domésticas, como a dificuldade de ajuste fiscal e a persistência das pressões inflacionárias.

“O Brasil vem crescendo, mas ainda enfrenta desafios importantes nas contas públicas. Já era esperado que 2026 e 2027 exigissem novos ajustes fiscais. Esse contexto limita o espaço para uma queda mais consistente dos juros”, afirmou.

O economista também destacou que o fortalecimento do dólar pode se tornar um dos principais canais de transmissão dos impactos das tensões comerciais. Segundo ele, o aumento da percepção de risco tende a valorizar a moeda americana, o que acaba pressionando os preços internos.

“Quando o prêmio de risco sobe, o dólar tende a ficar mais caro. E, se essa alta se mantém por um período prolongado, ela acaba sendo repassada para a inflação. Isso leva o Banco Central a adotar uma postura mais cautelosa na redução dos juros”, explicou.

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Para Tobler, as recentes ameaças tarifárias não são o único fator por trás da deterioração das expectativas econômicas, mas contribuem para tornar o cenário mais desafiador.

“Se compararmos com janeiro, a expectativa para o cenário macroeconômico hoje é claramente pior. E as notícias da última semana não ajudam. Pelo contrário, adicionam mais pressão a um ambiente que já era complexo”, concluiu.

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