A 81ª Assembleia Geral começa em meio à paralisia do Conselho de Segurança, dificuldades financeiras e guerras prolongadas, ampliando a pressão por reformas na organização.
Com António Guterres deixando a secretaria-geral no fim de 2026, cresce a disputa por seu sucessor e a pressão pela escolha da primeira mulher para comandar a ONU.
O presidente abre o Debate Geral nesta terça-feira e deve falar de soberania, democracia, comércio e multilateralismo, em uma fala com repercussão também na reta final da eleição brasileira.
RICHARD DREW/ASSOCIATED PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa na 80ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York, nesta terça-feira, 23 de setembro de 2025.
A 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas começa nesta terça-feira (22), em Nova York, em um cenário de pressão sobre a capacidade da organização de responder às principais crises internacionais. Guerras prolongadas, dificuldades financeiras e divergências entre as grandes potências evidenciam os limites do sistema multilateral e intensificam o debate sobre reformas na ONU.
A reunião também ocorre às vésperas de uma mudança importante na cúpula da organização. António Guterres deixará a Secretaria-Geral no fim de 2026, e a disputa por seu sucessor já mobiliza governos e integrantes do Conselho de Segurança.
Nesse contexto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará o tradicional discurso de abertura do Debate Geral. A expectativa é que trate de soberania, democracia, comércio internacional, combate ao crime organizado transnacional e defesa do multilateralismo. Os dois primeiros temas também têm peso na campanha pela reeleição, em que Lula enfrenta o senador Flávio Bolsonaro (PL).
A Assembleia começa em um momento de desgaste institucional. O Conselho de Segurança enfrenta dificuldades para produzir consensos em guerras como as da Ucrânia e do Oriente Médio, principalmente por causa das divergências entre seus cinco integrantes permanentes.
Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido têm poder de veto, o que permite a cada um deles bloquear decisões mesmo quando há apoio da maioria dos demais membros. Na prática, esse mecanismo tem limitado a capacidade do conselho de avançar em medidas sobre crises que envolvem diretamente os interesses das grandes potências.
Ao impasse político soma-se a situação financeira da organização. A ONU enfrenta restrições orçamentárias enquanto mantém missões internacionais, operações humanitárias e uma ampla rede de agências.
Esse conjunto de problemas deve reforçar, ao longo da Assembleia, as discussões sobre mudanças na governança da instituição e sobre a capacidade do sistema multilateral de responder a conflitos, disputas comerciais e crises humanitárias.
Sucessão de Guterres entra no centro das articulações
António Guterres deixará o cargo de secretário-geral no fim de 2026. A proximidade do fim do mandato já levou a disputa sucessória ao centro das negociações diplomáticas em Nova York. Há pressão para que a ONU escolha pela primeira vez uma mulher para a Secretaria-Geral, com atenção especial às candidaturas da América Latina e do Caribe.
Entre os nomes que aparecem com maior força estão a costa-riquenha Rebeca Grynspan, que comanda a agência de comércio e desenvolvimento da ONU, e Carolyn Rodrigues-Birkett, da Guiana. O argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, e o ex-presidente senegalês Macky Sall também estão na disputa.
O cenário mudou após a retirada da ex-presidente chilena Michelle Bachelet. Ela havia recebido apoio de países da região, entre eles Brasil e México, mas deixou a corrida depois de perder sustentação política no Chile e apresentar desempenho mais fraco nas consultas informais do Conselho de Segurança.
A escolha depende diretamente das grandes potências. Para ser recomendado, um candidato precisa obter ao menos nove votos entre os 15 integrantes do Conselho de Segurança e não sofrer veto de nenhum dos cinco membros permanentes. Só depois o nome segue para aprovação da Assembleia Geral.
Lula deve combinar agenda internacional e mensagem política doméstica
O Brasil abre tradicionalmente o Debate Geral, e os Estados Unidos discursam logo em seguida. Lula deve usar a tribuna para defender soberania nacional, instituições democráticas e cooperação internacional, além de tratar de comércio e tarifas.
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A relação com Washington deve aparecer como pano de fundo. O governo brasileiro espera que Lula critique políticas consideradas unilaterais, sem necessariamente citar Donald Trump diretamente.
O presidente também deve abordar, ainda que indiretamente, a preocupação com uma eventual interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro. Em entrevista à imprensa americana, Lula afirmou ter dito a Trump que Washington não deveria intervir na eleição de outubro no Brasil.
A avaliação do governo é que o discurso permita reforçar a defesa do multilateralismo justamente em um momento de maior tensão nas relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos.
Trump fala em meio a desgaste comercial com o Brasil
O discurso de Donald Trump também está entre os mais aguardados da abertura da Assembleia. A expectativa é que o presidente americano reafirme uma política externa centrada nos interesses dos Estados Unidos, com uso de tarifas, pressão econômica e negociações bilaterais como instrumentos de sua estratégia internacional.
Esse posicionamento ganha atenção especial no Brasil por causa da deterioração recente da relação comercial entre os dois países. Tarifas impostas a produtos brasileiros passaram a ocupar lugar central nas conversas entre Brasília e Washington e aumentaram a tensão entre os governos.
Lula esteve em Washington em maio para discutir, entre outros assuntos, uma possível prorrogação dos prazos relacionados às medidas comerciais. A questão deve reaparecer nos discursos desta terça, ainda que de forma indireta.
A proximidade entre as falas também gera expectativa quanto a uma eventual interação entre os dois presidentes. Não há reunião bilateral prevista, mas a sequência dos pronunciamentos — primeiro o Brasil, depois os Estados Unidos — pode facilitar um encontro rápido nos corredores da ONU.
No ano passado, os dois chegaram a conversar brevemente durante a Assembleia.
A relação com Washington também passou a integrar a disputa eleitoral brasileira. Depois da visita de Lula aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro também esteve na Casa Branca. Na ocasião, o governo americano anunciou o enquadramento do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Agenda de Lula em Nova York
Lula chegou a Nova York no domingo (20) para uma passagem curta pelos Estados Unidos. Na segunda-feira, concedeu entrevista à jornalista Christiane Amanpour e manteve encontros com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o senador Bernie Sanders.
Com Orsi, discutiu comércio, infraestrutura, integração regional e regulamentação das apostas online. O governo brasileiro avalia mudanças nas regras do setor e demonstrou interesse em conhecer a experiência uruguaia. Os dois também trataram de desinformação e extremismo político.
Na conversa com Mamdani, Lula abordou pobreza, custo de vida, políticas públicas e democracia, além da proposta de redução da jornada de trabalho em discussão no Congresso brasileiro.
Já no encontro com Sanders, os principais temas foram políticas sociais e cenário eleitoral. Segundo o Itamaraty, o senador afirmou ter interesse em convidar Lula, caso seja reeleito, para falar sobre o Sistema Único de Saúde no Senado dos Estados Unidos em um eventual cenário de avanço dos democratas nas eleições legislativas americanas.
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