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Quando o sucesso adoece: burnout e a servidão da performance
Publicado 23/01/2026 • 12:30 | Atualizado há 3 meses
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Publicado 23/01/2026 • 12:30 | Atualizado há 3 meses
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Cada sociedade tem a loucura que merece, costumava dizer o filósofo francês Michel Foucault. O estatuto do sofrimento mental não pode ser entendido a partir de uma visão descolada da realidade social, o que significa que cada sociedade produz, nas subjetividades de sua época, sofrimentos e olhares muito específicos para esses sofrimentos, em cada tempo e lugar.
Recentemente, foi divulgado o aumento de afastamentos do trabalho por esgotamento, perto de 500% nos últimos quatro anos. É um dado que deve nos chamar a atenção e nos levar a perguntar, à luz da provocação de Foucault, por que nossa sociedade tem produzido de forma tão acentuada esse sofrimento específico.
Desde 2019, o esgotamento no trabalho passou a ser caracterizado como doença ocupacional, passando a figurar entre os pontos de tensão, interesse e debate que envolvem empresas e colaboradores. E, antes de nos apressarmos em associar o aumento dos casos a essa mudança legal, é preciso lembrar que eles ainda hoje são subnotificados. Ou seja, há muita gente sofrendo de esgotamento sem saber do que sofre, sem buscar tratamento ou sem apresentar seus exames ao RH por medo de represálias ou até de perder o emprego, por exemplo.
Existem dois fatores que contribuem para o aumento aterrador desses números e que não podem ser deixados de lado quando buscamos soluções para esses males específicos da nossa sociedade.
Em primeiro lugar estão as mudanças no mundo do trabalho na última década. Nesse campo, destacam-se a introdução de tecnologias digitais e a perda de direitos e garantias por parte dos trabalhadores, em um processo conhecido como precarização. As novas tecnologias transformaram as relações de trabalho, impondo novos padrões de demanda, presença e avaliação. Criaram códigos de conduta e estabeleceram novos modos de relacionamento entre empresas, trabalhadores e consumidores. Mas, sobretudo, a tecnologia tem sido cúmplice no processo de precarização e de perda de garantias.
Em segundo lugar, é preciso olhar com atenção os discursos da performance e do empreendedorismo. Eles não são apenas instrução motivacional ou moda de "coach", mas sinalizam uma nova subjetividade, isto é, vão transformando o olhar que as pessoas têm sobre si e sobre o mundo. Segundo esse discurso, é preciso ser "empresário de si mesmo", enxergar-se e atuar como uma pessoa jurídica que, no entanto, por continuar sendo uma pessoa de carne e osso, ficará sempre aquém das exigências, sempre insuficiente. E, então, o sofrimento está posto. Tanto porque a busca por desempenho e sucesso é extenuante e raramente bem-sucedida, quanto pelos efeitos que esse olhar tem de rebote: frustração e precarização, isolamento dos sujeitos e consequente perda de referências coletivas, fragmentação social e melancolização.
O esgotamento no trabalho recai sobre as pessoas como sintoma de uma sociedade que cresce às custas do consumo de nossa vitalidade psíquica e que transforma a busca por resultados numa espécie de servidão autoimposta.
Pensar qualquer saída para o problema apenas medicalizando o esgotamento no trabalho é tentar adaptar o sujeito ao próprio sistema que o adoeceu. Qualquer solução precisa considerar tanto os avanços médicos quanto os questionamentos mais incômodos e profundos sobre nossas escolhas coletivas. Se nossa sociedade produz esse sofrimento, então assumir a responsabilidade por ele e transformar o que for preciso para combatê-lo talvez seja o remédio mais eficaz e duradouro contra esse mal.
Francisco Nogueira, psicólogo e psicanalista, membro do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e sócio da consultoria Relações Simplificadas.
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