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Brasil deve reequilibrar contas para aproveitar cenário externo favorável, diz economista-chefe da XP

Publicado 01/09/2026 • 15:44 | Atualizado há 49 minutos

KEY POINTS

  • Economista-chefe da XP diz que a combinação entre demanda internacional por produtos brasileiros e uma posição geopolítica relativamente favorável abre espaço para o país.
  • "O mundo hoje quer comprar os produtos que o Brasil produz. O Brasil geopoliticamente está bem posicionado, então acho que a gente tem uma grande oportunidade”
  • Para Megale, a economia brasileira já apresenta sinais de desaceleração em alguns segmentos, mesmo após medidas de estímulo terem sustentado temporariamente a atividade.
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Foto: Divulgação

O Brasil encontra um ambiente internacional que pode favorecer suas exportações e sua posição no comércio global, mas a capacidade de aproveitar esse cenário dependerá do reequilíbrio da economia doméstica. A avaliação é de Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, ex-secretário nacional da Indústria e Comércio e ex-secretário municipal da Fazenda de São Paulo.

Na análise de Megale, a combinação entre demanda internacional por produtos brasileiros e uma posição geopolítica relativamente favorável abre espaço para o país, mas problemas fiscais internos e um cenário mundial de juros elevados podem limitar esse potencial.

“O mundo é volátil, nervoso, tenso, mas favorável ao Brasil. O mundo hoje quer comprar os produtos que o Brasil produz. O Brasil geopoliticamente está bem posicionado, então acho que a gente tem uma grande oportunidade”, afirmou.

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Disputa global por recursos pode manter juros elevados

Entre os principais riscos externos, Megale destacou o aumento dos déficits públicos nas economias desenvolvidas. Segundo ele, governos de países como Estados Unidos, Japão e integrantes da Europa passaram a disputar recursos em um ambiente no qual o setor privado também amplia suas necessidades de financiamento.

Parte dessa demanda adicional está relacionada aos investimentos em inteligência artificial. Na avaliação do economista, a concorrência por capital entre governos e empresas tende a dificultar uma queda mais acentuada dos juros internacionais.

Megale considera que esse movimento pode resultar em juros mais altos por um período prolongado, com reflexos sobre países e empresas. Ele também apontou a possibilidade de pressões inflacionárias no médio prazo, sobretudo diante da resistência de diferentes governos em promover ajustes nas contas públicas.

Estímulos ajudaram recuperação após choques

Ao tratar da economia brasileira, Megale dividiu os últimos anos em duas fases. Na primeira, após a recessão de 2014 a 2016 e, posteriormente, a queda provocada pela pandemia, havia capacidade produtiva ociosa, desemprego elevado, salários pressionados e menor endividamento das famílias.

Nesse contexto, segundo o economista, medidas de transferência de renda e estímulos à demanda contribuíram para acelerar a recuperação. O consumo e o crédito avançaram, enquanto o mercado de trabalho passou a apresentar melhora.

“Naquele instante, fazia sentido, o diagnóstico sugeria impulso do lado da demanda. E isso foi feito. Recomposição dos programas sociais de transferência de renda, depois estímulos para melhorar o mercado de trabalho, taxa de desemprego foi caindo. Esse receituário impulsionou o consumo e o crédito”, afirmou.

Para Megale, esse modelo foi compatível com as condições existentes nos primeiros anos posteriores à pandemia. A atividade econômica também apresentou desempenho superior ao inicialmente projetado em diferentes momentos da recuperação.

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Modelo baseado em consumo teria chegado ao limite

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A avaliação do economista é que a continuidade dos estímulos, porém, passou a produzir efeitos diferentes à medida que a capacidade ociosa diminuiu. Segundo ele, a política econômica deveria ter migrado gradualmente de medidas voltadas à expansão do consumo para iniciativas capazes de elevar a produtividade e a capacidade de crescimento do país.

Megale cita como sinais dessa mudança o avanço da inflação e das importações, o aumento do endividamento e da inadimplência das famílias, além de um mercado de trabalho mais apertado e de maiores custos salariais.

“Nós deveríamos ter ajustado a rota e mudado a trajetória do consumo, da transferência de renda, da expansão fiscal para algo mais estrutural, produtividade, etc. Isso não foi feito. Nós continuamos no mesmo modelo”, declarou.

Nesse ambiente, segundo ele, o Banco Central precisou adotar uma política monetária mais restritiva. Enquanto outras economias avançavam no processo de redução dos juros, o Brasil voltou a elevar a taxa básica para conter pressões sobre preços e demanda.

Desaceleração deve abrir espaço para reequilíbrio

Megale avalia que a economia brasileira já apresenta sinais de desaceleração em alguns segmentos, mesmo após medidas de estímulo terem sustentado temporariamente a atividade. Para ele, esse processo pode funcionar como um período de reorganização das condições econômicas.

A redução do ritmo da demanda, em sua análise, seria necessária para diminuir o endividamento, aliviar pressões inflacionárias e criar condições para uma futura redução dos juros.

“Acho que a gente vai para um processo de freio de arrumação no ano que vem, que tende a ser saudável para diminuir as distorções, permitir ao Banco Central cortar juros e permitir que a economia se reequilibre, desalavanque e volte a crescer de forma sustentável”, afirmou.

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Contas públicas entram no centro do debate

O quadro fiscal é apontado por Megale como uma das principais restrições para os próximos anos. O economista argumenta que o crescimento das despesas obrigatórias tem dificultado a obtenção de resultados fiscais positivos mesmo em um período de arrecadação elevada.

Além do impacto sobre a dívida pública, o desequilíbrio fiscal contribui, segundo ele, para manter elevados os custos de financiamento do governo. O problema ganha peso adicional em um ambiente internacional no qual outros países também demandam volumes expressivos de recursos.

“A necessidade de ajuste fiscal, de reequilíbrio das contas, para que essa dívida se estabilize e, portanto, os impostos não precisem subir mais e não apertem mais a capacidade produtiva da economia, me parece um ingrediente fundamental”, disse.

Na avaliação de Megale, o crescimento registrado nos últimos anos teve papel relevante na recuperação da economia, mas sua continuidade apoiada em expansão fiscal e consumo trouxe novos desequilíbrios. Entre eles, o economista destaca juros elevados e maior pressão tributária.

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