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PIB desacelera e mostra efeito dos juros sobre consumo e indústria

Publicado 01/09/2026 • 16:57 | Atualizado há 43 minutos

KEY POINTS

  • PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, mas composição do resultado mostra perda de força de setores ligados à atividade doméstica.
  • Agropecuária e indústria extrativa, com destaque para o petróleo, ajudaram a sustentar o desempenho da economia no período.
  • Ramon Coser avalia que juros altos já atingem empresas e famílias, mas riscos para a inflação ainda podem limitar cortes da Selic.

O crescimento de 0,5% do PIB brasileiro no segundo trimestre esconde sinais de enfraquecimento da atividade econômica, principalmente no consumo das famílias e em setores da indústria mais sensíveis aos juros, afirmou Ramon Coser, especialista da Valor Investimentos. Para ele, agropecuária e petróleo ajudaram a melhorar o resultado agregado, mas a composição dos dados aponta para uma desaceleração mais disseminada.

Em entrevista nesta terça-feira (1) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Coser afirmou que o resultado ficou acima das expectativas, mas fez uma ressalva sobre a qualidade do crescimento. “O número cheio veio até melhor do que o esperado, mas a composição veio um pouco ruim. A foto ficou legal, o filme não parece ser tão interessante”, disse.

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O PIB avançou 0,5% entre abril e junho, desacelerando em relação ao crescimento de 1,1% registrado nos três primeiros meses de 2026.

Agro e petróleo sustentam resultado

Na avaliação de Coser, o desempenho da agropecuária, favorecido pela safra, voltou a contribuir para a atividade. A indústria extrativa, principalmente por meio da produção de petróleo, também teve papel importante para sustentar o resultado do trimestre.

“O agro mais uma vez puxou para cima, devido a uma boa safra, assim como a parte do petróleo, que foi a indústria extrativa. O petróleo foi um grande colaborador junto com o setor do agro para fazer com que esse número cheio ficasse mais bonito”, explicou.

A preocupação aparece quando são observados outros segmentos da economia. Segundo o especialista, indústria de transformação, construção e serviços de utilidade pública, como energia e saneamento, apresentaram desempenho mais fraco.

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Para Coser, a perda de força desses setores, combinada à pressão sobre o consumo, começa a revelar com maior clareza os efeitos da política monetária restritiva. “O remédio amargo da política monetária, que são as taxas de juros mais altas, está chegando na ponta e fazendo realmente com que o consumo seja impactado de forma negativa”, afirmou.

O comportamento da atividade, segundo ele, deverá ser acompanhado nos próximos indicadores e pode ganhar importância nas próximas decisões do Banco Central sobre a taxa básica de juros.

Emprego pode começar a sentir desaceleração

O mercado de trabalho permaneceu resiliente mesmo durante o período de juros elevados, mas Coser avalia que os efeitos da desaceleração podem começar a atingir o emprego, especialmente diante das dificuldades financeiras enfrentadas pelas empresas.

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“A gente já vê os juros altos incomodando. Cada dia que você literalmente abre o jornal, vê um pedido de recuperação judicial, ou seja, as empresas que empregam mostrando que estão passando por dificuldades. Então isso pode começar a sensibilizar o emprego”, pontuou.

O especialista também chamou atenção para uma combinação que considera preocupante: um mercado de trabalho ainda aquecido convivendo com elevado endividamento das famílias. “É uma coisa que chama atenção, porque, em pleno emprego, as famílias estão endividadas”, destacou.

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Crédito mais acessível também elevou endividamento

Para Coser, os juros não explicam sozinhos o aumento do endividamento. Uma das transformações ocorridas nos últimos anos foi a ampliação do acesso da população ao sistema financeiro, impulsionada pela digitalização bancária e pelo Pix.

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“Da pandemia para cá, nós tivemos uma bancarização muito forte da população brasileira junto com o lançamento do Pix. Todo mundo hoje utiliza o Pix. Para você ter o Pix, tem que ter uma conta em uma instituição financeira”, explicou.

A abertura de contas, segundo ele, também colocou uma parcela maior da população em contato com produtos financeiros antes menos acessíveis. “Quando você tem uma conta em uma instituição financeira, por mais que a pessoa não tenha o score, ela passa a ter acesso a crédito. Pode ser simplesmente um cartão de crédito ou o próprio crédito pessoal que as instituições oferecem”, afirmou.

O crescimento dos bancos digitais ampliou ainda mais esse movimento, mas Coser considera que o acesso ao crédito não foi acompanhado, na mesma proporção, pela educação financeira.

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Nesse contexto, ele também citou o peso das apostas esportivas sobre o orçamento doméstico. “Aí vem uma outra grande questão, que é a educação financeira. A gente vê pessoas, por falta de conscientização, com as próprias bets compondo gastos das famílias no dia a dia. De fato, é muito triste”, ressaltou.

PIB mais fraco ajuda, mas não garante corte de juros

A desaceleração mostrada pelo PIB reforça a percepção de que os juros elevados estão reduzindo o ritmo da economia, mas Coser ponderou que um único indicador não será suficiente para determinar as próximas decisões do Copom.

“O filme já mostra que a gente está numa desaceleração. Isso é fato. Mas o Copom, o Banco Central, não olha apenas um dado. Ele tenta olhar de uma forma mais ampla”, afirmou.

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Segundo o especialista, existe no mercado uma expectativa relevante de redução de 0,25 ponto percentual da taxa de juros em setembro, mas o Banco Central ainda terá de acompanhar a evolução dos próximos indicadores.

Entre os fatores capazes de dificultar uma flexibilização mais rápida da política monetária, Coser mencionou riscos para os preços dos alimentos e do petróleo, especialmente diante das incertezas externas.

“Há outros fatores que podem impactar, como a própria guerra atual, fazendo o preço do petróleo ter uma variação muito forte. São coisas que o Banco Central vai olhar para tomar sua decisão, assim como o comitê”, concluiu.

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