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Contas externas acendem alerta para falta de previsibilidade no Brasil

Publicado 28/08/2026 • 17:41 | Atualizado há 49 minutos

KEY POINTS

  • Igor Lucena avalia que piora das contas externas pode se repetir nos próximos meses e tem caráter estrutural.
  • Superávit comercial e investimento estrangeiro ajudam a sustentar fluxo de dólares, apesar das saídas com serviços e remessas.
  • Reservas internacionais afastam risco imediato de crise cambial, mas economista alerta para necessidade de ajuste fiscal.

A piora das contas externas brasileiras é um sintoma de problemas estruturais da economia e pode continuar nos próximos meses, apesar do superávit da balança comercial e da entrada de investimento estrangeiro, segundo Igor Lucena, economista e doutor em Relações Internacionais. O Brasil registrou déficit de US$ 8,11 bilhões (R$ 42,33 bilhões) em transações correntes em julho, enquanto a balança comercial teve saldo positivo de US$ 6,15 bilhões (R$ 32,10 bilhões).

Em entrevista nesta sexta-feira (28) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Lucena avaliou que as entradas proporcionadas pelo comércio exterior não têm sido suficientes para compensar outras saídas de recursos. “Quando a gente olha serviços de uma maneira geral e a saída do fluxo financeiro, isso está prejudicando de uma maneira muito forte”, afirmou.

O economista destacou que o país continua recebendo dólares tanto pelas exportações quanto pelo investimento direto estrangeiro. “O Brasil tem, sim, estado entre os cinco, seis maiores receptores do investimento direto estrangeiro. É importante dizer que isso é puxado pelos Estados Unidos. Então, essa é a notícia boa, a notícia que segura muito as contas externas”, explicou.

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Serviços e remessas pressionam contas externas

Na outra ponta, Lucena apontou uma saída expressiva de recursos relacionada a remessas de lucros, venda de ativos e despesas com serviços. Custos de transporte, operações externas, softwares e royalties também contribuem para ampliar o fluxo de dólares para fora do país.

“A gente está vendo uma saída grande de dólares de bolsa e de investimentos brasileiros, muita gente se livrando de ativos brasileiros e remetendo esses recursos de volta para os Estados Unidos ou para outros países”, ressaltou.

Para o economista, entretanto, o resultado não significa que o Brasil esteja diante do início de uma crise cambial. “A gente não está falando que isso é um início de crise cambial. Muito longe disso”, frisou, citando o volume das reservas internacionais brasileiras como uma proteção contra situações mais graves.

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Lucena ponderou que o cenário se torna mais preocupante diante da possibilidade de redução do investimento direto estrangeiro e de uma atividade econômica mais fraca. “Eu vejo isso muito mais como um sintoma de uma economia doente do que, de fato, algo específico do que está acontecendo agora”, disse.

Problema pode ser estrutural

Questionado se a deterioração das contas externas seria conjuntural ou indicaria uma mudança mais duradoura, Lucena afirmou acreditar na segunda hipótese. “Eu acho que é estrutural. Eu acho que isso pode se repetir nos próximos meses”, apontou.

Segundo ele, decisões de retirar recursos do país podem estar relacionadas tanto à percepção de risco quanto ao custo de oportunidade dos investimentos. Nesse cálculo entram fatores como o cenário fiscal, as eleições, a reforma tributária e a segurança jurídica.

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“Todos esses riscos estão afastando, de fato, os investidores do Brasil. Então, se a gente não tiver um plano claro da economia brasileira, isso vai se repetir, porque ninguém bota o seu dinheiro em algo em que você não tem previsibilidade”, pontuou.

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Para Lucena, a falta de previsibilidade tornou-se um dos principais problemas para decisões de médio prazo. Mudanças nas regras tributárias também contribuem, na avaliação dele, para aumentar a cautela dos investidores.

“O que está faltando para o Brasil é a previsibilidade”, destacou. Segundo o economista, o efeito prático da incerteza é a opção por retirar recursos do país enquanto investidores aguardam maior clareza sobre os rumos da economia.

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Reservas afastam risco imediato

Apesar das preocupações, Lucena considera que o Brasil possui reservas internacionais suficientes para financiar o déficit externo sem enfrentar uma situação imediata de vulnerabilidade.

“O Brasil tem reservas internacionais suficientes para financiar qualquer período ao longo de seis meses ou, num caso extremo, um ano de déficits”, explicou. Para ele, o volume também permite preservar o regime de câmbio flutuante enquanto o país realiza eventuais ajustes.

O risco aumentaria, segundo Lucena, caso os déficits se tornassem recorrentes. “Se isso se torna repetitivo, isso vira um alerta para as nossas autoridades de que o ajuste fiscal das contas públicas e uma reorganização das contas têm que ser feitos”, observou.

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Lucena cobra ajuste fiscal e estabilidade das regras

O economista defendeu que o país precisa combinar maior previsibilidade com uma trajetória de melhora das contas públicas. Caso contrário, argumentou, a saída líquida de dólares poderá deixar de ser episódica.

“Não dá mais para ficar brincando de toda hora mudar regras de impostos, tem que parar. O Brasil vai precisar de previsibilidade, o Brasil vai precisar, de fato, de contas públicas corretas”, enfatizou.

Lucena relacionou ainda a estabilidade das contas externas aos pilares macroeconômicos do país. “O Plano Real foi criado baseado num tripé de câmbio flutuante, superávit fiscal e estabilidade monetária. Quando você quebra uma dessas institucionalidades, as outras não ficam em pé”, lembrou.

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Na avaliação do economista, a deterioração das contas externas deve ser encarada como mais um sinal para a necessidade de mudanças na condução econômica. “Isso é um alerta, é mais um alerta para que algo tenha que ser feito de uma maneira urgente”, concluiu.

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