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Mercado de trabalho segue forte, mas começa a sentir efeito dos juros, diz Mendonça de Barros

Publicado 27/08/2026 • 22:22 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Taxa de desemprego de 5,3% mostra um mercado de trabalho ainda aquecido, embora José Roberto Mendonça de Barros identifique sinais de desaceleração na atividade.
  • Economista afirma que efeitos dos juros aparecem primeiro nas empresas e atingem lentamente o emprego, enquanto projeta nova redução da taxa pelo Copom.
  • Pressão econômica é maior entre trabalhadores de baixa renda, que enfrentam preços elevados de itens básicos, endividamento e comprometimento da renda com apostas.

O mercado de trabalho brasileiro continua apresentando números muito fortes, mas já começa a dar sinais de desaceleração em resposta à política monetária, segundo José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados. A avaliação considera os dados da PNAD Contínua, que mostraram taxa de desemprego de 5,3% no trimestre encerrado em julho, a menor para o período desde o início da série histórica, em 2012.

Em entrevista nesta quinta-feira (27) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1995 e 1998), e ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior da Presidência da República (abr/nov 1998) afirmou que a desaceleração ainda ocorre de forma lenta e que os efeitos dos juros elevados aparecem primeiro no setor empresarial. “É um resultado que, de um lado, mostra uma certa desaceleração no mercado de trabalho, mas ainda números muito bons”, avaliou.

A PNAD Contínua mostrou ainda que o país tinha 5,8 milhões de desempregados no trimestre encerrado em julho, enquanto o contingente de ocupados ultrapassou 103 milhões de pessoas, maior número já registrado pelo IBGE. O rendimento médio mensal ficou em R$ 3.762, praticamente estável ante o trimestre anterior e 3,3% acima do registrado no mesmo período de 2025.

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Efeito dos juros chega primeiro às empresas

Para Mendonça de Barros, os números do emprego mostram que a política monetária começa a produzir efeitos, mas a transmissão para o mercado de trabalho ocorre de maneira gradual.

“A política monetária está fazendo o seu efeito, mas ainda, por enquanto, ele é muito mais forte em cima das empresas, haja vista o número de recuperações judiciais e extrajudiciais que estão aparecendo, e só lentamente isso vai acabar afetando o mercado de trabalho”, explicou.

O economista acredita que o Banco Central deverá analisar os dados de emprego em conjunto com os indicadores recentes de inflação. A MB Associados reduziu de 5% para 4,6% sua projeção para a inflação deste ano, movimento que, na avaliação dele, reforça a perspectiva de flexibilização monetária.

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“Tem alguma coisa positiva e certamente a taxa de juros, na próxima do Copom, vai abaixar de novo. Mas essa desaceleração está mesmo muito lenta”, afirmou.

Pressão é maior entre trabalhadores de baixa renda

Apesar da força do mercado de trabalho, os efeitos da conjuntura econômica não são iguais entre as diferentes faixas de renda. Mendonça de Barros identifica maior pressão entre trabalhadores que recebem até 2,5 salários mínimos.

“O aperto está muito mais forte nas faixas até 2,5 salários mínimos. Nas faixas maiores, a situação está até mais razoável”, afirmou o economista. Ele citou o desempenho das vendas de automóveis como um dos sinais de que consumidores de renda média e mais alta ainda demonstram maior capacidade de consumo.

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Segundo Mendonça de Barros, existe uma dicotomia entre os diferentes níveis de renda. “A soma dos dois é que dá essa desaceleração lenta, mas com a faixa mais baixa, mais pobre, sentindo uma pressão que me parece evidente”, destacou.

Problema está mais no poder de compra do que no emprego

A pressão enfrentada pelas famílias de menor renda, segundo o economista, está menos relacionada à disponibilidade de vagas e mais à capacidade de compra dos salários. O mercado de trabalho permanece apertado a ponto de alguns setores relatarem dificuldades para contratar.

“Eu acho que é menos o emprego, porque realmente o mercado de trabalho está muito apertado”, disse Mendonça de Barros. Ao citar a construção civil, ele relatou: “O pessoal da construção civil diz: ‘Só tem um lugar onde eu consigo aumentar a minha força de trabalho: é roubar do vizinho, da obra do vizinho aqui do lado’”.

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Ao mesmo tempo, embora a inflação dos alimentos tenha perdido força, os preços permanecem elevados. Mendonça de Barros afirmou que relatos do setor supermercadista apontam não apenas a migração dos consumidores para marcas mais baratas, mas também redução do volume comprado de produtos essenciais.

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“Quando você diminui a compra em volume de arroz e feijão, é porque está tendo que realmente se apertar”, ressaltou o especialista.

Endividamento e bets comprometem renda

Outro fator que ajuda a explicar a pressão sobre as famílias é o endividamento em relação à capacidade de pagamento. Mendonça de Barros também destacou o impacto das apostas esportivas sobre o orçamento das famílias de menor renda.

“As bets nas faixas mais baixas tomam renda mesmo”, afirmou. Nas camadas de renda mais alta, segundo ele, ocorre principalmente uma mudança na composição do consumo, enquanto entre os mais pobres existe uma restrição efetiva do poder de compra.

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“Eu acho que é menos o emprego, mais o poder de compra do salário frente aos preços das chamadas necessidades, peso do endividamento e essa competição que se estabeleceu com a coisa das bets, que toma renda mesmo, toma todo mês um pedaço da renda, especialmente nessas faixas mais baixas”, resumiu.

Política fiscal mantém pressão sobre juros

Questionado sobre o principal problema da economia brasileira, o economista apontou a política fiscal. “Eu não tenho dúvida e acho que a imensa maioria dos analistas tem hoje exatamente a mesma opinião”, afirmou.

Segundo Mendonça de Barros, a expansão dos gastos públicos permaneceu acentuada nos últimos dois anos. Embora tenha ocorrido aumento da tributação, as despesas avançaram mais rapidamente. De acordo com ele, a carga tributária aumentou o equivalente a 2% do PIB no período.

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“Como o gasto foi mais adiante, os déficits abriram e há uma pressão razoável na dívida pública”, explicou. Para o economista, isso cria um desequilíbrio entre as duas frentes da política econômica: “A política fiscal muito expansionista e a política monetária vai atrás tentando acomodar para que a inflação não suba muito acima da meta”.

Mercados aguardam sinalização do Fed

Mendonça de Barros também comentou o cenário dos Estados Unidos e a expectativa dos investidores para o discurso do presidente do Federal Reserve (Fed) em Jackson Hole. Segundo ele, o momento desperta atenção especial diante das preocupações com a expansão da dívida pública americana e as pressões inflacionárias.

“A expectativa é enorme. Todo ano sempre tem uma expectativa, mas neste caso é particularmente aguda”, afirmou. Ele citou ainda a expansão dos investimentos em inteligência artificial, o déficit público e o consumo como fatores acompanhados pelos mercados.

Para o economista, as dúvidas sobre a condução da política monetária aumentaram a ansiedade dos investidores. “Está todo mundo muito aflito de, afinal, qual é mesmo a visão do novo presidente do Banco Central com relação a essas pressões”, afirmou.

“Isso gerou uma expectativa enorme para amanhã e há muita ansiedade nos mercados e nos analistas. Saberemos amanhã”, concluiu.

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