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Crédito mantém inadimplência sob controle no Brasil, mas cria “estabilização artificial”, diz PicPay
Publicado 22/08/2026 • 15:30 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 22/08/2026 • 15:30 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
A manutenção da oferta de crédito ao consumidor endividado é hoje um dos fatores que impedem uma piora ainda maior dos indicadores de inadimplência no Brasil, avaliam os economistas do PicPay Ariane Benedito e Matheus Pizzani, em entrevista à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
Na avaliação de Ariane, uma interrupção brusca do fluxo de crédito, seja por bancos ou fintechs, tende a produzir o efeito contrário ao desejado. Em vez de corrigir o sistema, a medida poderia elevar a inadimplência ao cortar o mecanismo que permite ao devedor manter os pagamentos em dia.
“Acreditamos que, se a gente parar de dar crédito, esses números pioram. A inadimplência vai piorar”, afirmou.
Segundo a economista, o comportamento típico do devedor brasileiro envolve atualmente usar uma linha de crédito para pagar outra dívida. O consumidor pode, por exemplo, pagar um cartão de crédito com outro ou contratar um novo empréstimo para quitar uma obrigação anterior.
O arranjo preserva a adimplência no curto prazo, mas mantém elevados os indicadores de endividamento e comprometimento da renda.
Ariane descreve esse movimento como um “crédito sujo”, concentrado principalmente nas linhas mais emergenciais e líquidas do crédito livre, como o rotativo do cartão e o cheque especial.
“A qualitativa é péssima”, afirmou, ao avaliar que grande parte do endividamento está associada a produtos de alto custo e utilizados como ponte para rolar dívidas entre diferentes instituições.
Ainda assim, segundo ela, esse mecanismo ajuda a evitar uma explosão da inadimplência.
“A gente só não tem uma explosão porque você tem o crédito ainda fomentando que essa pessoa consegue pegar crédito no outro, pagar aqui”, disse.
Para Ariane e Pizzani, o efeito é uma espécie de “estabilização artificial” da adimplência. O consumidor permanece endividado e com uma parcela elevada da renda comprometida, mas não necessariamente migra para o atraso formal.
“Ele entra no comprometimento, no endividamento, mas não entra na inadimplência”, afirmou Ariane. “É meio artificial, mas ele está adimplente.”
A economista relaciona o cenário à expansão recente da bancarização, impulsionada por fintechs e bancos digitais. A ampliação do acesso ao sistema financeiro permitiu que as famílias utilizassem mais produtos e serviços, mas também elevou o comprometimento da renda.
Ariane pondera que a dinâmica é estrutural e não pode ser revertida rapidamente. Segundo ela, não há evidências claras de que a inadimplência já tenha atingido o pico, e a melhora dos indicadores deve exigir tempo.
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Siga o Times | CNBC“A gente precisa de anos pra mudar esses números, anos. Não é do dia pra noite”, afirmou.
Nesse contexto, interromper a concessão de crédito seria, na avaliação da economista, uma medida extrema contra a capacidade de pagamento do próprio consumidor.
“Não é parar de dar crédito agora”, disse, ao comparar a estratégia a um tiro de misericórdia na capacidade de pagamento do devedor.
A existência desse mecanismo, segundo Ariane, também ajuda a explicar por que programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, acabam se tornando recorrentes.
“Precisa ter, mas é o seguinte: daqui a três anos estamos aqui de novo fazendo outro Desenrola, tá? Porque é estrutural”, avaliou.
Ao comentar o custo do crédito, Ariane afirmou que pressões para reduzir os spreads podem ignorar o risco embutido nas carteiras. Na avaliação dela, forçar o barateamento do crédito sem uma redução correspondente do risco pode levar instituições financeiras a reduzir a concessão.
“Como é que você diminui o spread com esse risco? Não tem como. A conta não fecha”, disse.
Para a economista, a retração da oferta poderia, justamente, produzir uma piora dos índices de inadimplência.
No PicPay, afirmou Ariane, a dinâmica vem sendo discutida internamente pela área de crédito, especialmente para entender “como o carrinho não bateu no muro até hoje” e em que momento seria necessário reduzir o ritmo para não ser “a primeira empresa a bater o carrinho no muro”.
O diagnóstico, porém, passa pela necessidade de diferenciar o endividamento da inadimplência: mesmo com um nível elevado de renda comprometida e a rolagem de dívidas entre diferentes instituições, o consumidor pode permanecer fora das estatísticas formais de atraso.
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